ARTIGO

Embrulhe e dê de presente

Gê Moraes

gedemoraes@bol.com.br

Naquela ensolarada manhã de inverno ele pulou da cama mais cedo do que de costume, foi ao banheiro e, após cumprido o ritual da higiene matinal, todo airoso e cheiroso, dirigiu-se à cozinha onde a esposinha ocupava-se do preparo do café de cada dia. Foi se acercando dela e logo soltou o verbo: “Querida, hoje te amo mais do que ontem e amanhã te amarei mais do que hoje. Ontem é passado. Amanhã é futuro, mas hoje é presente e, presente é dádiva e, tu és a dádiva que Deus me deu de presente”. Impactada pela surpresa, a mulher deixou o coador na saudade, pois a água fervente a ele destinada fora dele foi despejada. Por não ser bem aquilo que esperava ver, ele ficou sensivelmente desapontado, mas logo se deu conta de que a reação da mulher tinha tudo a ver, visto que, por mais que puxasse pela memória, não havia meio de se lembrar qual houvera sido a última vez que dirigira a ela um galanteio com fortes nuances de romantismo.

– Rapaz! Mas que pisada de bola mais quixotesca! E o pior de tudo é que existem por aí muitos jogadores com pinta de craques de time grande que andam pisando feio na bola no campo romântico, amoroso, carinhoso, amável e cavalheiresco que, por conta de alguns meros anos de vida em comum, deixaram-se envolver pela mediocridade da rotina e acabaram se esquecendo daquelas jogadas mirabolantes dos tempos de dantes, praticadas com malicia e picardia só para impressionar e conquistar aquelas torcedoras apaixonadas posicionadas nas arquibancadas

– É meu irmão, espero que você não faça parte desse time de craques que perderam a prática de jogar bonito no trato com as suas respectivas mulheres. Mesmo que as partidas já se prolonguem por longos períodos, não importa, o que vale é seguir tocando com elegância a bola com um afago aqui, uma caricia ali, acompanhado de muitos gestos carinhosos, palavras amorosas, amáveis, afetuosas e outros babados mais.

– Da minha parte posso afirmar, sem medo de escorregar e dar com a cara no chão, que nesse time de milongueiros nunca joguei e nem hei de jogar.

– Parabéns! Siga tocando essa bola bonita do meio campo pra frente e, naquilo que me concerne vou fazer a parte que me toca: Querida! Coloque um sorriso bonito nos seus lábios de mulher, embrulhe e dê de presente a quem a ama e bem lhe quer.

Gê Moraes é cronista