CULTURA

Fechado, Cecap promove ‘lives’ musicais

ENGAJADO Paulo Pinhal tenta valorizar a classe artística ao mesmo tempo em que recria de maneira virtual o clima das atividades presenciais realizadas na sede do Centro Cultural Antonio do Pinhal (Cecap) até o fim de abril. (Foto: divulgação)
ENGAJADO Paulo Pinhal tenta valorizar a classe artística ao mesmo tempo em que recria de maneira virtual o clima das atividades presenciais realizadas na sede do Centro Cultural Antonio do Pinhal (Cecap) até o fim de abril. (Foto: divulgação)

O Centro Cultural Antonio do Pinhal (Cecap) fechou as portas em abril, mas desde o início de junho está de volta, em novo formato, online. A programação de lives semanais não simboliza exatamente o retorno da casa, que não voltará a funcionar mesmo no pós-pandemia, mas representa sentimentos e valores por ela pregados, como a solidariedade aos músicos que passam por dificuldades durante o isolamento social.

Sempre às quintas-feiras, na faixa das 18 horas, o Facebook do fundador do Cecap, Paulo Pinhal, inicia uma transmissão de vídeo com a presença de músicos já familiares não só do público, mas também das paredes em taipas de pilão e de pau a pique que sustentam a sede da entidade, localizada entre as ruas Boa Vista e a antiga Rio Grande.

No repertório estão clássicos de estilos como forró, sertanejo e samba, mas o brilho do projeto não está nas músicas, e sim na intenção. Batizada de ‘Originais do Cecap’ a iniciativa tem, segundo Pinhal, o objetivo de amenizar as dificuldades sentidas por alguns músicos durante a pandemia de coronavírus ao mesmo tempo em que é algo que “pode melhorar o astral e ser solidário com quem está passando necessidades”.

É isso mesmo. Assim como outras dezenas de ‘lives’, as do Cecap também arrecadam doações. Parte do que vem em dinheiro é usado para a compra de cestas básicas, e o restante é dividido entre os artistas, que também recebem kits de alimentos e produtos de higiene em mãos.

As cestas são distribuídas a famílias necessitadas por Regina Pinhal, prima de Paulo, e todo o resto é organizado por ele. Isso inclui abrir a sede do Cecap para receber os amigos músicos, coordenar a gravação e captação de áudio e também a diulgação nas redes sociais.

Mas se o Cecap estava fechado, por que voltar agora, com um formato tão diferente para os padrões da casa? “Eu estava vendo que assim como o público, os músicos estavam passando certa dificuldade. E a gente tem o espaço lá, então demos a ideia a eles, que toparam participar”, conta Paulo Pinhal.

A experiência tenta chegar o mais próximo possível do “ao vivo”, então quem chega no horário para assistir vai ver os músicos se sentando, conversando, fazendo a passagem de som. E a audiência tem acompanhado estes momentos e dado bons feedbacks à organização.

“Essa semana teve gente de Natal assistindo”, comemora Pinhal, que reconhece que a qualidade de som ainda precisa de ajustes, o que vem acontecendo ao longo das semanas, “sem comprar nada, somente aproveitando o que já se tem”.

A verba arrecadada é pouca, mas suficiente para garantir algum trocado para cada participante. E a ideia é que esse dinheiro não entre exatamente “no bolso”, junto das demais notas. “Esse dinheiro foi ganho a partir do talento, da arte, então estimulamos a compra de algo como uma palheta nova, algo para o instrumento”, diz Pinhal, que espera que o projeto contribua para a valorização artística.

“Se a gente não se valorizar fica difícil”, acredita ele, que não promete mas confirma a possibilidade de outros formatos em live, como performances de dança, já que o Cecap costumava, quando aberto, a oferecer aulas deste tipo.

Aliás, as atividades online não têm um prazo para terminar. Elas são um reflexo da realidade atual, composta “por um cenário político maluco e o confinamento que desarticulou toda a arte”. “Não voltamos, mas precisamos passar a mensagem de que é preciso valorizar os artistas, pois eles representam o entretenimento, que destressa as pessoas”, justifica Pinhal.

Mais do que isso, ele afirma que o projeto ‘Originais do Cecap’ vem também para desmistificar a ideia de que transmissões de vídeo em tempo real são “bichos de sete cabeças”. “Qualquer pessoa que canta, que dança e que toca pode encostar o celular para fazer uma live, disponibilizando o número da conta para doações. Isso não é nada desrespeitoso e não pode ser visto como esmola pelos brasileiros, a exemplo de locais como os Estados Unidos ou a Europa, que reconhecem o talento dos músicos”.

Novas atividades no antigo prédio

Forçado a fechar o Centro Cultural Antonio do Pinhal (Cecap) “principalmente por motivos financeiros”, Paulo Pinhal é enfático ao dizer que a agenda online não se trata de um retorno. É claro que ele reconhece ter ganho “capital humano muito grande” e ter “melhorado como pessoa” ao longo dos 13 anos de atividades presenciais do órgão, mas diz que é hora de seguir em frente.

Isso quer dizer que o prédio continua, não mais como o Cecap, mas sim como um espaço para a realização de atividades, aulas, eventos, workshops, palestras, treinamentos, enfim, todo o tipo de ação, seja cultural e educacional ou não.

“Foi doloroso o fechamento do Cecap, mas tirou um peso das minhas costas. Levar o nome de um Centro Cultural faz com que as pessoas cobrem por cultura e atividades, e como eu me relacionei com tantos artistas, poetas e músicos, passei a entender um pouquinho do universo deles, e hoje consigo ver as dificuldades e carências”, comenta Pinhal, sobre o encerramento das atividades.

Ele diz, porém, que o site oficial da entidade – pinhal.org – não só continua como deve receber novo acervo fotográfico. O que também será mantido é o Colégio dos Arquitetos, uma empresa dele que costumava funcionar no mesmo endereço do Cecap.

“O espaço será mantido até mesmo para receber as palestras do Colégio, além de ter o significado de eu ter sido criado lá”, diz Pinhal, que é membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes (Comphap) e defende a preservação de casarios como o que abrigou o Cecap por 13 anos.

Pinhal é, portanto, contra “destruir patrimônios como uma casa com quase 180 anos de existência que tem um monte de histórias”, como pessoas que ali “se conheceram, se casaram, cresceram e evoluíram” e ainda “pessoas que cantavam no banheiro e viraram cantores profissionais depois de se apresentar num sarau”.

No entanto, mesmo que a casa estivesse aberta agora não poderia realizar muitas atividades, já que as aulas de dança e os encontros culturais dependem de contato físico, além de registrar a presença majoritária de idosos, considerados como integrantes do “grupo de risco” do novo coronavírus.

Contudo, a mensagem de Pinhal é tranquilizadora. “Tenho milhões de ideias na minha cabeça, sabe? E o isolamento social está me ajudando a focar mais, como o lançamento de 10 cursos online pelo Colégio de Arquitetos, que tem recebido inscrições de vários estados”.


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