CRÔNICA

Em meio a subida

Gê Moraes

            Vaga, vaguinha, vagão do trem que silva e vem resfolegando a serpentear pelas paralelas em direção à Estação de Alegria, onde alguém, na tarde fria e chuvosa, com ar de muita tristeza, achava-se à espera da composição que o levaria para bem longe dali, em função da desilusão e da peça que lhe fora pregada por quem dissera que iria até ali e que logo voltaria, mas voltar não voltou.

            Lá estava ele de pé diante daquela placa pendurada, onde se lia o nome da Estação. E ela parecia estar dando toda bandeira de que estaria gozando com a sua cara, pois houvera presenciado o passa-moleque que a moça do leque houvera lhe aplicado.

            E o moço triste que não tinha mais nenhum motivo para continuar vivendo em Alegria, não despregava os olhos do sentido em que o trem haveria de vir. A ansiedade parecia saltar por todos os seus poros e, lá no fundo do seu ser, certamente, não se cansava de dizer: – E esse trem que não vem… Este vento tão cortante… Esta chuva irritante… Ah trem, vem depressa e me livra dessa aflição que me devora o coração… Leva-me para bem longe daqui para que possa me refazer, renascer das cinzas a que fui transformado, em virtude de haver sido relegado ao esquecimento por alguém a quem dei minha vida, meu amor e tudo de mim.

            Ah, até que enfim, sentiu-se um tanto aliviado, tendo em vista o seu olhar investigativo haver divisado o comboio no horizonte e, sua afilada audição captado o seu amiúde resfolego e o sibilar do seu apito. À proporção que a composição se aproximava, seu coração aflito se alegrava e, até se deu conta também de algo que nunca antes havia notado: reparando bem percebeu o quão bonito era aquele trem e, como se pretendesse puxá-lo com a força do pensamento, dizia de si para si: vem trem… Vem… Vem.. Vem. E ele veio e estacionou na estação.

            E como sempre acontece por ocasião da chegada de um trem, houve um grande vai e vem: gente que descia gente que subia. E lá foi ele subindo também. Mas de repente parou em meio a subida, tendo em vista haver reconhecido alguém que estava descendo do trem. Esqueceu tudo… O vento que cortava tornou-se brisa que acariciava. A tarde fria de chuva em sol gostoso se fez. A tristeza virou alegria e, na Estação de Alegria houve o raiar de um novo dia. A alegria voltou. O amor existe. A felicidade reviveu. Quem desceu foi ela, quem não subiu fui eu! E hoje vivo a cantar nos braços da minha bela: seu beijo falta me faz, sem você meus dias são feios. Meu amor, eu só tenho paz quando me aninho em seus seios.

Gê Moraes é cronista

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