EDITORIAL

Fazer viver ou deixar morrer

Pandemias, catástrofes naturais ou não, como as guerras, intensificam a dualidade entre o melhor o pior do homem presente todos os dias quando a escolha individual do político e do cidadão define quem somos, como vivemos. Um século após a gripe espanhola, o mundo vê o que o medo e a incerteza sobre o futuro provocam nas pessoas.

Há quem proteste e lute contra a ciência e o isolamento social, hoje, único meio de inibir a propagação da Covid-19, antes que se descubra a cura e uma vacina. Algo que está muito mais perto do que o que aconteceu 102 anos. Há pessoas como a professora Paula Palacios. Ela desconfiou do sumiço do catador de papel que algumas vezes, antes da pandemia, procurava comida no lixo, em César de Souza, e descobriu a história de Claudio Leandro. Casado e pai de três filhos, dois com autismo severo e uma garota que frequenta a Apae de Mogi, Claudio pagava R$ 800,00 pelo aluguel de uma casa no Conjunto Jefferson construído pelo prefeito Waldemar Costa Filho (1923-2001) com a finalidade de moradia popular e não de locação. Além do alto valor, a casa estava sem água e sem luz.

Paula mobilizou amigos. As contas foram pagas, uma nova moradia arranjada para a família e a campanha Corrente do Bem (www.vakinha.com. br) está buscando recursos financeiros para comprar uma casa para Claudio. A ideia é eliminar a despesa do aluguel, que compromete a receita familiar. Em meio à crise de saúde pública, a história de Claudio expõe velha ferida: a ausência do estado no amparo a famílias ignoradas por programas sociais que verdadeiramente as amparem, acompanhem e protejam. O estado dá o Bolsa Família, mas, casos como esse, exigem vigilância contínua das secretarias de Assistência Social, Saúde e Educação.

Esse encontro nos dá forças para acreditar que muitos sairão melhores no pós- pandemia porque constroem pontes, criam esperanças, agem com empatia. E nos fazem citar o filósofo Michel Foucault (1926-1984), autor de O Poder e o Conhecimento. Nesse livro, o historiador francês fala sobre um conceito surgido com a sociedade moderna, que subverte o direito de soberania, na figura do rei e seus escolhidos, que era o “de fazer morrer ou de deixar viver”, e instala um novo direito, o “de fazer viver e de deixar morrer”. E propõe reflexão sobre como cada um de nós está escolhendo viver a batalha do coronavírus individual e coletivamente na rua, no trabalho, na nossa cidade e no nosso país. Fazer viver, ou deixar morrer?


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