LANÇAMENTO

EP reúne canções “inéditas” de Henrique Abib

VOLTADO PARA MPB Com muita profundidade e poética, as quatro “novas” músicas de Henrique Abib falam de amor e também contam a história do samba. (Foto: divulgação)
VOLTADO PARA MPB Com muita profundidade e poética, as quatro “novas” músicas de Henrique Abib falam de amor e também contam a história do samba. (Foto: divulgação)

Um EP com quatro canções “inéditas” de Henrique Abib acaba de ser disponibilizado nas plataformas digitais. As aspas se fazem necessárias, pois, apesar de nunca terem sido colocadas à disposição do público, as composições foram gravadas há cerca de 15 anos para o antigo Prêmio Visa de Música Brasileira. Retrabalhadas, agora finalmente se tornam acessíveis, e revelam um cantor mais voltado à MPB e toda a poética que acompanha o gênero.

Entre outros temas, o compacto ‘Filho do Quilombo’ traz faixas com rimas sobre amor. É o caso de ‘Louça Chinesa’, que por meio de analogias compara um coração a uma peça de louça, “ambos frágeis e de muito valor”, e também ‘Um Bem’, que funciona como uma “reclamação”, mas ainda assim é “bastante poética”.

A terceira música, ‘Telhado de Vidro’, continua falando sobre sentimentos, mas como o título sugere, trabalha indiretamente a parábola de “não fazer com o outro o que não quer que seja feito a você”. E a finalização vem com a faixa-título ‘Filho do Quilombo’, que surpreende por trazer ritmo afro para cantar a história do samba em versos como “Sou filho de quilombo, nascido em berreiro/ Minha mãe é da Bahia / Meu pai do Rio de Janeiro”.

Como o autor das letras conta, são composições cunhadas “em 2004 ou 2005”, e que depois de não terem sido classificadas na competição Visa, ficaram guardadas. “Mateus (Sartori, secretário municipal de Cultura) as pegou sem eu saber e transformou neste disco compacto que achei legal pra caramba”, explica Abib, que acaba de completar 63 anos.

Já faz tempo, mas lembrança está lá. “Gravamos no estúdio do cantor e compositor Mario Gil, em São Paulo, que é muito amigo”. Na ocasião, participaram o próprio letrista, Mateus Sartori e Péricles Longo.

Para Abib, que não esperava o lançamento do EP, a ação veio em boa hora. “Quem é mais chegado sabe o que eu faço além de samba, mas esse disco meio que me redime nesse sentido”. O que ele quer dizer é que, de seu vasto cancioneiro -que nunca pensou em contar, mas acredita que deve conter mais de 400 faixas-, até o momento foram gravados principalmente sambas.

O ritmo, na verdade, é o tema principal de ‘O Que Minh’Alma Velha Guarda’, que fez “atiradamente” em 2009. “A coisa do samba é estigmatizada entre nós, então decidi fazer para tirar isso da frente e tentar mostrar meu trabalho, que é mais voltado a MPB”, explica.

Nove anos antes disso, porém, Abib já tinha registrado outro disco, ‘Teu Nome’, cuja tiragem foi de 130 unidades, e nem ele próprio tem um exemplar físico. Assim como o outro álbum, este está disponível nas plataformas digitais graças ao trabalho de Mateus Sartori, que tem resgatado trabalhos como estes, que não se tinha mais como ouvir a não ser a partir de CD ou vinil.

Abib diz que ‘Teu Nome’ tem bons materiais, profundos e poéticos, “mas por conta de outros ritmos que tem lá, ficou com ar de eclético, e a qualidade é muito ruim, já que a gente entrava no estúdio todo mundo junto, tocava e cantava, pra gravar a toque de caixa, como uma brincadeira, sem perspectiva de fazer show de lançamento”.

Aí então a conversa se volta para ‘Filho do Quilombo’, que conduz o ouvite a perceber o talento do mogiano para a MPB. “É isso o que faço, e não estava absolutamente transparecendo nos outros trabalhos”, conclui Abib, que apesar de toda a trajetória musical não se considera um artista, ainda que escreva novas canções todas as semanas.

Há outros materiais não gravados

Ainda que poucas canções de Henrique Abib tenham sido lançadas, sua obra é extensa. Ele mesmo dá alguns exemplos, como um repertório que garante que preencheria um disco duplo, sendo um com referências aos “mineiros do Clube da Esquina” e “melodias que remetem a este universo”.

Outro projeto temático é um sobre Mogi das Cruzes, com direito a uma letra sobre o Rio Tietê, apelidado de Rio Caipira, outra sobre a Entrada dos Palmitos, tradição presente na agenda da Festa do Divino e mais uma sobre o Pico do Urubu.

“Sempre quis, de alguma maneira, mostrar o que faço, mas a timidez e a inibição sempre falaram mais alto, junto da falta de pretensão artística em termos de mercado”, diz ele, que não tem planos para lançar as tais canções sobre a cidade, embora as tenha repassado à Secretaria de Cultura como um registro histórico da Mogi de antigamente.

Antigamente, aliás, Abib lembra que se reunia para confraternizar, cantar e compor com colegas, dentre os quais Mateus Sartori, Paulo Henrique (PH), Gui Cardoso, Waldir Vera e outros. Algumas reuniões continuam acontecendo ainda hoje, mas como não gosta de cantar em público, ele prefere ouvir, sem se esquecer das próprias composições, como uma que versa sobre como “cabulava aula” com um amigo, para nadar, jogar bola ou ir até a capital.

Sem pretensões artísticas

Depois de trabalhar em bancos, Henrique Abib teve longa passagem no jornal O Diário de Mogi. Entrou na empresa em 1991, atuou nos setores administrativo, circulação e gráfica e deixou a empresa em 2007, para se dedicar a novos desafios em outras empresas. Sem emprego formal há dois anos, ele diz que de certa maneira “já estava ambientado a esta condição”, se referindo a quarentena, que considera uma “situação incômoda”.

Aos 63 anos, Abib faz parte do “grupo de risco” do novo coronavírus, e evita pensar na doença ou em qualquer outro efeito negativo da pandemia, embora procure se prevenir como pode, principalmente para continuar presente para a esposa, que trabalha na área da saúde, e para os filhos.

Enquanto enfrenta a situação, o compositor conta estar “buscando o que fazer”, profissionalmente falando. Ele diz “ter planos” , mas nenhum artístico. “Não tenho perspectiva social para me colocar como artista”, resume, mas se mostra feliz pelo novo EP e também pelas inúmeras parcerias com outros compositores e cantores que colecionou ao longo da carreira.


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