CHICO ORNELLAS

Enredo de sempre com final conhecido

INCURIA – Quando não há compromisso, responsabilidade e vontade, nada impede que a memória se perca. Não há força capaz de preservar o Casarão dos Duque.

Não há outro exemplar de tamanho valor na cidade, a segunda vila fundada na Capitania de São Vicente. Mogi das Cruzes, que na visão do saudoso José Sebastião Witter, professor emérito da Universidade de São Paulo, era “uma Ouro Preto encravada na região metropolitana”, deixa sua memória ao léu. E, em poucos anos, se transformará apenas em um aglomerado de casas, prédios e gente que são se identificam. Dito isto, alguém lembrou de Itaquaquecetuba?

Não se trata, aqui, de lamúria saudosista, é a constatação de uma realidade. Mogi, no século XVIII, nem tinha 10 mil habitantes – no total, incluindo áreas urbanas e rurais dos distritos que se emancipariam: Salesópolis (1857), Guararema (1898), Arujá (1938), Poá e Suzano (1948), Itaquaquecetuba (1953) e Biritiba Mirim (1964). Essa lista não inclui Jacareí, emancipado em 1653.

Pois o Casarão do Duque, na Rua Dr. Deodato Wertheimer, é o último remanescente das antigas sedes de fazenda que definiam nossos limites urbanos. Ele dominava, ao Sul, a fazenda que serviria, em meados do século passado, à ocupação do atual bairro do Mogi Moderno.

Ao Norte ficavam as terras do Coronel Chiquinho de Souza Franco, identificadas como Fazenda Capelinha. A Leste, o domínio era de Lourenço de Souza Franco, sobre a Fazenda Santo Ângelo; sua casa grande até que resistiu mais tempo, no caminho para Suzano, próximo à Estação Ferroviária de Jundiapeba. Demolida, o terreno é ocupado por uma agência bancária. A Oeste (Cesar de Souza), a família Avignon parece que não tinha sede em sua propriedade, pois habitavam o casarão, do início do século XX que hoje, preservado, é posse da Cúria Diocesana. Mas havia, a Oeste, o Sítio São João, onde uma casa contemporânea ao Casarão dos Duque, cedeu ao descuido dos proprietários e à incúria das autoridades. Também o casarão e a capela da Chácara da Yayá, no entorno do centro.

Tudo leva a crer que esse será o futuro próximo do Casarão dos Duque, única construção ainda de pé e com senzala. O roteiro é o mesmo de muitos outros bens históricos de Mogi: discute-se em gabinetes, formula-se propostas, presta-se satisfação ao Ministério Público e nada de efetivo ocorre. O final do roteiro é conhecido: tudo vira poeira.

No caso em tela, há até escritura pública passada em cartório (1º Tabelião de Notas de Mogi): está fazendo nove anos que os atuais proprietários do Casarão dos Duque passaram escritura em que se comprometiam a apresentar, em seis meses, projeto de restauração da propriedade. Esse compromisso foi fundamental para a suspensão, em 2010, do processo de tombamento do imóvel.

O que aconteceu desde então? O promotor Leandro Lippi Guimarães, em novembro do ano passado, deu prazo de 30 dias para que a Prefeitura informasse se o compromisso, lavrado em cartório, estava sendo cumprido. Pelo que encontraram integrantes do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico (Comphap) na visita que fizeram ao local na semana passada, está “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.

Carta a um amigo

Passagens com Caio Carvalho

Prezado amigo Caio

Acabo de retornar do crematório de Guarulhos, onde estive, com Nanci, para suas exéquias. Momento triste neste ano que, mal começou, e não nos tem sido fácil. Mas a oportunidade permitiu-me conhecer Laura, sua esposa e o caçula Caito; também seus filhos mais velhos e rever sua irmã Neide.

Mal dei 10 passos depois de estacionar o carro e troquei olhares com uma senhora loira que tentava esboçar um sorriso. Nunca havíamos nos visto pessoalmente e a cumprimentei: “Laura, permita-me abraçá-la, esta é Nanci”. Ela retribuiu, apresentou-nos Caito e falamos sobre nossa amizade.

Contei-lhe que nos conhecemos por conta das namoradas que frequentavam, em 1962, o incipiente Ginásio Diocesano. Tínhamos, todos, ao redor de 15 anos, a mesma idade de Caito hoje. Sua família (o advogado Antonio Carvalho Neto, a mãe dona Edna e a irmã Neide) havia se mudado pouco antes, vinda de São Paulo, para Mogi. Procuravam tranquilidade e a encontraram no Sítio do Oroxo, como conhecíamos a paradisíaca propriedade à qual se chegava por uma estrada paralela à indústria Oroxo Esmeril, no caminho do Rodeio. Dr. Carvalho cuidou de construir a biblioteca para seu trabalho e a piscina para o lazer da família. E dos muitos amigos que você e Neide conquistaram por aqui.

Disse a Laura da constância com que nos frequentávamos, eu o sítio, você em casa na Rua Isabel de Bragança. Não creio que nossas mães tenham se conhecido, mas lembro-me das inúmeras trocas de mimos de que elas nos faziam portadores. Era um bolo de cá para lá, um coelho do criadouro que havia no sítio, de lá para cá.

Sempre a bordo do Simca da família, elegante automóvel de origem francesa que você dirigia. Com aquela idade, por ruas sem trânsito algum e perigo nenhum. Quando não estava com o carro, fazia o percurso em uma motoneta Leonette, sonho de consumo de 10 entre 10 adolescentes da época.

A conversa com Laura passou pela festa de aniversário de 15 anos de sua namorada, a sueca Kiki Wikman, em maio de 1963. Fiquei anos sem saber os motivos pelos quais você não esteve na festa, no casarão da esquina das ruas Tenente Manoel Alves e Flaviano de Melo. Muito tempo depois, tomando uma taça de vinho com Kiki, José Maria seu marido e Felipe, meu filho, em Madri, onde ela vive hoje, contou-me que fora impedido por dona Edna, pelo desempenho sofrível que apresentava na escola.

No curso da conversa perguntei por Neide a Laura. E ela me apontou sua irmã, que estava chegando. Fui abraçá-la, me identifiquei e a Nanci, que ela naturalmente não reconheceria. Não nos víamos há 50 anos. Pediu-nos que avivasse sua memória. E eu lhe disse:

– Pois é, Neide, depois que vocês se mudaram do Sítio do Oroxo para São Paulo, eu ia semanalmente ao sobrado da Rua Teixeira da Silva, travessa da Avenida Paulista, furtar um pedaço de bolo e dois dedos de conversa com seu irmão. Chegava mais cedo para as aulas de inglês que fazia na União Cultural Brasil Estados Unidos, ali ao lado. Também visitei o escritório de seu pai no prédio do Cine Marrocos, na Rua Conselheiro Crispiniano e, em seguida, na Avenida Lins de Vasconcellos. E estive com Caio na gráfica que ele montou, para produzir formulários contínuos na informática que engatinhava.

Mas não o via, Caio, desde que você, com Laura e Caito, foram morar em Ilhabela. Você advogando, principalmente na área ambientalista, e Laura tocando o Restaurante Gaudi, dentre os mais estrelados no site TripAdvisor. Bem que combinamos de nossos visitar. Não deu tempo.

Grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
COLEGIAIS – O flagrante tem quase 64 anos, foca alunos do Colégio do Estado, antecessor do Instituto de Educação Dr. Washington Luiz e me foi enviada pelo amigo Raphael Urizzi Garcia. Estavam, então, na 7ª. série os jovens: Glauco de Lorenzi, Ademar Cáfaro, Raphael Urizzi, Maurício Schripas, Climário Rego Filho, Rodolpho Jungers, Garcia, Cláudio Martins, José Carlos Prestes, Mario Kato, Jorge Salvarani, Francisco Bécsi, Fernando, Antonio Carlos Machado Teixeira, Fernandão, Vicente Yague, Basílio Kaptritchcof e Leonísio Sales de Abreu

GENTE DE MOGI
NOIVA DA ESTRADA – Ela habitaria a biquinha, na curva final da serra na Estrada Mogi-Guararema. Estaria ali desde que morreu, em um acidente, quando ia ao próprio casamento. Diz a lenda que, desde então, à noite, pede carona a motoristas solitários, que lhe negam. Ao seguir viagem, o condutor olha pelo retrovisor e vê a noiva loira sentada no banco traseiro. Perde o controle, bate o carro e morre.

O melhor de Mogi
Aos 94 anos de idade recém completados e 66 de prática da Medicina, o dr. Nobolo Mori segue por aqui como referência de cidadania.

O pior de Mogi
Anotem: os cemitérios da cidade estão à beira da saturação. Resta sabe se a questão incluirá novos espaços ou a instalação de um crematório.

Ser mogiano é…
Ser mogiano é… conhecer alguém que trabalhou na Mineração Geral do Brasil.