ARTIGO

Espaço para o sorriso

Gê Moraes

gemoraesodiario @ig.com.br

Na periferia, Peri feria Ceci, e o vento ciciava na folhagem da palmeira, enquanto José de Alencar, carta lia, de alguém que reclamava da mudança de humor do personagem de O Guarani.

Esse pensamento a respeito de Peri, o goitacás e, da aimoré Ceci, que a princípio parece descabido e fora de lugar, se analisado sob o prisma de agora, até que tem muito a ver e escapa da esdruxulice.

Quantos Peris se acham esparramados por aí, não só na periferia, como nos mais requintados lugares das pequenas e grandes cidades, que ao lado das suas Cecis, vivem um viver só de amores feito, e de repente, a palmeira em que os pombinhos se abrigam, naufraga nas águas do inconcebível, e o que era paz se faz guerra, e a Guerra e Paz, de Lev Tolstoi, assume a cena e, salve-se quem puder.

Por que será que os homens e mulheres teimam em fazer com que a vida seja esse eterno complicar de coisas e derramamento de caldo? Esse alvoroço da peste, que parece nunca ter fim? Quando é que o mundo vai ver o sol do amor resplandecer? Porque do jeito que a coisa vai, sabe o que vai acontecer? Não quero nem estar aqui pra ver o tamanho da muvuca, diante da qual, a de hoje vai ser contada como um ameno conto de fada.

Se as coisas não mudarem de feição, sem tirar e nem pôr, sinto-me na obrigação de dizer que todo mundo estará fadado a dançar um fado corrido, acompanhado pelas desabridas e desafinadas guitarras de músicos enfastiados e enfartados.

Ah, mundo! Ainda há tempo para cessar fogo e acabar de vez com tantos desatinos e construir um lugar onde haja negócio de ganho para todos, e onde os pirangueiros não tenham vez. Tempo há, o bastante é remi-lo e dele extrair o que há de melhor: uma vida cheia de vida, vigorosa, sacudida.

Pois é, comecei falando de periferia e termino dizendo que, ainda que levemos um tombo, não devemos permanecer sentados à beira da estrada, crendo que se chegou ao final. Levantemos e continuemos, pois se fizermos bem feito a parte que nos cabe, com certeza, ainda há espaço para o sorriso.

Gê Moraes é cronista

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