“Espiral de Ilusão” expõe a veia sambista de rapper

Criolo exibe sua capacidade de rimador cuidadoso, sintético e político

Criolo nunca escondeu seu amor pelo samba. Após composições como “Linha de Frente” e “Fermento Pra Massa”, o rapper paulistano expôs de vez a veia sambista em “Espiral de Ilusão”, seu quarto trabalho de estúdio.

O disco é uma carta de amor ao gênero que consagrou Cartola, Martinho da Vila e Jamelão, influências presentes nas dez canções espalhadas em pouco mais de meia hora.

A relação entre rap e samba remete a projetos solo de Marcelo D2, mas em “Espiral de Ilusão” não há flerte ou mescla de sonoridades. É um disco de samba.

O rap se expressa de formas além da musicalidade. Em “Menino Mimado”, carro-chefe e um dos pontos altos do álbum, Criolo exibe sua capacidade de rimador cuidadoso, sintético e político. Trechos como “Meus meninos são o que você teceu/ Em resistência ao mundo que Deus deu” provam que ele continua afiado na poesia e capaz de dizer muito com pouco.

O rap aparece na habilidade de cronista, o mantendo como um dos porta-vozes mais interessantes da rotina dos guetos, função cumprida muito bem pelo samba.

O vocal de Criolo é econômico e sem extravagância (Foto: Divulgação)
O vocal de Criolo é econômico e sem extravagância (Foto: Divulgação)

Em “Filha do Maneco”, sobre a paixão pela filha de um poderoso traficante, ou “Calçada”, o storytelling está ali, desta vez ecoando unicamente sob competentes arranjos baseados em violões de sete cordas, pandeiros, cuícas e instrumentos de sopro.

Em “Boca Fofa”, canção de escárnio a fofoqueiros e mentirosos, seus cacoetes remetem a Moraes Moreira na época dos Novos Baianos, e na bela faixa-título, Criolo empresta um eu lírico feminino, à la Chico, em “Atrás da Porta”, para falar de um desamor.

Bebendo muito da fonte do samba de roda do recôncavo baiano, a última faixa “Cria de Favela” é a única em que é possível dizer que o cantor imprime uma espécie de “flow” (encaixe dos versos nas batidas) e atinge notas mais altas.

Não se trata de um divisor de águas (“Nó Na Orelha”) ou de um manifesto político-místico (“Convoque Seu Buda”).

“Espiral de Ilusão” é a despretensiosa e elegante realização de um sonho do MC que abdicou por ora do cargo de maquinista do trem do rap nacional na década. Posto que ele, queira ou não, conquistou.

Criolo possui cancha e base de fãs para se aventurar, como Mano Brown se jogou nas pistas em “Boogie Naipe” (2016). O caminho pavimentado por eles, em colaboração com nomes como Sabotage e Emicida, permitiu que o rap chegasse a esse nível de liberdade artística em 2017.

“Espiral de Ilusão” deve agradar fãs de samba e fazer os de rap mais radicais torcerem o nariz. É, sem dúvidas, para fãs de Criolo.


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