ARTIGO

Endereço da viúva

Gê Moraes

                  Pelas intrincadas veredas da vida caminham, as esperanças e ilusões de um jovem que idealiza um país de sonhos utópicos. Umonm país deveras feliz, onde tudo se desenvolve de um modo cabal, onde tudo transcorre de um jeito escorreito, castiço, sem manhas e artifícios. Onde tudo é perfeito: leis, costumes, sistema de governo, organização do trabalho e outros segmentos de uma sociedade transparente, equitatativa, qualificativa, sem desníveis e reentrâncias que engulam com voraz apetite os valores morais e os demais.

                  Um país que não seja elitista, onde o jovem idealista tudo possa pagar à vista. Onde o excesso de luxo e dissipação não existam. Um país, onde não haja ricos e nem pobres, onde todos vivam em casas modelares composta de três andares e de portas sempre abertas, uma vez que ninguém é dono de nada e tudo é de todos.

                  – Meu jovem idealista continue a trilhar as intrincadas veredas da vida. Não permita que pereçam suas magníficas e miríficas esperanças, pois sonhar é preciso, até que nasça o dente do siso e aconteça a cisão e os seus ideais se estatelem no chão, ao perceber que a perfeição do seu país é utopia pura e não pode ser atingida, ao menos por ora. Todavia, não esmoreça meu jovem, na próxima oportunidade retome os seus ideais e prossiga na briga. Siga na caminhada de sonhos e não se assombre com a realidade dos fatos, ao ver que os homens do seu país se amam como fazem cães e gatos.

                  Não se estarreça e nem se sobressalte diante do quadro surrealista, pintado com as cores tétricas das tintas de muitas pessoas famintas, nascidas num país de belezas esfuziantes e de riquezas altissonantes que bem poderia chegar ao estágio de país utópico, não fossem as absurdas incoerências ditas e praticadas por conselheiros, inspirados no Acácio de Eça, que extravasa sapiência nas páginas do romance “O Primo Basílio”.

                  Caro jovem idealista, não queira saber o endereço do soldado desconhecido: descubra o endereço da viúva.

Gê Moraes é cronista

gedemoraes@bol.com.br