Ex-presidente FHC narra dificuldades com Serra

FHC lança o segundo volume de “Diários da Presidência - 1997-1998” / Foto: Divulgação
FHC lança o segundo volume de “Diários da Presidência – 1997-1998” / Foto: Divulgação

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, teve reentrada atribulada no ministério do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, conforme narra o ex-presidente no segundo volume de seus “Diários da Presidência – 1997-1998”, que a editora Companhia das Letras vai lançar na segunda-feira.

Serra havia sido ministro do Planejamento de FHC (1995-1996). Em meio a divergências com a equipe econômica, deixou o cargo para disputar a prefeitura de São Paulo. Perdeu para Celso Pitta e queria voltar para o governo. Tal como hoje, Serra queria um cargo na área econômica.

Mas FHC queria que Serra assumisse o Ministério da Saúde. Dentro da equipe econômica, havia forte oposição à indicação de Serra em algum ministério ligado à política econômica, principalmente por parte do então ministro da Fazenda, Pedro Malan. Serra era um dos principais críticos ao câmbio fixo e sobrevalorizado, que acabou agravando a crise financeira no país e sendo abandonado em janeiro de 1999.

A certa altura, FHC fala sobre seu temperamento: “Isso vai me dar trabalho, vou ter que botar Serra e Malan juntos, eles não são fáceis, ou melhor, o Serra não é fácil.”

Tentando convencê-lo a assumir o Ministério da Saúde, FHC narra ter dito ao senador: “Serra, você é o caso de maior perda líquida de vantagens comparativas que eu já vi na República. Poucos têm o seu talento, intelectualmente você pode se comparar com muito pouca gente, comigo e pouca gente mais na área política. Seu preparo intelectual é enorme. Você é determinado, honesto, tem sentido público, não obstante, está no ponto mais baixo da sua carreira… Acho que você tem que perceber que é um problema seu.”

Chegou a um ponto que FHC teria dito: “Olha, Serra, é a Saúde, e não é ‘ou’. É a Saúde. Tenho minhas razões”. Depois de toda a incerteza, a gestão de Serra à frente do ministério, onde teve iniciativas bem-sucedidas como a dos medicamentos genéricos e a quebra de patentes de medicamentos de Aids, é alvo de elogios de FHC.