Prestes a completar 90 anos, atriz decid

Fernanda Montenegro lança autobiografia

Prestes a completar 90 anos, atriz decidiu registrar todas as memórias da vida, desde a chegada dos avós ao Brasil até os trabalhos mais recentes

Fernanda Montenegro desperta atenção pelos olhos – grandes, inquisidores, investigativos. Em cena, na vida ou no palco, suas palavras têm o peso da veracidade. “Não se sabe o que mais admirar nela: se a excelência de atriz ou a consciência, que ela amadureceu, do papel do ator no mundo. Ela não se preocupa somente em elevar ao mais alto nível sua arte de representar, mas insiste igualmente em meditar sobre o sentido, a função, a dignidade, a expressão social da condição de ator em qualquer tempo e lugar”, observou, certa vez, Carlos Drummond de Andrade.

Exemplo de artista em um país em que essa atividade gera controvérsias, Fernanda se aproxima dos
90 anos de vida (festeja no dia 16 de outubro) com um vigor invejável. “Enquanto eu me manter andando por conta própria, com a memória boa e uma audição razoavelmente perfeita, pretendo continuar trabalhando”, brincou ela durante uma maratona de entrevistas para o lançamento de ‘Prólogo, Ato, Epílogo’ (Companhia das Letras), livro de memórias em que relembra desde a chegada dos avós ao Brasil até seus mais recentes trabalhos, como o filme ‘A Vida Invisível’, de Karim Aïnouz, que só estreia no dia 31 de outubro.

Trata-se de um projeto de longa gestação – entre julho de 2016 e novembro de 2017, a jornalista Marta Góes realizou dezoito entrevistas com a atriz. A partir do material recolhido e transcrito por ela, Fernanda se debruçou sobre a própria história, entre novembro de 2017 e agosto de 2019, para dar o contorno final.

“Hoje, percebo que muitos fatos ficaram de fora, mas o essencial está ali”, explica ela, que assumiu a tarefa movida por um motivo especial. “Aceitei o convite da editora pensando em meus três netos. Eu gostaria que eles soubessem da história de seus descendentes”.

Tal entendimento sempre foi claro para Fernanda Montenegro, que presenciou importantes mudanças sociais e políticas no Brasil em quase sete décadas de carreira artística – sua estreia no palco aconteceu em 1950, com a peça ‘Alegres Canções na Montanha’. No livro autobiográfico, os problemas artísticos caminhavam em paralelo com os do País, a ponto de, em um determinado ponto do relato, ela acreditar na existência de dois “Brasis”: um com problemas de saúde e educação e outro que nunca esteve melhor. E como ela vê hoje o País? “Um país indo para o lado de um novo conceito religioso”, conceitua, em uma fala pausada e muito pensada.

Memórias afetivas Se pudesse resumir o conteúdo de sua autobiografia ‘Prólogo, Ato, Epílogo’ em um punhado de frases, Fernanda Montenegro diria que se trata de uma “viagem com muitos colegas, com muitas crises políticas,
com muitas linguagens cênicas, com muita coragem de sobrevivência e resistência”, como já definiu. A atriz detalha o olhar que tem sobre a situação brasileira. “Há uma mentalidade de censura moral. Estamos nos transformando em um país conduzido por uma visão religiosa e, quem não apoiar, não terá nada. E a cultura tornou-se o primeiro item a ser revisto e, se possível, exterminado. A arte é demoníaca, e nós, artistas, somos o instrumento do demônio”.

Fernanda aponta, entre as causas dessa situação, a estrutura do sistema político brasileiro que prevê reeleição. “O período militar durou 20 anos e foi marcado por mudanças no comando, mas o sistema era o mesmo, o que se parecia com uma reeleição”, comenta. “Agora, com essa possibilidade prevista em lei, cada político que ganha uma eleição vê uma chance de manter seu partido no poder por 20 anos, o mesmo período da ditadura militar. Herdamos uma deformação política”.

Mulher antenada com as evoluções sociais, Fernanda narra, no livro, como descobriu o feminismo,
apoiado principalmente na leitura dos textos da francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), que teve uma
influência significativa tanto no existencialismo do feminino como na teoria desse gênero. A ponto de, atualmente, defender com veemência movimentos como o #MeToo, nascido em 2017 com a missão de denunciar o assédio e as agressões sexuais sofridas especialmente por atrizes.

A autobiografia é repleta também de histórias curiosas. Como o momento mais marcante da carreira de Fernanda Montenegro: a consagração conquistada pelo filme ‘Central do Brasil’, de Walter Salles. O longa ganhou o prêmio máximo do Festival de Berlim de 1998, o Urso de Ouro.

O cinema, aliás, foi um meio no qual Fernanda Montenegro exercitou seu amor ao ofício por ter trabalhado em muitas produções de baixíssimo orçamento. Como em ‘Eles Não Usam Black-Tie’, dirigido por Leon Hirszman em 1981. Baseado em uma peça de Gianfrancesco Guarnieri, que dividiu o protagonismo com Fernanda, o longa mostra os efeitos do movimento grevista em uma família operária.

No papel de Romana, a atriz ofereceu uma das mais perfeitas performances do cinema brasileiro, com uma interpretação contida, baseada principalmente no tom de voz e no olhar. E a cena final foi um dos motivos que convenceram os jurados do Festival de Veneza de 1981 a conferir o prêmio máximo, o Leão de Ouro.

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