CIRCUITO

Fábio de Sousa fala sobre o projeto ‘OAB Vai à Escola’

Fábio de Sousa Camargo. (Foto: Eisner Soares)
Fábio de Sousa Camargo. (Foto: Eisner Soares)

Além de atuar como advogado nas áreas pública e tributária, o mogiano Fábio de Sousa Camargo, de 33 anos, se dedica voluntariamente ao projeto ‘OAB Vai à Escola’, do qual se tornou presidente neste ano. A iniciativa consiste num grupo de profissionais que realizam palestras em instituições educacionais sobre temas relevantes para a sociedade, como bullying e violência doméstica. O principal público do projeto são os adolescentes, que, como conta Fábio nesta entrevista, estão carentes de diálogo.

Qual seu envolvimento com o projeto ‘OAB Vai à Escola’?

Sempre fui engajado em causas sociais. Inclusive fiz parte de um grupo paramaçônico chamado Demolay, no qual tínhamos visão voltada para o social, com visitas a asilos, orfanatos e realização de eventos para arrecadar fundos e doações. Depois de formado fiquei um tempo sem fazer algo deste tipo, mas em 2016 a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) reativou uma antiga comissão que já havia existido na cidade, chamada ‘OAB vai á escola’, e a convite do Dr. Herio Nagoshi assumi a vice-presidência da comissão, posição em que fiquei até este ano, quando me tornei presidente do grupo. Por lá, converso com diretores e professores, faço a organização do fluxo de palestras, controlo a agenda, faço convites aos palestrantes e dou palestras também.

Como funciona e qual o objetivo desta comissão?

A comissão é formada por pessoas da área jurídica, mas não só elas. Temos no nosso portfólio psicólogos, juízes, delegados, investigadores de polícia, ou seja, pessoas que atuam nas várias temáticas abordadas. Organizamos este grupo, e a pedido das instituições vamos até onde elas sugerem, seja uma escola ou qualquer entidade educacional, para falar sobre temas de interesse da sociedade, principalmente dos jovens.

Que temas são esses?

Prevenção ao tráfico de drogas; direitos humanos; noções de direitos do trabalho, que é um tema bastante interessante, pois o mercado de trabalho está cada dia mais competitivo, acirrado e disputado; noções de direito constitucional, para ensinar ao pessoal do Ensino Médio como funcionam os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário); incentivo ao desenvolvimento social, que fomenta a importância da união; bullying e cyberbullying; crimes cibernéticos; violência contra a mulher; e muitos outros.

Vocês procuram as escolas ou elas chamam a OAB?

A ‘OAB vai à escola’ sempre funciona de acordo com a demanda. O trabalho é, então, mais passivo, afinal a gente não pode e nem teria condições de correr atrás de todas as escolas para saber quais são os anseios e problemas delas. Então são elas que pegam determinados problemas e levam até a OAB. E isso vale tanto para escolas públicas como particulares, e inclusive não só escolas. No ano passado atendemos a Associação Mogiana Oficina dos Aprendizes (Amoa), recentemente fomos à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) conversar com as mães das pessoas especiais sobre a importância do direito à saúde, e estamos em tratativas para realizar palestras com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE).

As palestras geram algum tipo de custo para as instituições?

Não, não tem custo nenhum. Muito pelo contrário. É um trabalho que os advogados e os parceiros desenvolvem de cunho absolutamente filantrópico. Todos os custos são financiados pelo próprio advogado ou palestrante, que é alguém que quer fazer a diferença. Tanto o objetivo é social que atendemos escolas não só do Centro, mas também as afastadas, e ainda de outras cidades como Biritiba Mirim e outras da região.

Quanto tempo demora o agendamento?

Tudo vai depender do fluxo. No começo do ano costumamos fazer agendamentos mais rápidos. Mas agora no final do ano tivemos que declinar convites de umas quatro escolas, porque não tinha mais agenda. Não fazemos as atividades em meses de férias, como janeiro, fevereiro, julho e dezembro, mas no restante do ano a média é de 10 a 12 palestras por mês.

O foco está nos estudantes do Ensino Médio?

Não exatamente. Na verdade a classificação é feita de acordo com o tema. Muitos assuntos são próprios para pessoas mais velhas, como prevenção ao tráfico de drogas, noções de direito constitucional e noções aos direitos do trabalho. Mas também tem palestras que se aplicam para pessoas mais novas, a exemplo do bullying. Aliás, muitos dos eventos sobre este tema, para não falar a totalidade, são para séries inferiores, como sexto e sétimo anos.

Quantas pessoas já foram atendidas pelo projeto?

Só neste ano, mais de 6.500 alunos. Entre abril e novembro deste 2019 foram feitas 81 palestras em 31 instituições educacionais diferentes. Temos 16 temas ao todo, e falamos de 10 deles, principalmente bullying e cyberbullying, em 53 eventos, representando 65% do trabalho da comissão. Depois vem a violência doméstica, os crimes virtuais, a prevenção ao tráfico de drogas e o incentivo ao desenvolvimento social.

Este trabalho é reflexo da carência da Educação do país?

Se os pais ou responsáveis ensinassem empatia para os filhos, nosso trabalho seria reduzido. Basicamente o que falamos para eles são noções de cidadania e respeito ao próximo, ou seja, sempre se colocar na posição do outro. E estas são coisas que deveriam ser ensinadas em casa, que é onde tem faltado o caráter. Dada essa deficiência, o trabalho da OAB tem se feito necessário.

Como funcionam os eventos e atividades?

É preciso ter cuidado muito grande quando se lida com o jovem, porque da mesma forma que não podemos usar o “juridiquês”, temos que ter feeling e utilizar termos simples e objetivos, às vezes fazendo brincadeiras, mas sem perder o tom formal. Trabalhamos com temas e conteúdos pré-definidos, e no caso do bullying, explicamos o que ele é e também o que não é, quais as consequências e reflexos cíveis e criminais, o que pode causar na vida de uma pessoa, e citamos evidentemente casos práticos que foram veiculados na mídia, envolvendo suicídios e homicídios. Depois disso, separamos alguns minutos para saber o que os jovens têm para falar, se têm dúvidas, ou se querem desabafar e contar alguma coisa.

Consegue apontar qual a principal necessidade desses adolescentes?

Muitos deles, principalmente os alunos de baixa renda, são carentes. Então as vezes muito mais do que o bullying, eles sofrem com a carência de conversar e se abrem com a OAB. Muitos deles querem e precisam conversar, não só com os amigos, mas com os pais. As vezes os adultos ficam tão preocupados com questões financeiras e de trabalho que se esquecem de perguntar para o filho como foi o dia dele, se ele está com dificuldade em alguma matéria, ou o que ele gosta ou não gosta.

O que você já ouviu dos jovens?

Muitas histórias. Teve uma palestra de bullying, num dia de calor, e notei que uma menina estava de manga comprida. Achei estranho, mas não falei nada. Passado algum tempo, voltamos naquela escola, e depois dos alertas da OAB, ela passou a usar manga curta, exibindo marcas de corte, de autoflagelação. Mais recente, um menino, também em palestra de bullying, se levantou e teve coragem para apontar o dedo para quem praticava bullying contra ele. Apesar da atitude corajosa, alertamos os professores para evitarem qualquer tipo de retaliação ou algo assim. Teve ainda uma menina de 14 anos, num evento de violência contra mulher, que esperou o bate papo acabar para conversar conosco e contar que sofria abusos do namorado da avó. E alguns adolescentes, numa discussão sobre crimes virtuais, que começaram a tirar dúvidas sobre o que era ou não crime no mundo dos videogames.

Há continuidade da conexão entre a OAB e o jovem?

Infelizmente, por ser um trabalho voluntário, a gente não consegue fazer acompanhamento próximo como gostaríamos. Para isso, contamos com os professores mediadores, dando nosso panorama para eles, que respondem para gente se houve resultados ou não. E na maioria dos casos o retorno é positivo. Aliás, fizemos um piloto no início do ano, adquirindo urnas de acrílico e disponibilizando-as para a direção de ensino, com mensagens antibullying. As urnas foram realocadas nas escolas que mais precisavam e passaram a funcionar como dispositivo de denúncia anônima.

Existem diferenças entre os estudantes do ensino particular e do público?

Diferença não tem, mas nas escolas públicas o carinho e receptividade é maior. É evidente que a ideia da comissão é atender a todos, mas principalmente as escolas públicas. E a participação delas é muito legal, assim como da Educação de Jovens e Adultos (EJA) também.


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