ARTIGO

Fale com os olhos

Gê Moraes

gemoraesodiario@ig.com.br

O lar de um simpático representante da laboriosa colônia japonesa, achava-se em festa por conta do nascimento de mais um rebento – era o terceiro – mas que pela disposição e entusiasmo do senhor da prole, a produção ainda iria render outros preciosos frutos. Pois bem, transpirando felicidade por todos os poros, o papai dirigiu-se ao Cartório para os procedimentos de praxe, e lá chegando, disse ao Oficial:

– Vim registrar o meu terceiro filho, mas confesso que ainda não atinei com um nome que me agrade totalmente.

– Posso ajudá-lo? Pergunta o cartorário.

– Sim! Por favor faça isso.

– Inicialmente sugiro…

– Sujiro! Que nome bonito. Este vai ser o nome do meu garoto: Sujiro Kanji Kano.

E assim foi feito o registro do filho de Kano, que por sinal era o decano da única universidade que havia na cidade, o que por certo era um prenúncio de que seus filhos, no tempo oportuno, haveriam de ter o privilégio de estudarem numa escola da qual o pai era o sub-reitor. Mas a guisa de informação é bom que se diga ainda que, no sentido figurado, decano pode ser também aquele que se destaca entre seus iguais. E por falar nisso, você sabe quem é o decano da Academia Paulista de Letras? – É Paulo Bonfim, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, lapidador de encantadoras jóias em forma de poemas, dos quais, com visível orgulho passo a fazer uma pequena mostra, como estes quatro versos iniciais de “Descoberta”: “Deixa que as coisas te interpretem / Que o vento sinta tua pele, / Que as pedras meditem teus passos, / E as águas criem tua realidade”.

Veja que coisa linda são os versos deste quarteto que compõem a segunda estrofe do soneto “Os Dias Mortos”: “Os dias mortos, sim, onde guardá-los? / Em que ossário reter seus pesadelos, / Seu tecido rompido de novelos, / Seus fios graves, relva além dos valos.

E a pequena mostra se encerra com as oito linhas primeiras de “Cantiga do Desencontro”: “Onde estou que não me encontro / Caminho que já não sinto, / Eco de vozes distantes / Flutuando no labirinto? / Onde deixei meu olhar / Repleto de águas e rastros, / Onde a lama se confunde / Com o silêncio dos astros?”.

Assim este texto, vejam vocês, que começou falando de um japonês, chega ao fim com as jóias de Bonfim.Até quinta e fique com este conselho: se na hora de falar de amor, a voz lhe faltar, fique em silencio e fale com os olhos. Ela vai gostar.

Gê Moraes é cronista

gemoraesodiario@ig.com.br

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