CHICO ORNELLAS

Estripulias juvenis

ESTRIPULIA – José Pereira Belleza e as igrejas do Carmo, em foto das primeiras décadas do século passado.
ESTRIPULIA – José Pereira Belleza e as igrejas do Carmo, em foto das primeiras décadas do século passado.

Não sei se em outras cidades do interior isto ocorre, mas uma característica de Mogi das Cruzes é o afinco com seus jovens se dedicam a estripulias. Há regras não escritas, nem por isso menosprezadas: a brincadeira não pode ofender, tampouco causar prejuízo, há de ser suportável para se preservar a amizade.

Participei de algumas e ouvi testemunho de muitas. Das minhas, recorde-me bem de uma aplicada ao tempo em que ainda era colegial do Instituto de Educação Dr. Washington Luiz e repórter iniciante no Diário de Mogi. Segunda metade dos anos ‘60, sobe a escada da Redação um rapaz mirrado, moreno, de nariz adunco. Era simpático e vinha em busca de trabalho que lhe pudesse ajudar a custear a estada por aqui, enquanto cursava faculdade. Foi ajudar dona Ruth Muniz na revisão e logo ficou amigo de todos.

Era de Santo André e conseguiu vaga em uma república de estudantes que havia em apartamento sobre comércio ali na Rua 1º de Setembro. Aquela via curta que une o Largo Francisco Nogueira à Rua São João, em frente ao Hospital Mogi Mater. Uma única porta, de metal, dava acesso à escada e levava ao apartamento.

Pois certa vez, edição fechada e após a conversa de fim de noite no Bar do Michel da Praça Firmina Santana, alguém sai com esta: “Vocês não acham que o Edimir já merece um batizado?”

Em uma hora tudo estava armado e a estripulia a caminho. Meu pai construía uma casa na Rua Rosário Eboli, o mestre de obras era Zé Nunes, amigo de verdade. Ele morava na Avenida Japão e fomos buscá-lo lá pelas duas da madrugada. A esposa estranhou, mas como estava comigo não viu problema. Um dos amigos tinha uma caminhonete Rural Willys, para cuja caçamba transferimos, da obra paterna, alguns tijolos e outros tantos quilos de massa de cimento. Ágil como ele só no manuseio da colher de pedreiro, Zé Nunes fechou a porta do apartamento com uma parede de tijolos em menos de 20 minutos.

Fomos todos dormir. Na noite seguinte, no encontro do Bar do Michel, não se falava em outra coisa senão no trabalho que Edimir e seus colegas de república tiveram para sair cedo rumo às aulas na faculdade. No início até que ele reclamou. Mas logo aderiu ao clima e dávamos todos boas risadas. Sem mágoa.

Uma grande fonte das estripulias juvenis por aqui sempre me foi Isaac Grinberg. A par de ser o responsável pelo maior acervo da memória comunitária, era também um contador de causos. Quantas vezes não nos deliciamos em longos encontros, que sempre começavam como seu infalível “meu jovem”.

Pois assim foi com uma das histórias.

Meu jovem – disse Isaac – parece que vejo a figura sisuda de José Pereira Belleza à minha frente”. Belleza era português de nascimento e chegou a Mogi em 1899, com planos de se estabelecer como construtor, seguindo a trilha que seu pai abrira em São Paulo. Ele tinha 19 anos e ia bem nos negócios. Paralelamente, dedicava-se à fotografia como hobby.

Pois foi o próprio José Pereira Belleza quem contou isto a Isaac, bem antes de morrer, aos 85 anos, em 1967.

Ele estava com um amigo, noite de sábado, a falar de nada, quando lhes passa, por entre as pernas, um gato manhoso. Entreolharam-se os dois e fizeram sinal de concordância sem dizer palavra. Apanharam o gato, pegaram lá pelo quintal da casa alguns metros de corda e rumaram para o Largo do Carmo.

A esse tempo – 1901 – os frades carmelitas providenciavam a construção de uma torre na capela da Ordem Terceira. A torre seria removida quando da restauração do prédio tombado. O amigo de Belleza subiu os andaimes da torre com a corda enlaçada no ombro e o gato seguro sob o braço. Amarrou uma ponta da corda no pescoço do gato, outra no badalo do sino do Carmo e soltou o gato no telhado. Desceu rápido e, com Belleza, refugiou-se em uma esquina à distância segura.

O gato, ressabiado, começou a caminhar sobre o telhado; e quanto mais caminhava, mais o sino badalava. Gato pra lá, sino badala; gato pra cá, sino badala. Não demorou muito aparece na porta do convento um frade sonolento a coçar a cabeça. Os três uniram-se. “Que passa”, perguntou o amigo de Belleza. “E eu sei”, retrucou o frade. Olhavam para cima, ouviam o balado e faziam ar de surpresa.

Se o senhor concordar eu subo lá e vejo o que está ocorrendo”, disse o jovem em estripulia. Subiu devagar, fingindo medo. Aproveitando a escuridão, rompeu a corda com um canivete, liberou o gato e desceu ao encontro dos dois.

Olha, não vi nada, absurdo, incrível, não tenho ideia do que se passa frei; o senhor acredita em alma do outro mundo?”

Quando me contou isso, Isaac Grinberg disse-me que José Pereira Belleza lhe havia relatado sob condição de só revelar o nome após sua morte. Nunca se soube, antes disso, o que ocorrera com o sino do Carmo naquela noite de 1901.

Carta a um amigo

Restaurante Manoel Leite

Meu caro Armênio

De volta após um incrível e prazerosa viagem de exatos 30 dias, estou aqui a escrever-lhe para agradecer a acolhida que nos dispensou em seu Restaurante Leite, no Recife, o mais antigo dentre todos no Nordeste: é do final do século XIX, tem 130 anos e a fachada tombada pelo patrimônio histórico pernambucano.

Como cheguei até você? Não me envergonho de buscar informações em sites turísticos. No meu caso, depois de passear, e quebrar a cara em alguns destes, optei por ‘TripAdvisor’; me tenho dado bem. Na escala em Recife de nosso cruzeiro rumo à Europa, tinha compromisso inadiável: dar um pulo a Olinda e conhecer o empreendimento que o amigo Henrique Borenstein toca por lá. É o Patteo Olinda Shopping, construção modernista de 55 mil m2, quase 400 lojas e 2.300 vagas de estacionamento. Compromisso cumprido, pedi ao taxista que rumasse para o Restaurante Leite.

HISTÓRIA – Armênio em seu Restaurante Leite, ponto referencial de Recife.

Havia encontrado referências em meu guia turístico preferido. Ele o inclui dentre os três melhores restaurantes da Cidade, com uma coletânea de mais de 1.400 avaliações, 70% das quais com o grau “excelente”.

Fui conferir: o ambiente, que lembra, renovado, os anos 50, me remeteu à Confeitaria Fasano quando na Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo. Não há guardanapos de papel e copos grossos; sobre as mesas, singelos arranjos com uma rosa e algum verde. Os garçons não têm pressa, tampouco bigodes; as cortinas são novas, a adega está sempre à vista e algumas fotos remetem a frequentadores do passado. Entre estes, por certo, algum hóspede do Glória Hotel, a hospedaria preferida pela elite na década de 1930, atendidos então pelo Restaurante Leite.

O cardápio não tem fotos coloridas, apenas descrições suscintas dos pratos oferecidos, preferencialmente no almoço. Há um mix das cozinhas local, portuguesa e mediterrânea. Optei por “Amantes do Mar” – peixes e frutos do mar na grelha. Na sobremesa, aceitei, por irrecusável, “Cartola”, sugestão do garçom. Divina a típica receita pernambucana, com banana prata frita na manteiga, queijo manteiga cobrindo-a e toque de canela em pó.

Aguardava a sobremesa quando você se aproximou com um cumprimento de cabeça. “Por favor, sente-se”, disse-lhe de pronto. O que se seguiu foi uma aula de civilidade.

Descobri que Armênio é um cidadão português com nacionalidade também brasileira. Tem 82 anos, participação ativa em instituições comunitárias de Recife e emigrou para o Brasil há 60 anos, descontente com os rumos de Portugal sob o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano. Aqui, foi acolhido pelo tio e, faz 50 anos, toca o Restaurante Manoel Leite.

Toca no geral e nos detalhes. Quando lhe disse que gostaria de cumprimentar o chef de cozinha, de pronto nos convidou para o ambiente de preparo, onde nos apresentou não apenas o comandante do espaço, mas cada ponta do impecável lugar. Nos despedimos em seguida e você nos acompanhou à calçada, onde a fachada preservada pelo patrimônio histórico, estava a receber cuidados de gente a quem você encomendou alguns reparos.

Parabéns Armênio, pelo restaurante e pela história de vida.

Abraços do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX

ALFARRÁBIOS – É do amigo Carlos Roberto Godoi Godoi a colaboração de hoje: achou, em seus alfarrábios, alguns papeis velhos; foi pesquisar e descobriu serem “Obrigações de Guerra”, títulos de dúvida pública emitidos pelo governo brasileiro a partir de 1942, para fazer frente às suas despesas com a participação na guerra da Europa. Havia subscrição voluntária, mas a maior parte vinha dos 3% compulsórios recolhidos dos rendimentos de todos os trabalhadores brasileiros. Os títulos caducaram em 1962

GENTE DE MOGI
ATIVISTA – Ele tinha presença marcante no cotidiano de Mogi, desde os tempos em que trouxe, para Braz Cubas, a Fábrica de Pianos Schwartzmann. Quando os negócios começaram a ir mal, decidiu investir em outra área: adquiriu, em 1967, o espaço do antigo Hotel Estância dos Reis. No prédio que servia ao hotel e restaurante, instalou o NEC – Núcleo Estância de Cultura (hoje Colégio Ienec). Para o espaço remanescente, encomendou à Comincor um projeto de empreendimento imobiliário. Das planilhas do engenheiro Rui R. Ramos surgiram 15 quadras, onde foram construídas 80 casas. Marcos Guimarães Schwartzmann morreu em dezembro de 1992.

O melhor de Mogi

A Avenida das Orquídeas, que corre paralela à Estrada Velha São Paulo Rio e aos trilhos da CPTM. Em pouco tempo criará um novo eixo de ocupação urbana na Cidade. Ali surgirá uma Nova Mogi.

O pior de Mogi

A hipocrisia, cunhada do compadrio, aparentada do clientelismo. Conhecem?

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter comprado sorvete nos carrinhos da Kibon que paravam nas praças da Cidade. Ou ter comemorado aniversário com um bolo gelado do depósito, da mesma Kibon, que ficava na Rua Manoel Caetano.