CHICO ORNELLAS

Eu sou Mogi das Cruzes

Mogi de A a Z

QUEM SE HABILITA? – Ela tem muitas qualidades e poucos defeitos. Esta senhora de 459 anos é exigente, sabe valorizar quem lhe quer bem e castiga, com desdém, os que a desrespeitam. (Foto: arquivo pessoal)

Senhora de 459 anos, de criação rígida por ótima família, bem-posta na vida, independente financeira e emocionalmente, busca relacionamento sério para fins matrimoniais. A bem da verdade, o nascimento desta veneranda, que todos têm como 1º de setembro de 1560, jamais poderia ter ocorrido nessa data. E, neste ponto, ela é vítima do costume popular que torna verdade uma mentira repetida incontáveis vezes.

Pelo simples motivo de que, no distante ano de 1560 – que se tem como seu nascimento –, por aqui não havia outros se não um bando de indígenas ferozes não catequizados. Ela era parte da sesmaria de Jeribatiba, que o donatário original Martim Affonso de Souza abandonou em 1534 e que, em 1536, foi transferida a Braz Cubas. Ou seja: foi abandonada pelo primeiro varão. E o segundo, ao que se saiba, só apareceu para vê-la 25 anos depois de a ter. Teria o velho Braz Cubas aportado por estas bandas em 1561 com a sua Fazenda Pequeri, que montou na sesmaria.

Mais 25 anos se passaram (1585 em relação a 1560), para se saber que a veneranda recebeu a visita de Jerônimo Leitão e seus jagunços. Vieram com a incumbência de dizimar os índios Tamoios da Paraíba, que aqui viviam e daqui saíam para assustar os pobres paulistanos, que então tentavam colonizar o planalto de Piratininga.

Braz Cubas ou Braz Cardoso o colonizador?

Por enquanto, já reduzimos a idade de nossa querida pretendente em 25 anos. Mas ainda é pouco: a guerra contra os silvícolas seguiu por outro tanto tempo. A primeira notícia de aldeamento crente por aqui é de 1601, liderado por Braz Cardoso, credenciado como capitão-povoador. E Mogi, até agora, já ficou 41 anos mais jovem. Nessa época Braz Cubas, tido como seu fundador, já tinha morrido.

Aldeamento, de verdade, parece que só depois de 1608, quando Gaspar Vaz assumiu seu quinhão na sesmaria partilhada e conseguiu, em 1611, o direito de qualificá-la como vila, instalada no dia 1º de setembro. Tentar, assim, dizer que nossa personagem nasceu em 1º de setembro de 1560 é, no mínimo, grasso erro histórico. Que a tradição perpetuou e talvez explique, em muito, o desleixo com que, desde então, se trata de sua memória.

1700 – Caminhemos 100 anos até 1711. Como era nossa personagem? Ela já tinha ao redor de 200 casas e uma Igreja Matriz. Mas nem de perto características de vila. Seus habitantes permaneciam na roça e até o núcleo só andavam em datas festivas. De qualquer forma, orgulhava-se de ser uma das 22 vilas que então havia na Capitania de São Paulo. Até hoje ela busca elevar sua autoestima. Comemora tudo, embora seus indicadores em nada a coloquem na dianteira de qualquer estatística. Seja de desenvolvimento econômico ou social, seja de qualificação educacional ou urbana. Mas comemora. O que é bom, desagradável é conviver com uma mulher que passe o tempo a cochichar lamúrias.

O orgulho de ter Martha e seus 108 anos.

1800 – Mais 100 anos? Então chegamos a 1811 e é difícil acreditar o que houve nesse período. Sim, o vilarejo criou vida própria, os carmelitas já estavam por aqui, a vila fora elevada a município, havia tabelião (Bernardo de Moraes foi o primeiro), vereadores. E o vigário daqui ganhava mais (100 mil réis/ano) do que o vigário de São Paulo (50 mil réis/ano). Um orgulho, sempre os orgulhos locais: Martha, moradora destes lados era, com 108 anos, um dos mais idosos habitantes da província de São Paulo. População local nesse tempo: 6.705 habitantes, proporção de 2 mulheres brancas (2.419 delas) para cada homem (1.118 deles), além 1.059 escravos negros, mais 90 libertos, 395 escravos mulatos cativos e 1.624 libertos.

Foi por aí (23 de agosto 1822) que, a caminho de São Paulo, onde proclamaria a independência, o príncipe d. Pedro passou por Mogi e aqui deixou um dos maiores tesouros que a Cidade já teve: a preciosa bandeira Imperial que, por desídia, fez-se em farelo. Pouco antes (março/abril) Augusto de Saint Hilaire, botânico francês andou por estas paragens e legou, à veneranda personagem, algumas de suas aquarelas.

Nela já se abrigavam mais de 10 mil pessoas e, com o fim das incursões bandeirantistas, que levavam os homens e deixavam as mulheres no sítio, a proporção demográfica se nivelava: havia 5.115 homens e 5.375 mulheres.

Enfim chegam o primeiro trem e seus passageiros.

1900 – Avancemos outro século para chegar a 1911. A inauguração da ferrovia com São Paulo (6 de novembro de 1875) fez de nossa personagem uma cobiçada paragem de paulistanos e santistas. Os da Capital procuravam sítios e casas por aqui para se refugiarem em períodos de lazer; os de Santos vinham para fugir ao verão praiano. Mas eram poucos os que se interessavam para oferecer algo e não apenas buscar um dote.

Entre estes, dois destaques: o aristocrático Barão de Jaceguai que nela construiu a mais rica das vivendas que já teve (ficou pouco, logo voltou para o Rio de Janeiro) e o empreendedor Ricardo Vilela, com o sonho de sua fábrica de chapéus para a qual gerava energia própria a partir de uma usina em Salesópolis. Pobre do Vilela: faliu em pouco tempo. A fábrica ele instalou em parte da antiga chácara do Barão, loteada depois que ele se foi.

A Mineração Geral do Brasil como redenção.

2000 – Chegamos, enfim, a 2011. Estes foram, decididamente, os cem anos mais significativos para nossa personagem. Houve de tudo. Para comemorar e para lamentar. De 16 mil habitantes (censo de 1910) pulou para 330 mil (censo de 2010). O momento mais importante deu-se no dia 5 de maio de 1928, quando Washington Luiz inaugurou a primeira estrada entre São Paulo e Rio de Janeiro. Com ela, inseriu a veneranda no mapa. Por ela passavam os trens (desde 1875) e os carros, também ônibus e caminhões que iam de uma à outra das duas mais importantes cidades do País.

Em 1942 veio a notícia de que, em terreno de quase 2 milhões de m2, seria construída uma usina siderúrgica (a Mineração Geral do Brasil). Apenas uma das dezenas de indústrias que viam, por aqui, solo fértil para seu desenvolvimento. Foi assim com a pianos Schwartzmann, Valmet, Aços Anhanguera, NGK, Gutermann, Howa. No final dos 60’ e início dos 70’ chegaram as faculdades, não muito distante do tempo em que os outros hospitais vieram complementar a ação da Santa Casa de Misericórdia: Santana, Ipiranga e Mãe Pobre.

Muita coisa boa, sem dúvida. E poucas ruins, mas decisivas. A pior foi a de 19 de janeiro de 1951, com a inauguração da rodovia Presidente Dutra. Ela passou a 20 quilômetros do centro de nossa personagem e a deixou isolada: foi a única, dentre as cidades médias antes cortadas pela estrada velha, que não teve acesso à nova. A isso se seguiu a deterioração da malha ferroviária e um período de estagnação econômica. Só vencido, a duras penas, em 1972, quando enfim foi aberta a estrada Mogi-Dutra.

Fácil é gostar de quem não defeitos. Isso existe?

Hoje, nossa veneranda personagem é o retrato acabado do processo de conurbação, que marca os maiores núcleos populacionais do País. Nem melhor, nem pior. Com uma característica própria: a qualidade humana de seus habitantes. Só isso para explicar as relações comunitárias que seguem cultivadas em sua essência.

Ela tem seu charme próprio, vez ou outra sofre crises de asma; até de ausência. Mas não está na idade para períodos de TPM. Gosta de conversar e não demonstra paciência com aqueles que a têm como gagá ultrapassada. Sua visão crítica segue intocada. E tem defensores que não renunciam ao seu gosto pela veneranda senhora.

Ginis Bardazzi Neto. (Foto: arquivo pessoal)

GENTE DE MOGI

AMIGO – Ele era daquelas pessoas que conferem a exata dimensão que uma amizade leal merece. Por isso mesmo, ao longo de toda a vida – que se foi rápida – foi colecionando amigos. Aos quais jamais negou o que quer que fosse; e, de alguns deles, recebeu igual deferência. Ginis Bardazzi Neto, o Nenezão, morreu em outubro de 1998.

O melhor de Mogi

Rogério Coelho Barbosa, subtenente e atual chefe de instrução do Tiro de Guerra. Dedicação e compromisso, a exemplo de outros que o antecederam. Do que é ícone o capitão Antônio Mendes.

O pior de Mogi

O portal da Transparência da Câmara de Mogi para em 2017. Há dois anos não atualiza os dados no capítulo “contas públicas”. Públicas?.

Ser mogiano é….

Ter desfilado – ou pelo menos assistido – em um 1º de setembro pela Avenida Pinheiro Franco, com as fanfarras do Instituto de Educação Dr. Washington Luiz e do Liceu Braz Cubas.

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