ARTIGO

Entrou na casa errada

Gê Moraes

            A cada momento que o tempo passa, o homem busca tempo para preencher o tempo que passa. E ao passo que passa o tempo, busca contemporizar as coisas que criou em desacordo com as dimensões previstas pela declaração que rege os direitos dos que se pautam pelo andar direito.

            – Pelo jeito do rumo do vento deve estar vindo por aí uma chuva de granizo que vai pipocar no cocuruto de muitos e danar a lavoura de outros tantos.

            – E vem mesmo, pois não é mais concebível continuar aceitando, com um sorriso de orelha a orelha, o pão e o circo que estão a nos empurrar goela abaixo, enquanto tomam de assalto nosso galinheiro.

            – Pão e circo? Até que não são coisas más!

            – Podem não ser pra você que já parece ter se rendido à ideia de ter o lombo arreado para que o cavaleiro se abanque.

            – Vamos devagar com esse bonde, senhor motorneiro! Com que então, está a insinuar que não passo dum asno?

            – Bem, se você acha que o atual estado de coisas é a coisa mais natural do mundo e que deve seguir como está, então…

            – Seja mais claro, por favor.

            – Se bem lhe parece que a corrupção ande a galope e a honestidade marque passos: que a violência se locomova à velocidade da luz e a segurança caminhe de muletas: que a desigualdade social se desenvolva em progressão geométrica e a igualdade progrida em ritmo aritmético…

            – Pode parar! O recado já foi captado. E como prova de que já estou acordado, atrevo-me a colocar mais tempero na gororoba.

            – Que bom que tenha despertado! E quais os ingredientes que deseja acrescentar?

            – Os propalados direitos iguais perante a lei. A proteção contra qualquer tipo de discriminação. A plena liberdade de opinião e expressão. A Saúde na justa medida. A Educação no exato padrão. As justas e favoráveis condições de trabalho para todos com justa remuneração, que possibilite uma existência compatível com a dignidade humana. Onde está tudo isso? Só no papel? É de urgência urgentíssima que se faça alguma coisa para que todas essas coisas saiam da clandestinidade e produzam os seus devidos efeitos.

            – Pelo zumbido do zangão! Valeu o cutucão! Agora vá e cutuque mais um brasileiro para que acorde e se junte àqueles que lutam para dar fim ao pão e ao vinho para que não ocorra que à noite, ao voltar para casa e encontrar uma mulher que lhe dê amor, afeto e ternura extremada… Não tenha a impressão de que entrou na casa errada.

Gê Moraes é cronista

gedemoraes@bol.com.br