ENTREVISTA DE DOMINGO

Ana Maria Sandim e a preservação da memória mogiana

Ana Maria Sandim acompanha, com muita preocupação, as mudanças que têm mudado o perfil de Mogi. (Foto: Eisner Soares)

A ligação com Mogi das Cruzes começa com a saída do avô, o português Davi Simões de Abreu, de Campinas, para trabalhar na Mineração Geral do Brasil. Ele era bom com números, como ela. Ana Maria Sandim é mogiana. Nasceu no Hospital Santana e morou no número 433 da Rua Barão de Jaceguai, próximo de famílias, casas e comércios que conhece em detalhes. As mudanças da família para ruas como a Eugênio Mota e a Basílio Batalha, imprimiu na mente da professora, engenheira e arquiteta, a maneira como Mogi cresceu. A Rua Brás de Pina nem calçada era. Todos se conheciam. O Mercadão sofreu baixas num incêndio dos anos 1960, que ela teme ver novamente nos casarios daquele entorno, muitos com telhados contínuos, sem a divisão entre um e outro. Era casada, com dois filhos, e a terceira a caminho, quando cursou a Faculdade de Arquitetura, na UMC. E ali leciona desde 2013. Ainda universitária, integrou a comissão formada pelo prefeito Antônio Carlos Machado Teixeira para avaliar a desapropriação do Casarão do Chá, propriedade que pertencia à família Namie. Não parou mais de assinar o nome em conselhos municipais, que determinaram o que ela classifica como fundamental para a preservação da memória mogiana. “Mogi, de legislação, está muito bem, mas só conselhos fortes poderão frear as ilegalidades que destroem a história da cidade”, opina. Eis a entrevista:

Como a sua família chega a Mogi?Nós morávamos em Campinas, mas o meu avô deixou seus negócios nas mãos de um sócio, e não deu certo. Então, ele veio trabalhar na Mineração (Geral do Brasil), nos serviços de terraplagem, para a siderúrgica, mas morreu um ano depois, em 1947, num acidente de trator. Não o conheci. Minha avó seguiu cuidando da família, em Mogi. Minha mãe, Maria de Lourdes Araújo Abreu, foi professora no Quatinga, e depois em Ferraz e em Poá, e lembro de ir com ela, de trem, para essas cidades. Ela era professora primária.

Onde você morou?

Primeiro, na rua Barão de Jaceguai, 433, e depois em outras ruas para onde o centro se expandiu, Engenheiro Eugênio Motta e Basílio Batalha. Nessas ruas convivi com famílias como os Caporalli, Monteiro, Villar, Padovani, Pinhal. Eu estudei na Creche Santana, com a professora Marli; no Coronel Almeida, com a professora Nilceia Cristófaro; na Omec, que funcionou em uma parte do hoje Colégio Santa Mônica; no Washington Luís, e com a reforma do ensino do Estado, terminei o Colegial (hoje, Ensino Médio), no “Chicão” (EE Francisco Ferreira Lopes). Casei em 1975 (com Manoel Añon Varela, hoje ex-marido) e, como ele fazia Medicina e o curso era caro, só comecei a estudar mais tarde, quando já tinha os primeiros filhos, Rachel e Thiago, e estava grávida da terceira, Ana Carolina, quando fiz a Faculdade de Arquitetura. Antes de concluir a faculdade já trabalhava no escritório Pleno Projetos e Serviços, que atendia muitos projetos fora de Mogi, como Alphaville, shoppings e a CDHU. Lecionei na Unicsul, na Braz Cubas e depois na Belas Artes. Agora é que estou com essa ‘raizona’ em Mogi.

E como você começa a atuar em projetos para o poder público?

Ainda na faculdade fiz parte da comissão que o Machado Teixeira (Antônio Carlos) criou para estudar a desapropriação do Casarão do Chá, que pertencia à família do vereador Sethiro Namie. Anos mais tarde, acabei conhecendo o Akinori Nakatani, a quem Mogi deve o restauro desse patrimônio histórico. Depois, não parei mais de participar e acompanhei a verticalização e expansão de Mogi. Fiz parte do estudo encomendado pelo prefeito Waldemar Costa Filho, feito pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para a construção de um polo turístico que envolvia o Pico do Urubu e as barragens. Integrei o Grupo de Peritagem, que embasou a Defesa Civil de Mogi, e vários conselhos – de Cargas Perigosas do Estado, de Cultura, de Meio Ambiente (o único que participa hoje), e Comphap.

Como começa o Comphap?

Com o professor Jurandyr Ferraz de Campos, secretário de Cultura no governo Junji Abe, em 2001. Embora as pessoas critiquem, essa foi a primeira lei, a 5.500, de 31 de março de 2003, que estabeleceu uma política sobre o que e como deve ser preservado, e benefícios aos proprietários dos imóveis. Mogi tem uma história de 400 anos, e uma lei para ser cumprida.

Por que a lei é criticada?

As regras da legislação de Mogi, uma das primeiras do Estado e que serviu de base para muitas outras cidades, são claras e estabelecem os parâmetros de interesse para a preservação histórica e paisagística. E elas se encaixam em outras diretrizes, do Plano Diretor, do Uso e Ocupação do Solo. Agora, as pessoas interpretam a lei como querem. Conseguimos ampliar a proteção do raio de proteção dos 300 metros (a partir das Igrejas do Carmo) para até a Praça dos Imigrantes, e construímos um olhar da comunidade para o patrimônio. Até ali, vigorava o olhar do estado marcado pelo regime militar de 1964, e o que interessava eram apenas os prédios públicos. O nosso maior símbolo foi a derrubada, em 2004, do prédio que abrigou o Café Chandon onde, até hoje, não pode ser construído outro prédio que não seja a reconstrução do que existia. Foi aí que o Condephaat reconheceu pela primeira vez a autonomia do Comphap.

Mas o prédio foi derrubado…

Sim, mas ainda corre uma ação para que o proprietário pague ou reconstrua outro imóvel com as mesmas características no local.

Nesses últimos anos, mesmo com o Comphap, prédios foram demolidos.

Essa é a questão: o Comphap não foi criado para resistir às mudanças no Centro. O nosso problema não é resistir, mas ordenar as mudanças. O centro precisa se modernizar e vai mudar. Mas o que a Lei do Patrimônio propôs, e está conseguindo fazer, é impedir a verticalização do centro (antigo). Daí, as pessoas vão dizer, mas e o prédio do Instituto Placidina? É preciso saber que ele foi aprovado antes de vigorar a lei que expandiu o raio de interesse de preservação, e quando isso aconteceu, o projeto estava autorizado. O que eu vejo como conquista é o fato de a lei ter criado uma atitude positiva em proprietários como os do Morumbi ou da Padaria Americana, que fizeram projetos preservacionistas. Mas haverá arquitetos e pessoas que pensam o contrário. E arquitetos que consideram a memória como uma parte da cidade.

O Comphap vive impasse como a preservação do casarão dos Duque, e você viu o casarão dos Barradas ser derrubado. Qual será o futuro desses imóveis?

No caso dos Duque, há uma proposta de a Prefeitura desapropriar, como aconteceu com o Casarão da Coronel, um caminho também tentado com o Casarão dos Barradas, mas, ali, o problema foi a falta de documentação. Se naquele momento (no governo Marco Bertaiolli), tivesse a documentação, o prédio teria sido poupado. Agora, o Comphap enfrenta dificuldades como a falta de pessoal técnico para amparar as ações, e por isso, Mogi precisa contar com um Departamento Histórico. O Comphap não foi criado para cuidar apenas dos prédios, há o acervo mogiano, há um patrimônio natural, como as árvores de mais de 100 anos (caso da seringueira ao lado do Teatro Vasques). E sobre as críticas, eu sempre penso que o mogiano vai para Minas ou para Parati, e acha tudo lindo, todos os casarios antigos, mas em Mogi não.

Como a influência política interfere na preservação?

Ela existe, não posso negar. Um prédio escolar mudado recentemente, na Rua Barão de Jaceguai, mostra isso. A demora no andamento dos processos de tombamento é problemática também. Nós temos prédios que não têm a documentação em ordem. O Teatro Municipal, por exemplo, nós tivemos que fazer um processo por usucapião para tombá-lo. É a lerdeza, a lentidão do estado. Há proprietários que apresentam documentos de má fé, na tentativa de ver o Comphap aprovar algo que não pode ser feito.

Qual será o futuro do centro?

A ocupação do centro começa a mudar em 1990, mas os efeitos negativos desse processo já são sentidos nas décadas de 1980, em outras cidades, como São Paulo. Mogi ainda tem vida, ainda há famílias que moram nos comércios, e movimento nos calçadões, no Centro Cultural, que leva os jovens a andar de skate por ali. Mas há resistência. Quando tinha rock no Largo do Carmo, muita gente reclamava. Então, o jovem sai do lugar e o lugar morre. Agora, as funções do comércio com a informatização, as vendas online, estão mudando, e o Centro pode ter outras funções no futuro.

Mas há vida no centro.

Sim, e eu me preocupo muito com uma questão, a segurança das casas e lojas do centro. Você olha Mogi por cima e vê que os telhados não têm separação, muitos deles com madeiramento e instalações elétricas antigas. Eu me lembro do incêndio no Mercadão, em 1963. O centro não está livre disso.

E a Vila Oliveira?

Ela terá ruas com comércio, mais na região central, e outras vias de residências, no entorno, e vejo a chegada da verticalização, nas bordas. Nós sentimos isso, o comércio expandindo, as clínicas médicas, escolas. E há uma proliferação de pequenos condomínios.

E a ocupação do entorno da Serra do Itapeti. Como vê?

Acompanhei a apresentação do projeto, e ele prevê, mais para perto da mata, chácaras de 20 mil metros quadrados. O problema: uma coisa é o papel, outra a realidade da ocupação. Nós temos os primeiros condomínios sem sistema de tratamento de esgoto. E isso não pode acontecer. Os conselhos precisam se fortalecer para fiscalizar, pressionar o cumprimento dos projetos aprovados. Veja o que aconteceu em Alphaville, que previa a ocupação em 30, 40 anos. Em 15, o condomínio já está saturado. Será preciso cobrar dos órgãos públicos o saneamento, a segunda perimetral.

Qual é a sua análise sobre o crescimento de Mogi?

É um crescimento de qualidade que atende ao que o Jaegher (primeiro responsável pelo Plano Diretor de Mogi) desenhou. Se não fosse o Jaegher, o crescimento teria sido mais a torto e a direito, com a verticalização no centro, mas não, ela ocorreu nas margens. Outro ponto positivo foi a expansão de leste a oeste, seguindo a linha de trem. O trem precisa chegar até César, e rápido, para promover o transporte público. Há uma harmonia. Nessa linha, leste a oeste, estão os bairros destinados às classes trabalhadoras, C e D, e no outro sentido, sul e norte, os bairros residenciais (Aruã, Vila Oliveira).

Mogi tem qualidade de vida?

Tem, se você observar bem. Uma cidade não se constrói só com cimento e tijolo, ela é feita pelas pessoas que, independente de suas religiões, têm memória afetiva, a presença de igrejas, de marcos de sua vida, como a escola que estudou. A Igreja do Bom Jesus, por exemplo, de 1764. Quantas pessoas não se casaram ali, não se localizaram pela presença dela, em frente ao Largo?

E preservação, continuará?

Eu vou receber tijoladas, mas sim, o Comphap, a Lei do Patrimônio, vão garantir isso. Nós temos de lembrar que a velocidade do crescimento foi muito grande nesse período, e em 15 anos, o Comphap foi importante para reduzir o ritmo das demolições. Agora, elas não continuarão? O poder público, os conselhos, as pessoas vão decidir. Um fenômeno recente é a participação nos conselhos, que começou com muita gente dizendo que eles não funcionariam, e funcionaram. Na audiência sobre o projeto de ampliação da capacidade da Barragem de Taiaçupeba, nós tivemos 63 entidades representadas, de Mogi e de Suzano. E foi lá que foi decidida a criação de um grande parque linear, na borda da represa, para atender as duas cidades, com 200 quilômetros de extensão.