ARTIGO

Embora louco não seja

Gê Moraes

gedemoraes@bol.com.br

Se quem dialoga fala com alguém, quem monologa fala com quem?

– Por se tratar da fala de um só, há de ser que fale só para si, ou quando não, à uma multidão.

– Epa! Alto lá! Se a fala é para um mundo de gente já passa a ser um discurso.

– Longe de querer desviar o curso das suas águas e a corrente da sua razão, permita-me fazer uma colocação.

– Pois não, fique à vontade e solte o verbo.

– Sem querer me arvorar em orador, devo dizer que o falar a muita gente nem sempre caracteriza um discurso como aquele que tem princípio e meio, mas que nunca chega ao fim.

– Como assim?

– Para dissipar a neblina que paira sobre o nosso diálogo, tomemos a titulo de exemplo o Monólogo das Mãos, de Giuseppe Artidoro Ghiaroni (1919-2008), que através de um só, tem sido dirigido a centenas e, nem por isso é chamado de discurso.

– Bem lembrado, companheiro! E diga-se, ainda, que o referido monólogo ganhou relevância por conta da forte interpretação do ator Lúcio Mauro – falecido no dia 11 deste mês – que amiúde estava a declamá-lo.

– Perfeito! Agora o que não pode acontecer, mas infelizmente acontece, é que muitos colocam o monólogo e o solilóquio no mesmo balaio, como se fossem exatamente a mesma coisa.

– E não é?

– Ah, mas não é possível! Até você Brutus, meu filho? Supunha não ser preciso, mas fazer o quê? Vou explicar e dizer que solilóquio é o ato de alguém conversar consigo próprio, articulando os pensamentos de forma lógica e coerente.

– Não sou Brutus e nunca matei nenhum César. O que gosto de matar e, mato sempre que posso, é a curiosidade, pois ela me leva a saber das coisas, como agora que acabei de aprender que soliloquiar é falar sozinho.

– Muito bem! Mas como o nosso conhecimento já vem de longa data e sei quão fértil é a sua imaginação, sou capaz de jurar que sua cabeça já foi a mil e esteja pensando: “uai, se correto estou, quero crer que só louco é quem soliloquia”.

– Vai adivinhar assim lá longe!

– Mas é de muito bom alvitre que saiba que nem só os loucos vivem a soliloquiar. Conheço muita gente boa que, por terem se achado o suprassumo do melhor de tudo, hoje vive a falar com as paredes, embora louco não seja. E a exemplo do nosso corpo que, ao precisar de água, reclama através da sede, assim também o espaço sinaliza que basta o que já foi dito. Acredito. Mas antes deixo uma reflexão: se cabelo precisa de carinho e atenção, quanto mais o coração!

Gê Moraes é cronista