CHICO ORNELLAS

Estas fotos registram uma epopeia

HISTÓRIA – Na Rua José Bonifácio, defronte à antiga casa de Deodato Wertheimer, que em 1938 já abrigava a Prefeitura de Mogi, os expedicionários posam ao lado de mogianos, incluindo o então prefeito Zoé Arouche de Toledo (ao centro, de gravata listrada). (Foto: Arquivo pessoal)

Mogi de A a Z

HISTÓRIA – Na Rua José Bonifácio, defronte à antiga casa de Deodato Wertheimer, que em 1938 já abrigava a Prefeitura de Mogi, os expedicionários posam ao lado de mogianos, incluindo o então prefeito Zoé Arouche de Toledo (ao centro, de gravata listrada). (Foto: Arquivo pessoal)

Por remessa do amigo João Camargo, chegam-me duas fotos que me são muito caras. Aos personagens delas fui apresentado, há três anos, pela filha de um deles. Desde então me fascina a odisseia de três brasileiros: a partir de 1928 eles empreenderam, de carro, uma viagem de 26 mil quilômetros. Demorou 10 anos, abrindo eles próprios as picadas até chegar a Nova York. Quem me contou isso, pela primeira vez, foi Leonor da Cruz Ruiz, filha de Francisco Lopes da Cruz, um dos aventureiros. E me deu subsídios para a edição desta página, em 14 de agosto de 2016.

Desta feita, as fotos foram garimpadas no Arquivo Municipal e não trazem qualquer outra referência, sequer de data. Mas não é difícil especificá-la: não podem ser de 1928, quando os expedicionários partiram na sua jornada, porque nelas aparece, entre outros, o farmacêutico Zoé Arouche de Toledo. Em 1928, Zoé tocava a vida, com a esposa Julinha, em São Paulo. Mas ele foi prefeito de Mogi entre 1938 e 1939.

Bingo! As fotos só podem ser dessa época, posteriores a 22 de maio de 1938. Foi nessa data que os aventureiros desembarcaram, do navio que os trouxe de volta ao Brasil e foram recebidos, no Palácio do Catete, pelo então presidente Getúlio Vargas.

O início de tudo foi em 16 de abril de 1928, quando saíram do Rio de Janeiro. O Ford T, doado pelo jornal O Globo, ia à frente da camionete, também Ford T, doada pelo Jornal do Commércio, de São Paulo. O automóvel havia servido, por anos, na distribuição do jornal carioca. A primeira parada foi em Petrópolis, no Palácio Rio Negro, recepcionados pelo presidente Washington Luiz. O final da jornada, 10 anos depois, em 1938, recepcionados pelo ditador Getúlio Vargas no Palácio do Catete. A quem entregaram a razão de tudo: proposta para a abertura da Rodovia Panamericana, que cruzaria as três Américas.

De Petrópolis seguiram para Campo Grande, onde cruzaram a fronteira com o Paraguai. Suplantaram o Rio Paraná de balsa rumo à Argentina, após atravessarem o Uruguai. Quase três meses durou a viagem em terras portenhas, preparando-se para o desafio dos Andes.

Sabiam que seria difícil desbravar a cordilheira, improvisando pontes, derrubando árvores a machadadas e removendo pedras, com dinamite. Levaram quatro meses para superar os 450 quilômetros andinos e ingressar na Bolívia. A quase 5 mil metros de altitude nas geleiras, esvaziavam os radiadores à noite, para evitar congelamento e, pela manhã, derretiam neve e gelo para abastecê-los novamente.

E tacas-lhes outros imprevistos: em La Paz ficaram sabendo que o combustível disponível por lá era escasso. Valeram, então, os conhecimentos de mecânica de Mario Fava. Travestindo-se de bruxo, fez uma poção que incluía chicha, aguardente fermentada à base de milho e querosene. Adicionava banha derretida de lhamas e porcos para evitar o ressecamento.

Da Bolívia seguiram para o Peru. Já fins de 1929 voltearam o Lago Titicaca, foram recepcionados com festas em Cusco e pararam uns dias em Lima. Havia que se recuperar de outro imprevisto. A camionete escorregou por um desfiladeiro. Os danos puderam ser reparados, mas ferramentas, fotografias, filmes e dinheiro perderam-se.

Enfim o Equador, já em 1930. Só lá souberam do golpe que levou Getúlio Vargas ao poder no Brasil. Escaparam da malária contraída na Colômbia graças ao atendimento que lhes deram os índios locais.

E chegaram ao Panamá, cruzando rios sob tração de bois e homens que os puxavam e ajudavam no desmonte dos veículos, única forma de levá-los em balsas improvisadas para a travessia do Rio Atrato.

Ao nosso personagem, Francisco Lopes da Cruz, fascinou o Canal do Panamá e o encontro com a delegação brasileira, que seguia para as Olimpíadas de Los Angeles em 1932. Fazia quatro anos que eles haviam iniciado a epopeia.

Do Panamá chegaram à Costa Rica e, em seguida, à Nicarágua. Foram recepcionados, com um jantar, em Manágua, na casa do representante diplomático norte-americano. Durante o encontro ouviram barulho, não o decifraram e informou-lhes o cônsul: eram tiros disparados por partidários do general Anastásio Somoza Garcia, celebrando sua ascensão ao poder. Que preservaria uma dinastia hereditária por mais de 40 anos.

Honduras, EL Salvador e Guatemala vieram em seguida no caminho para o México. Para os aventureiros que já haviam enfrentado as cordilheiras, a selva e os rios amazônicos, a paisagem agora lhes era paradisíaca. Foram dois anos percorrendo os prados mexicanos: de 26 de setembro de 1934 a 1936.

Entraram nos Estados Unidos pela cidade texana de San Antonio, daí chegaram à capital Austin para uma calorosa recepção antes de rumar a Houston e Dallas. Subiram até Kansas e chegaram a Washington.

Por onde passavam colhiam aplausos entusiastas e apoio para a proposta de abertura da Rodovia Panamericana. Em Detroit foram recebidos por Henry Ford, o fundador da lendária indústria de automóveis. Fascinado, o milionário norte-americano propôs-se adquirir os dois veículos. Ante a primeira recusa, dobrou o valor oferecido e assim fez vários lances, frente a negativa irretratável dos brasileiros. Gilbert Grosvenor, presidente da National Geographic Society, ofereceu-lhes calorosa recepção.

Em 3 de março de 1938 foram recebidos, na Casa Branca, pelo presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt. Chegaram a Nova York e, dali, embarcaram de volta ao Brasil no dia 5 de maio de 1938. Traziam histórias da incrível aventura e os dois carros; ou o que sobrou deles.

Dez anos depois das fotos desta edição, Francisco Lopes da Cruz retornaria a Mogi. Desta feita, para trabalhar, como engenheiro que era, nas obras de abertura da Variante do Parateí, da Estrada de Ferro Central do Brasil. Em Guararema, os olhos de Francisco Lopes da Cruz brilharam, o coração palpitou e ele decidiu: é aqui que eu fico, com minha Olívia e os filhos que vierem. Vieram-lhes as filhas Leonor e Estela, criadas em Mogi. Para onde o casal se mudou e viveu até a morte dele, em 26 de dezembro de 1966. Francisco era, então, segurança particular e morreu atropelado na Avenida Fernando Pinheiro Franco.

Carta a um amigo

Relembrando um colonizador

ARIOSTO – Ariosto da Riva, o último dos bandeirantes. (Foto: arquivo pessoal)

Meu caro leitor

A novela “O Rei do Gado” foi, decididamente, uma das melhores produções já feitas pela televisão brasileira. A ponto de ter gerado diversas manifestações de repúdio de herdeiros de Geremias Lunardelli, o lendário colonizador do Norte do Paraná, que ficou conhecido como o “Rei do Café”. Muito parecido com o Geremias da novela.

Com Geremias Lunardelli estive poucas vezes. Uma ou duas, já no final de sua vida. Dele, as referências que tenho me foram passadas por um tipo inesquecível. Chamava-se Ariosto da Riva. Sujeito alto, de olhar marcante, jeito de caboclo urbano. E era. No meio do mato, voando sobre a Floresta Amazônica, sentia-se em casa. Em sua residência da Rua Avanhandava ou no escritório que mantinha perto da Igreja da Consolação, em São Paulo, parecia peixe fora d’água.

Conheci Ariosto no início dos anos 70. Ficamos 10 dias em viagem por Mato Grosso e Pará. Era o tempo do milagre econômico e empresários paulistas convidaram um grupo de jornalistas para conhecer as “maravilhas” da Sudeco – Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste. O programa previa deduções no imposto de renda para quem investisse em projetos agropecuários no Centro-Oeste do Brasil.

Viajamos em um avião Navajo, bimotor confortável de oito lugares e dois pilotos. O avião era da frota da TAM, ao tempo em que o líder dos atuais proprietários, comandante Rolim Amaro, apenas trabalhava para os cotistas da empresa, pecuaristas de São Paulo. Saímos de Congonhas com destino a Cuiabá, a Santarém e a uma dúzia de fazendas localizadas entre essas suas cidades.

Ariosto da Riva, a esse tempo, estava envolvido em dois grandes projetos. A implantação da cidade de Alta Floresta e a viabilização do projeto canavieiro da Fazenda Bodoquena. Antes, trabalhara para Geremias Lunardelli, na colonização de vastas áreas do Norte do Paraná. Fora ali que aprendera as técnicas da colonização, que pretendia adotar em seu grande sonho: a cidade de Alta Floresta.

Alta Floresta fica em plena mata, 790 quilômetros distante de Cuiabá. Era então, naquele início de 1970, apenas uma picada na floresta. E Ariosto me contava como fazer uma cidade: “primeiro, no lombo de burro, você leva uma equipe de mateiros para abrir uma picada e uma pista de pouso. Depois, por avião, vai levando gente, material e construindo uma cidade”. Alta Floresta hoje está pronta. A última informação que tive dela tem aí alguns anos. Ligou-me de lá o repórter Alberto Luchetti, hoje diretor da allTV. Estava hospedado em um paradisíaco hotel na cidade de mais de 50 mil habitantes. Quando Luchetti voltou, marcamos um almoço com Ariosto em São Paulo e pudemos, então, relembrar os primeiros anos de sua epopeia.

Da Fazenda Bodoquena, neste encontro, Ariosto falou pouco. A fazenda fora implantada havia muitos anos por uma dupla de empresários: Walter Moreira Salles e David Rockfeller. Era cortada pelos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Atravessei-a, de trem, uma só vez, Tinha, de área, mais do que a Suíça e o comboio demorava duas horas para vencer o percurso interno. Fora adquirida, no início dos anos 70, por um consórcio brasileiro, à frente o Grupo Votorantim de Antônio Ermírio de Moraes, que idealizava, para ela, o maior projeto dentro do Proálcool. Nenhum dos dois deu certo: nem o Proálcool, só viabilidade anos depois, nem a grande usina da Bodoquena.

Ariosto da Riva morreu em 1992, aos 77 anos. Vivia desgostoso desde a perda do filho Ludovico, que elegera como seu sucessor e morto, dois anos antes, em acidente aéreo.

Chico Ornellas

GENTE DE MOGI

MOGIANO POR ADOÇÃO – Filho único, veio com a mãe para Mogi quando tinha três anos e o pai havia morrido. A família tinha parentes por aqui e foi ficando. Fez o curso primário no Colégio do Estado e o técnico em Contabilidade, no Liceu Braz Cubas. Formou-se, anos depois, pela Faculdade de Direito Braz Cubas. Na juventude, participava das fanfarras; adulto, partilhava o trabalho, como contador, com presença constante no Aeroclube e na diretoria do Clube de Campo. Mais tarde, atuou em ONGs: fundou a que trouxe, para cá, o primeiro restaurante Bom Prato. Alfredo Campolino dos Santos Filho morreu em maio de 2011.

O melhor de Mogi

O Varejão de todo domingo (como hoje), onde o povo da roça se encontra com o povo da cidade e vivem o melhor clima de amizade e convivência harmoniosa, que é marca de Mogi.

O pior de Mogi

Os mentirosos da Cidade. Sobra por aqui quem conte lorotas sem ficar vermelho. Tem gente capaz de mostrar uma foto no Titanic no porto de Nova York e garantir que não é montagem.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter frequentado a Confeitaria Seleta, de D. Tereza, Sr. Carlos e Sr. Leopoldo e tomado café com leite e provado aqueles doces deliciosos (que, na época, eram difíceis de achar) de culinária alemã. Existiu entre as décadas de 1930 e 1940.

www.chicoornellas.com.br


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