ESTRUTURA

Em meio à pandemia, a falta de apoio aos idosos em Mogi das Cruzes

Além de ser mais vulnerável ao Covid-19, ele tem sido vítima frequente da descaso familiar e institucional
Além de ser mais vulnerável a Covid-19, os idosos são vítimas frequentes do descaso familiar e institucional. (Foto: arquivo)

Nos holofotes da pandemia provocada pelo vírus por serem os pacientes que apresentam os sintomas mais graves da Covid-19, os idosos passaram a receber as principais recomendações sobre a condição de prevenção da doença, ou seja, o isolamento social. Ainda é cedo para dizer alguma coisa sobre o futuro dessa população após o tratamento e a cura da doença que hoje mata mais os velhos e doentes graves. Até o presente, no entanto, o idoso é objeto de isolamento institucional e social que somente pode ser combatido por ele mesmo, segundo afirma a vice-presidente do Conselho Municipal do Idoso, Juraci Fernandes de Almeida. Para ela, se o adulto não se preparar para ser idoso, e se o idoso não agir por si mesmo – e ficar esperando pelos filhos ou pelo estado – ele não terá as benesses da qualidade de vida na terceira idade. 

“O idoso nunca foi prioridade. Não temos sequer um perfil atualizado sobre como vive essa população”, afirma a conselheira, destacando que a pobreza e a inacessibilidade aos serviços de convivência e de saúde são marcas na rotina dessa parcela da população que, no caso de Mogi das Cruzes, é formada por cerca de 60 mil pessoas. De acordo com previsões do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dez anos, o número de idosos (43,2%) poderá superar pela primeira vez a de crianças e jovens de 0 a 14 anos (42,3%). 

A maioria dos idosos recebe um salário-mínimo ou metade disso quando tem acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BCP). E os demais, mesmo quando começam a receber o teto pago pela Previdência Social, em alguns anos, vê o achatamento dos salários e o poder de compra reduzido rapidamente. “Uma parcela dos trabalhadores paga por até 10 salários-mínimos, mas quando vê, está recebendo por quatro, dois salários. Quem não conheceu a pobreza enquanto trabalhava, vai conhecê-la depois de se aposentar”, afirma ela.

À frente da Universidade para a Terceira Idade, a Unai, desde 1997, no Centro Universitário Braz Cubas, Juraci convive com as primeiras levas de idosos que concluíram uma ou duas faculdades, e se preocupa, na verdade, com a outra banda desse contingente, durante as últimas semanas, quando as notícias sobre a Covid-19 passaram a mostrar o tamanho da crise sanitária mundial.

“Na universidade, nós temos, hoje, os idosos de uma geração diferenciada, que têm desejos, como o de viajar, conhecer, fazer amigos. Um perfil diferente do que tínhamos há 20 anos, quando começamos, e recebíamos idosos que não tinham frequentado uma universidade. Hoje não é mais assim. Mas a Unai atende uma pequena parte desses 60 mil idosos da cidade, a maioria absoluta dos idosos é de baixa renda, sem acesso à informação, e nem mesmo aos 10 Centros de Convivência dos Idosos”, adverte.

Além da questão financeira, o mais vulnerável ao Covid-19 tem sido vítima frequente da violência familiar e institucional, uma violação de direitos que começa com a agressão física, moral e psicológica dos filhos e parentes e chega ao abandono do estado àqueles que dependem de uma instituição para sobreviver.

Na semana que passou, O Diário mostrou as dificuldades enfrentadas pela Secretaria Municipal de Assistência Social para o recebimento de dois pacientes idosos que estavam internados em um hospital da cidade, com alta médica, mas sem ter um abrigo para a convalescença – o homem não tem parentes, e mulher, solteira, reside com uma irmã também acima dos 60 anos e uma sobrinha. “Temos, isso ainda, a pessoa solteira ou sozinha é penalizada pelo estado e pela sociedade, quanto envelhece, porque não teve filhos, não se casou. Espera aí, todos pagam impostos altos para receber o serviço público, quando necessita”, argumenta Juraci.

A Covid-19 demonstrou ainda mais a necessidade de a cidade construir uma residência geriátrica, que não tem o status de clínica e serviria para receber esses dois pacientes, em passagens breves. Hoje, com três instituições que abrigam idosos (Pro+Vida, Estância Manuel e Maria e Casa São Vicente de Paulo), há uma fila com 39 pessoas que esperam vaga. 

Juraci afirma que a demanda por uma vaga institucional é subnotificada. “Não conseguimos estabelecer uma rede de informação que agregue os pedidos feitos em todas as entidades (como Cras, Conselho, Delegacia do Idoso, etc) e, há anos, tentamos fazer isso”.

‘Não adianta ficar esperando pelo filho, pelo neto, pelo governo’

Filhos não significam velhice tranquila e amparada. É o que diz a conselheira municipal do idoso, Juraci Fernandes de Almeida. Por isso, ela repete que as pessoas precisam se preparar para a velhice. E é interessante porque ao mesmo tempo que a geração de idosos está muito mais aberta para novos conhecimentos e experiências, falta o planejamento para esse momento da vida.

Na Unai, Juraci conta que um dos maiores desejos dos frequentadores é viajar. Por isso, viagens para o exterior e para cidades brasileiras, com um custo menor, passaram a ser realizadas pelos grupos de alunos, nos últimos anos. “E a experiência nos mostrou que, embora o aluno queira viajar, ele não se prepara. Qualquer destino fora do Brasil, exige saúde porque você precisa andar muito, percorrer museus, então, se a saúde não estiver em dia, não adianta ter o desejo de viajar”.

Planejamento financeiro é outra dica, além dos cuidados com a saúde. “Andar, atividade física, tudo isso ajuda”, acrescenta.

E qual o recado para quem quer viver bem, logo ali em frente? Juraci, responde rápido: “Eu diria cuide-se bem. Alimente-se bem, seja responsável com a saúde, com o planejamento financeiro, porque se você não se cuidar, não adianta ficar esperando pelo filho, pelo neto, pelo governo. Informe-se, eduque-se para entender o que está acontecendo. Como agora, o idoso precisa saber que o isolamento é o melhor para a fazer, é uma questão de saúde, de preservar a saúde”.

Órgão defende descentralização dos equipamentos para idosos

Entre as políticas públicas de destaque, há 15 anos, em Mogi das Cruzes, o Conselho Municipal do Idoso (CMI) acompanha o funcionamento das 10 unidades do Centro de Convivência do Idoso de Mogi das Cruzes, o Cecim, lançado durante a administração do ex-prefeito Junji Abe, e de outros equipamentos, como o Centro Dia do Idoso, no Rodeio – todos fechados na atualidade por causa da quarentena instalada por prevenção à propagação do coronavírus, que transmite a Covid-19.

Juraci Fernandes de Almeida, do CMI, destaca a importância desses espaços, mas admite que a atuação deles poderia ser potencializada. “Eles estão nos mesmos bairros, há anos, e isso restringe o acesso ao serviço. Antes, quem estava à frente, era um líder da comunidade, que conhecia os moradores do entorno, tinha o poder de fidelizar o participante. Hoje, não, são assistentes sociais”, diz.

Uma sugestão do Conselho Municipal é a descentralização dos Cecims para atender um número maior de idosos. “Esse equipamento poderia atender mais pessoas. O que seria interessante, que o frequentador tivesse acesso à informação, aos modelos de interação, mas que houvesse uma rotatividade no uso do Cecim, abrindo espaço para mais pessoas participarem. Um serviço de qualidade tem de dar ferramentas ao frequentador para que ele mesmo, depois de receber o atendimento, toque a vida, crie grupos e novas parcerias, siga estudando e adquirindo novos conhecimentos”. Para ela, o modelo hoje está engessado, e atende um universo pequeno entre os 60 mil mogianos abrigados nessa faixa etária.


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