EDITORIAL

Exposição sobre Chang Dai-Chien

A Pinacoteca de Mogi marca um ponto na sua coluna de créditos, ao anunciar exposição, da obra do pintor Chang Dai-Chien, o mestre chinês que elegeu Mogi das Cruzes para sua morada e aqui viveu, por quase 20 anos, a partir de 1954.

Chang já era com consagrado artista quando, por sugestão de um amigo macaense, mudou-se, com parte da família, para Mogi das Cruzes. A China vivia a Revolução Comunista quando o pintor decidiu deixar o país. Ele chegou aqui depois de passar por países como Argentina. E construiu seu refúgio na Capela do Ribeirão (atual Taiaçupeba).

A exposição tende a se transformar em um espaço lúdico, que poderá introduzir frequentadores no vasto campo das artes plásticas, vinculando-o à própria história do município.

Há, entretanto, que se tomar alguns cuidados. Ao anunciar a louvável iniciativa, Teresa Christina Vaz, diretora de Fomento da Secretaria de Cultura, cometeu duas falhas, ao afirmar: “Durante o período que esses artistas viveram em Mogi, ainda não havia o conceito de preservação do nosso patrimônio iniciado pelo professor Jurandyr Ferraz de Campos” e “um outro motivo seria a falta de reconhecimento que esses artistas tinham no momento que aqui viveram. O Chang Dai-Chien ainda não tinha o reconhecimento que passou a possuir com o tempo”.

Ledo engano em dose dupla: malgrado o reconhecido trabalho de Jurandyr em prol da preservação local, não foi ele pioneiro da área. Muitos antecederam-no: Isaac Grinberg escreveu o que temos de melhor sobre nosso passado; Horácio da Silveira liderou o tombamento das igrejas do Carmo; Rubens Parada aglutinou os artistas locais em sua AMBA (Associação Mogiana de Belas Artes); Mario de Andrade e Lévi-Strauss legaram-nos imagens valiosíssimas da nossa Festa do Divino de 1936; as pesquisas do desembargador Augusto Francisco Mota Ferraz de Arruda preservam, em detalhes, as origens de Mogi. Sem esquecer de José Sebastião Witter e Armando Sérgio Silva, com licença de muitos outros que o espaço nos impede de citar.

Igualmente, Chang Dai-Chien, ao contrário do que diz a diretora, já era um consagrado artista. Do que é prova a apresentação de mostra que levou a Paris, em 1956, feita por ninguém menos do que Lin Yutang, autor de obras como O Portão Vermelho (1935) e A Importância de Viver (1937).

Sobre Chang, disse Yutang: “Indubitavelmente, Chang não é somente um dos maiores pintores da atualidade, mas também uma personificação do artista chinês tradicional, com suas idiossincrasias e suas constantes aventuras excitantes”. Isso em 1956!