CHICO ORNELLAS

Euclides da Cunha X Adolfo Lutz

EM MOGI – Euclides da Cunha e a casa do Coronel Souza Franco, onde ele se hospedou em Mogi.

Impossível decifrar o Brasil de hoje sem ter lido Euclides da Cunha (Os Sertões), Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil). Outros também, mas fiquemos com o essencial. Gilberto era um sociólogo de sólida formação acadêmica, assim como Sérgio. Já Euclides tinha um histórico diverso: órfão de mãe aos 3 anos, foi criado por tios. Positivista por influência de Benjamin Constant, tentou formar-se engenheiro pela Politécnica do Rio de Janeiro, mas teve de trocá-la pela gratuita Escola Militar da Praia Vermelha. Foi expulso por rebeldia. Acabou assassinado, em 1909, pelo amante de sua mulher.

Os que conhecem algo da trajetória de Euclides da Cunha o sabem um homem triste, pouco afeito às brincadeiras acadêmicas, aos trotes de caserna – era um melancólico. De toda sua vida, conhece-se apenas um momento de peraltice. E foi em Mogi das Cruzes. Descoberta que o amigo João Camargo me permite, ao enviar-me extrato de uma publicação de 1956, assinada por Moacyr Campos, na Revista do Professor.

A primeira vez que Euclides esteve por aqui foi em 1904. Era funcionário da Secretaria da Agricultura e chegou em companhia dos engenheiros Augusto Lefèvre e José Oliva, incumbidos por Bernardino de Campos, então presidente (como eram chamados os hoje governadores), de levantamentos visando a construção da ferrovia Mogi-São Sebastião – projeto nunca concretizado.

Os três hospedaram-se no hotel de dona Angélica Lopes. Na manhã seguinte, Euclides cruzou com o coronel Francisco de Souza Franco, “chefe político e modelo de probidade e retidão”, no dizer de Moacyr Campos. A ele, reclamou dos pernilongos que não o deixaram pegar no sono.

Coronel Chiquinho, como era conhecido, o convidou então para hospedar-se em sua casa, na Rua José Bonifácio. Acomodou-o na sala da frente e ajeitou para que, ali, se adaptasse um escritório à comitiva.

É claro: Mogi, sendo Mogi, e ainda muito, muito menor que hoje, os hábitos do hóspede correram praça. Euclides era madrugador, acordava bem cedo e ficava a caminhar na calçada, de um lado para outro, fumando seu cigarro de palha. Chegou a comentar que achava o povo daqui indolente, por se levantar tarde. Pela manhã, postava muitas cartas no correio e o que se comentava eram as características de sua caligrafia – miúda, corrida, nervosa.

Dois anos se passaram e, em 1906, Euclides da Cunha voltou a Mogi. Vinha, desta feita, em comitiva que avaliava, além da estrada de ferro, o projeto da adutora do Rio Claro, como manancial abastecedor de água para São Paulo. Era um grupo numeroso integrado, entre outros, por um mogiano: Uriel Gaspar, engenheiro e filho do primeiro casamento de Henriqueta Batalha Arouche.

Em companhia deles estava o sanitarista Adolfo Lutz, incumbido de avaliar a potabilidade das águas do Rio Claro; também o coronel Paulo Orozimbo, proprietário da fazenda onde seria construída a represa.

De Mogi, seguiram por trem até Guararema e, dali, no lombo de cavalos e mulas, para Salesópolis. Não havia estrada de rodagem desde Mogi. Escreve Moacyr Campos: “Foi então que o homem que não ria, o ensimesmado Euclides, por um instante, talvez por força da liberdade em que se via, sob um céu escampo e iluminado, sentindo o cheiro da terra e do arvoredo, com horizontes sem fim, livre de pensamentos graves, deixou de ser o indivíduo retraído e de olhar espantado, para mergulhar-se no sorriso de uma brincadeira”.

Que fez Euclides?

A comitiva já tinha percorrido quilômetros quando Adolfo Lutz avisou os companheiros que faria uma parada, pedindo-lhes que seguissem e ele os alcançaria em breve. Amarrou seu cavalo a uma árvore e entrou no mato. Euclides da Cunha, com seu diabinho de plantão, apeou, foi ao cavalo de Lutz e o fez dar meia-volta, deixando-o com focinho em direção a Guararema. Retornou ao grupo e seguiram viagem.

Haviam cavalgado bons quilômetros quando deram pela falta de Adolfo Lutz; pararam. Algum tempo mais e o companheiro não apareceu, decidiram retornar. Seguiram a galope e só foram encontrar o sanitarista próximo a Guararema: seguira na direção oposta a Salesópolis, obedecendo a posição do focinho do cavalo. Deram boas gargalhadas, compartilhadas com o coronel Antônio Bueno de Toledo, o mandachuva da cidade, então bairro de Mogi.

A confirmar suas lembranças, o autor Moacyr Campos cita suas fontes: o próprio Paulo Orozimbo e o professor mogiano Francisco de Souza Melo.

Carta a um amigo

Zeca Franco

Meu caro leitor

José de Souza Franco sempre foi um personagem misterioso para mim. Por mais que tenha convivido com 3 de suas 4 irmãs. Por laços de parentesco: sou neto de uma delas (Benedicta, ou “Nenê”). Foi minha avó quem sugeriu meu nome, em referência ao seu pai, Francisco de Souza Franco. José “Zeca” Franco tinha o nome do avô, José Franco de Camargo, falecido em 1890. Das suas quatro irmãs, não conheci Leonor; mas tive uma convivência próxima e longa com Nenê (Benedita); Alice e Finoca (Afonsina).

1908 – José de Souza Franco, em foto de 1908, está com o pé na escada e a mão direta estendida. Era dia de festa na Fazenda da Volta Fria.

De minha mãe, fonte inesgotável das histórias desta Cidade, recebi poucas acerca de Zeca Franco. Quase todas falavam da Fazenda da Volta Fria, o sítio que ele herdou do pai, com um casarão colonial e para onde costumava levar os sobrinhos nos feriados de 1º de Maio, para um intransferível piquenique.

Zeca Franco morreu bem antes de eu nascer e não deixou herdeiros diretos, se não a esposa Anna Campolino. Recordo-me vagamente de, ainda criança, visitá-la na casa avarandada da Rua Paulo Frontin, vizinha ao Grupo Escolar Coronel Almeida. Lembro-me mais de sua irmã, dona Hermínia, atenta tesoureira do Itapeti Clube.

Sobre nosso personagem quem mais me disse foi dona Cida Briquet, a quem visitei em sua casa do Largo da Matriz poucas semanas antes de sua morte. Disse-me Cida que a Fazenda da Volta Fria era um recanto mágico para as crianças das primeiras décadas do século passado. Espaço rural. Pelo menos para as que tiveram o privilégio de frequentá-la; como ela, amiga de infância dos filhos de meus avós. Perguntei-lhe sobre Zeca Franco e ela me traçou o perfil de um homem esguio, de bigode e sobrancelhas espessas, de sorriso contido mas permanente, não raras vezes vestido de terno de linho branco e chapéu, um relógio de bolso com a corrente fixada ao colete.

Curioso: enquanto Cida o descrevia, eu ia forjando a figura do pai de Zeca, o coronel Souza Franco, que me empresta o prenome. É claro que não o conheci, mas como gostaria de ter convivido com meu bisavô. Perguntei a Cida se Zeca era um personagem rural; respondeu-me que sim e fechei o quadro.

Ao longo dos muitos anos, tentando traçar o perfil de meus avós, fui formando a imagem do casal resutado de uma educação rural, de parte de minha avó; e de uma educação urbana, de parte de meu avô.

Minha avó materna, assim como as irmãs, jamais frequentaram a escola formal – o que não significou, em absoluto, a ignorância plena. Eram fluentes em francês e cada qual manteve, em sua casa, um piano, onde executavam as peças que lhe foram ensinadas; no piano, nas línguas, no trato social – tudo por preceptoras. Mesmo depois de casadas, as irmãs não admitiam que seus filhos frequentassem, na infância, escola pública. O que os levaram a ser alfabetizados por preceptoras e matriculados na única escola particular que havia em Mogi, nas primeiras décadas do século passado, mantida pelas irmãs Vicentinas na esquina das ruas Padre João e Flaviano de Mello. Detalhe importante: todos os meus tios e tias, após os primeiros estudos, foram matriculados em cursos públicos, como a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e a Escola Normal Padre Anchieta. Sinal dos tempos.

Com Zeca imagino que isto também tenha ocorrido. Único varão na família de 5 filhos, ficou com a educação que recebeu na infância e adolescência; até onde sei, o comércio de secos e molhados que ocupava boa parte das preocupações de seu pai, foi fechado após sua morte e a Zeca restou cuidar das propriedades rurais que herdou. E a se envolver em ações comunitárias, a maior parte delas ligadas à Santa Casa de Misericórdia de Mogi das Cruzes. Teve pouquíssimas incursões políticas, no que não puxou ao pai, líder hegemônico nos primeiros anos do século 20.

José de Souza Franco morreu em abril de 1944; sua esposa Anna Campolino, em janeiro de 1976. Como o único varão da família não teve descendência, acabou-se o nome Souza Franco de parte do coronel Chiquinho.

Grande abraço do

Chico

GENTE DE MOGI

AUTÊNTICA – A autenticidade era sua marca, talvez por isso, tenhamos celebrado uma amizade que persistiu por 46 anos – sem trincas. Conhecemo-nos em janeiro de 1965, em meu primeiro dia de trabalho neste jornal. A partir daí, dividimos alegrias e tristezas, confidências e diversões, também amigos comuns. Isaura de Freitas Brandão morreu em janeiro de 2011, um mês antes de completar 71 anos.

O melhor de Mogi

Os artistas da Cidade. Gente que nasceu aqui ou escolheu esta Cidade para viver. É uma tradição com quilates do naipe de Alfredo Volpi, Chang Daí-Chien, Barros – o Mulato, Arena, Van Der Wiel… E segue hoje com gente dedicada e talentosa.

O pior de Mogi

O Centro de Detenção Provisória do Taboão: o Município cedeu patrimônio seu para o Estado construir um depósito de presos, que hoje tem o dobro de sua capacidade (acolhe 1.651 presos onde caberiam 841). É uma bomba relógio. E não aparece vereador para denunciar. Tampouco a OAB e sua Comissão de Direitos Humanos.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter a consciência de que uma cidade sem memória não tem futuro.

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