CHICO ORNELLAS

Encontros casuais

MOGI-DUTRA – Governador, Laudo Natel esteve em Mogi em 1972, para a inauguração da estrada Mogi-Dutra.
MOGI-DUTRA – Governador, Laudo Natel esteve em Mogi em 1972, para a inauguração da estrada Mogi-Dutra.

Fascinam-me os encontros casuais. Como o de há 10 dias, na Abruzzi (Rua Traipu, 145), típica cantina paulistana de bairro. Está nas Perdizes. Frequento-a desde que foi criada por Wando Rocha, o maitre que nos atendia em uma outra, na Rua Tupi (Santa Cecília). O mesmo que, nos almoços, dispensa o cardápio impresso e, sorridente, apresenta os pratos do dia numa toada simpática. Coisa de 20 anos.

Desta feita, aguardávamos, com um suco de tomate e carpaccio, o pene envolto em molho vermelho encorpado por manjericão e azeitonas pretas quando, à mesa ao lado, achegaram-se quatro senhores. Um deles, já idoso, os outros, maduros.

Comentei que conhecia o mais velho, e vi o garçom servir-lhe uma taça de vinho tinto com pequena porção de queijo gorgonzola. Eles conversavam animadamente. E assim continuaram por todo o tempo em que nos servimos, dispensamos a sobremesa, agradecemos pelo café e pedimos a conta (R$ 169,83).

Quando nos levantamos, fui ao senhor mais velho, toquei-lhe o ombro e lhe disse que estava feliz por vê-lo bem. Em seguida, recordei rapidamente de passagem que tive com ele, há muito tempo e perguntei-lhe dos filhos, Ivan e Maurício. Um dos circunstantes apresentou-se: “Pois eu sou Maurício, este é Ivan e agradecemos sua deferência”. Mais duas frases trocadas e nos despedimos.

Apresento-lhes os personagens deste domingo: O senhor mais velho é Laudo Natel, hoje com 99 anos, governador de São Paulo em dois períodos (1966-1967 e 1971-1975) e ali estavam seus filhos Ivan e Maurício.

Por todo o dia fui capturando lembranças com nossos personagens. As mais fortes estão fixadas no dia 15 de março de 1971, faz 48 anos. Eu tinha 24 anos e era repórter recém contratado pelo Estadão. Meu trabalho era na editoria de Cidades, mas naquele dia fui designado para reforçar a cobertura de Política, incumbido de acompanhar o governador que tomaria posse, Laudo Natel, da manhã até sua chegada à Assembleia Legislativa.

Bem cedo cheguei ao sobrado de uma rua tortuosa do bairro do Pacaembu. Havia três ou quatro carros policiais sem identificação e um grupo de seguranças. Fiquei bons minutos por ali pensando em como agir. Então, aproximei-me de um rapaz de 18 anos, o cumprimentei depois de ele passar algum recado a um segurança e me insinuei para entrar na casa. “Venha comigo”, disse Gerson.

Estava com ele – era mordomo – na cozinha quando chegou Pedro Paulo, motorista que todos chamavam de Caxambu e, então, há 16 anos com a família. Apresentamo-nos. Caxambu disse que teve amigos e uma namorada em Mogi e fomos interrompidos por dona Zilda, esposa de Laudo. Tão logo me apresentei, ela convidou-me à sala, onde estava o marido, que acabara de voltar do Aeroporto Congonhas, onde fora buscar o caçula Maurício.

Foi ali que fiz a entrevista: calmo, Laudo Natel respondeu a todas as perguntas, consciente que falava com o Estadão, jornal que lhe era crítico, assim como ao regime vigente pós 1964. Eu fora treinado para não permitir que a opinião do jornal interferisse no factual. No dia seguinte, o jornal estampava, em manchete na página 5: “Minha indicação não foi reivindicada”.

Na cobertura, a passagem de Laudo pela casa da mãe, na Rua Pamplona e a ida à antiga Capela de São Pedro e São Paulo, para assistir ao batizado da neta Rosana. Detalhe: o celebrante foi um mogiano: padre José Griecco (1917-1985). Padre Griecco foi, durante anos, vigário de Nossa Senhora do Brasil, a paróquia dos Jardins que acolhe o altar da antiga Matriz de Mogi. No Morumbi, assumiu a capela rústica, de madeira e coordenou a construção do atual templo, no Parque Alfredo Volpi. A rua à sua frente tem hoje o nome de Rua Padre José Griecco.

Carta a um amigo

Momentos de aperto

Meu caro amigo

Impossível que não tenha acontecido com você. Se fato, inscreva-se no Livro dos Recordes. Mas que todos nós, pelo menos uma vez nesta santa vida já passamos por um dissabor de fazer corar o dedo mindinho do pé direito, isso ninguém pode negar. Você pode?

Comigo foram várias. Nenhuma, é claro, semelhante àquela de uma tarde de segunda-feira, meados de 1977. Nenhuma. Nem mesmo o dia em que derrubei o porta canetas de prata do presidente do Banco Indústria e Comércio, em um elegante escritório da Rua Boa Vista. Voou a coleção de canetas e penas de ouro. Com elas, a entrevista que ele concedia.

Há tempos, em encontro de confrades, um deles contou-me o seu dissabor: não tinha nem 20 anos quando conheceu uma moça. Iniciaram o namoro e, algumas semanas depois, vem o convite para o jantar em família. Era a hora de conhecer sogro, sogra, cunhados. Família rica de muitos anos. Jantar formal, servido à francesa. Correu informar-se: gravata era exigida, ou bastava um blazer? Na dúvida, optou pela gravata. Sóbria como o terno. Barba feita duas horas antes, cabelo cortado com três dias de antecedência, ele ainda se lembrou de passar por uma floricultura. Não queria chegar de mãos vazias à mansão da Avenida Morumbi.

Atendido pelo mordomo, foi conduzido ao salão de inverno onde a família já o aguardava. Todos o receberam com indisfarçável simpatia. Ele entregou as flores à sogra e começou a agradecer pelo convite, quando viu uma criança sentada.

Que bom estar aqui, vejo que até crianças participam de nosso encontro”.

A “criança” levantou-se de pronto: “Não sou criança não!” Era uma parente da namorada, vítima de nanismo. Ele nunca mais voltou àquela casa. Esta lembrança me veio à mente ao ler notícia, agora, dando conta de que, em uma solenidade no Vietnã, à frente de 3 mil pessoas, a baronesa, socialite e empresária britânica Michelle Mone, pegou ao colo Nguyen Tan Phat, tomando o homem de 22 anos, que lhe fora entregar um buquê de flores, por uma criança.

Um momento, convenhamos, nada invejável. Nem mesmo por aquele convidado de duas festas promovidas nesta Cidade. Em 95, a festa pedia traje a rigor. O convidado foi de terno e gravata. Não ficou até o fim. Preferiu retirar-se em pouco tempo. Em 97, a pedida era gravata. O mesmo convidado foi de smoking. Não ficou até o fim. Preferiu retirar-se em pouco tempo.

Abraços do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
ALFARRÁBIOS – É dos guardados de Márcia e Marquinhos de Oliveira a foto, datada de 25 de janeiro de 1960 e que foi preservada por seu avô, Horácio de Oliveira, o primeiro à direita. Registra a inauguração da agência local do Banco Paulista do Comércio. Com a ajuda de amigos, foi possível identificar outros quatro personagens: Ulisses Borges de Siqueira (3º a partir da direita), Hélio Borenstein (4º), Maurício Kaufmann (5º) e Rafael Abbondanza (6º).

GENTE DE MOGI
ATIVO – Professor por vocação, esportista por deleite e amigo leal. Assim era ele nas relações familiares, profissionais e de amizade. Entre 1989 e 1991 integrou o Conselho Deliberativo do Clube de Campo de Mogi das Cruzes, instituição que presidiu no período de 1991 a 1993. Cid Boucault morreu em maio de 1997.

O melhor de Mogi

Casarão do Chá, a mítica construção do bairro do Cocuera, preservada pela Prefeitura e restaurada pela abnegação do ceramista Akinori Nakatami.

O pior de Mogi

O entrevero que um vereador e um secretário municipal tiveram por rede social há alguns dias. Respeito e compostura não fazem mal a ninguém. Pelo contrário.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter sido freguês da Loja BBC na Rua Dr. Deodato, aquela que era vizinha da Livroeton. Ela mesma, mantida com dedicação pela família Yoshizawa.


Deixe seu comentário