ARTIGO

Escrita a batom

Gê Moraes

gemoraesodiario@ig.com.br

Ele caminha para casa, cansado, estressado, mais pra lá do que pra cá, por conta da ameaça de degola que anda a rondar seu pescoço, em razão da crise financeira que já está botando banca no costado da empresa em que trabalha.

Chega, abre a porta, vai direto à geladeira e toma dois copos d’água para amenizar a pressão do calor que o sufoca. Passa batido pela sala e dirige-se ao quarto. No espelho do toucador, uma palavra escrita a batom: “ADEUS”. Apenas uma palavra pequena, um verbete de cinco letras, mas grande o suficiente para detonar o seu mundo.

Sua esposa foi-se, o vento a levou, ou teria sido o Bento, aquele que dizia ser seu amigo, mas vivia espichando cúpidos olhares para cima da sua mulher? Não sei se devo meter a colher, mas quando tal coisa acontece, das duas uma: o fogo apagou ou a lagoa secou e, chegando o trem a tal estágio, o descarrilhamento é uma questão liquida e certa.

Não se sabe, exatamente, qual das duas levou a sua composição a saltar dos trilhos, mas nunca é demais dizer que na sociedade conjugal, a nenhum dos sócios é dado o direito de descuidar do combustível que alimenta a fogueira do amor e nem de ser relapso com a água que abastece a lagoa do bem-querer.

O que acima se lê nada mais é do que uma situação forjada pela imaginação de quem escreve, contudo, ninguém, em sã consciência, pode dar-se ao luxo de negar que situações iguais a essa ocorrem em larga escala por esse meio de mundo, levando à total bancarrota uniões, tidas e havidas como indestrutíveis, como aquele navio de triste memória, que saiu das trilhas marítimas para entrar nos anais da História.

E o resto é aquilo que se sabe, ou melhor, que se julga saber, pois quando pensamos que sabemos das coisas, aí a coisa se complica e nos damos conta de que da missa não sabemos um terço, quanto mais a metade.

O que será que aconteceu com o trabalhador que ficou sem a mulher? Ficou sem ela, mas não perdeu o emprego nem as estribeiras. Cavalga um fogoso corcel. Dela não se lembra mais, pois tem na garupa uma nova donzela.

Ah, como a vida é doce e bela!

Gê Moraes é cronista

O Diário

O Diário

Deixe seu comentário