EDITORIAL

Entre a realidade e a mentira

Como separar a realidade da mentira replicada à exaustão e numa velocidade incrível?

Aos conhecidos e gravíssimos problemas do sistema educacional brasileiro, professores, pais e estudantes passaram a conviver com um pesadelo a mais: o drama da insegurança desde o mais recente massacre de estudantes e educadores ocorrido na EE Professor Raul Brasil, em Suzano, em 13 de março passado. Boatos sobre ameaças de ataques passaram a ser registrados em diversas comunidades estudantis. Em Mogi das Cruzes, a onda mais recente teve início nesta semana.

Esse drama realça um enigma dos tempos atuais, de alcance mundial. Como separar a realidade da mentira replicada à exaustão e numa velocidade incrível, de modo a salvaguardar as pessoas e a sociedade dos estragos desencadeados por pessoas mal intencionadas?

As redes sociais transformaram todas as pessoas em potenciais transmissores de notícias falsas ou mal interpretadas, como ocorre agora mesmo, em Mogi, a partir da fotografia de um cartaz colocado no portão de uma escola para explicar que os visitantes não seriam atendidos por uma questão de segurança, em determinado dia da semana. Em pouco tempo, os dizeres foram distorcidos. O que era um comunicado endereçado apenas a quem não era professor, estudante ou pai de aluno acabou se transformando em uma informação errônea sobre a suspensão das aulas (que, no caso, não aconteceu).

Um dos fenômenos das fake news está justamente na pessoa movida pelo desconhecimento, mas de boa fé, que replica o que recebe nos grupos de amigos e da “família” sem o crivo da crítica, da razão e da responsabilidade.

Dentro da escola, em específico, não há nem como mensurar os danos no sistema educacional calejado por tantas baixas medidas pelo aumento da evasão escolar, a redução das matrículas no ensino médio e baixo desempenho dos alunos.

A tragédia de Suzano reabriu feridas vivida no passado recente, com a morte de estudantes na escola do Realengo, no Rio de Janeiro. E demonstrou, sim, que há falhas na segurança dos prédios escolares e das políticas públicas de prevenção à violência dentro e fora da escola.

Essas preocupações são reais. E exigem muita atenção de quem está mais próximo dos estudantes, dos pais, professores, funcionários e diretores (e também de organismos como as secretárias de Educação e de Segurança Pública) sobre o que está acontecendo dentro de cada escola.

A boa comunicação assume papel fundamental na separação da realidade e da mentira e na tomada rápida de providências para a investigação de mensagens e atitudes suspeitas para prevenir conflitos que podem levar a tragédias como a vivida por todas as vítimas de Suzano.

Há muita boataria nas relações sociais e virtuais. Mas também riscos reais. Suzano nos mostrou isso da maneira mais dolorida possível.