CIRCUITO

Fernando Campos: “Pandemia antecipa tendências em tecnologia, sustentabilidade e hábitos”

Presente em vários países, a Ponsse é uma empresa finlandesa, pioneira na colheita mecanizada de florestas plantadas. Uma das unidades do grupo está instalada em Mogi das Cruzes, e o diretor de toda a operação no Brasil é o mogiano Fernando Campos. A O Diário ele comenta o impacto do coronavírus no setor industrial e como o home office se tornou uma realidade nos últimos meses, além de outros assuntos, como a reforma tributária proposta pelo governo federal e ainda a abertura de novas vagas de emprego na unidade de Mogi e a força do Distrito Industrial do Taboão.

Muito tem se falado sobre o comércio, que depois de meses sem atividades presenciais voltou a operar, de maneira gradativa. Mas como tem sido o enfrentamento da Covid-19 pelo setor industrial?

Não há dúvidas que o setor industrial foi mundialmente afetado. Venho participando de várias discussões junto a empresários de diversos segmentos da região do Alto Tietê e Vale do Paraíba, e os impactos e consequentes demandas por apoio são distintos. O que é comum para todos é a preocupação com o fluxo de caixa das empresas durante esse período mais crítico e o esforço para manutenção dos empregos, sendo fundamentais para isso as medidas referentes a flexibilização do contrato de trabalho.

Além das regras sanitárias e de distanciamento social, o que mais indústrias como a Ponsse adotaram para ajudar a combater o coronavírus?

A Ponsse trabalha junto a grandes empresas do setor florestal e geralmente no ritmo de 24 horas por dias durante sete dias na semana. Boa parte do setor florestal é considerado como atividade essencial, isso porque está diretamente ligado a produção de produtos de higiene pessoal e embalagens, portanto tivemos que nos adaptar de maneira muito rápida, pois as atividades não foram suspensas. Já em fevereiro foi criado por nossa matriz na Finlândia um comitê de crise e restringimos de maneira bem severa as viagens internacionais e nacionais e fornecemos máscaras e álcool em gel. Para a equipe administrativa foi adotado o home office, porém para o pós-vendas, que precisa continuar atuando normalmente, adotamos várias medidas adicionais, como politica de higienização dos veículos, medição de temperatura e inclusive testagem para colaboradores com sintomas.

Então o home office precisou se tornar uma realidade? Quantos trabalhadores se enquadraram neste sistema em Mogi das Cruzes?

Sim, em todas nossas unidades, para todas as funções cabíveis e para pessoas do grupo de risco o home office foi adotado de maneira preventiva. Em Mogi das Cruzes, onde está localizado nosso escritório central, cerca de 90% da equipe está trabalhando desta maneira.

A Ponsse já estava acostumada a esta modalidade de trabalho? Qual é a previsão para que os colaboradores voltem a atuar na própria empresa?

Não. O home office foi implantado devido a situação atual. Estamos aproveitando a oportunidade para entender os pontos fortes e de melhorias, além de pesquisas junto a nossos colaboradores. No momento entendemos que não retornaremos antes de setembro, e é bem provável que adotemos essa medida adaptada à nossa realidade.

Quais foram os desafios impostos pela pandemia, e como se deram as estratégias para lidar com eles?

Além das ações de contenção da propagação do vírus, o principal esforço é relacionado a comunicação interna. Acaba sendo um momento de muitas incertezas, mudanças repentinas e que geram alto nível de ansiedade. No início da pandemia foram muitas informações desencontradas e a comunicação direta e mais frequente foi fundamental, o que fica como uma lição aprendida.

O senhor já acumula experiências há 14 anos na Ponsse, inclusive nos setores de peças, logística, vendas e marketing. Considerando essa vivência, com quais mudanças e consequências acredita que a indústria terá de lidar no pós-pandemia?

Nesse ponto eu particularmente tenho uma visão que poucas coisas mudarão exclusivamente devido a pandemia. Na minha opinião a pandemia impacta diretamente na antecipação de algumas tendências, ou seja, o que ocorreria em 10 ou 15 anos já está acontecendo ou será realidade nos próximos dois ou três anos, isso tanto para nossos hábitos como para impactos em relação a sustentabilidade e tecnologia.

Aliás, a Ponsse é finlandesa e possui unidades em diferentes locais. Como tem sido o contato e a troca de experiências com gestores que vivem realidades diferentes de Mogi?

Essa visão global e troca de experiências interna é muito importante independentemente do assunto, e não foi diferente em relação à Covid-19. A Ponsse é a única fabricante de máquinas florestais com presença na China há mais de 10 anos, onde o primeiro foco da doença foi identificado. Me recordo que no início de fevereiro recebemos a visita de nosso presidente do conselho que trouxe todos os impactos, inclusive o lockdown nas operações da China. Mal sabíamos que estaríamos em situação similar dois meses depois…

Nas últimas semanas, a Ponsse anunciou uma parceria com uma grande produtora de celulose, uma nova filial em Lençóis Paulista e também investimentos na unidade de Mogi, com a geração de até 250 novos empregos. O que pode ser adiantado sobre a novidade em solo mogiano?

Sem dúvidas foi uma grande conquista que veio coroar o ano em que a Ponsse completa 50 anos de fundação, sendo esse um dos maiores negócios de nossa história. Iremos duplicar nossas operações no Brasil e seremos a maior subsidiária da Ponsse em número de colaboradores no mundo. Nesse novo contrato, além da venda dos equipamentos, prestaremos o serviço de manutenção durante toda vida útil das máquinas. Com isso temos várias oportunidades em aberto para diferentes cidades do interior de São Paulo, e estamos com novos projetos em estudo, como um centro de recuperação de componentes e um novo centro de treinamento.

O ministro da Economia Paulo Guedes entregou recentemente a primeira parte da reforma tributária ao Congresso. O texto prevê, por enquanto, a unificação dos tributos PIS e Cofins, mas mudanças no Imposto de Renda e alteração da carga tributária devem ser tratadas em breve. Como o senhor enxerga esta reforma tributária?

Tenho certeza que essa é a direção correta e essencial para nosso país, mas esperava algo mais robusto e completo. Recentemente participei de uma live onde foi feita uma reflexão interessante: muito se fala na segurança jurídica para o investidor externo, mas na verdade a questão tributária é uma dor (necessidade) prioritária para os atuais empresários/investidores do país. Obviamente, além da maior segurança jurídica, o que se espera é um aumento de competitividade de nossas indústrias como um todo através da simplificação do sistema tributário, sendo esse aumento essencial para a retomada econômica que todos nós esperamos.

Voltando a falar sobre Mogi das Cruzes: como o senhor avalia o cenário local? Acha que a cidade é bem servida de indústrias?

Eu sou suspeito para falar de Mogi. Sou mogiano de nascimento e coração. A cidade é bem servida de grandes empresas de diferentes setores econômicos, logisticamente muito bem localizada, tem boa oferta de mão de obra qualificada e oferece uma excelente qualidade de vida. Acredito que há oportunidade das empresas da região se conhecerem e se aproximarem ainda mais, gerando oportunidades de negócio e fortalecimento das atividades econômicas, incluindo políticas públicas e maior interação junto as instituições de ensino.

Em sua opinião, o Taboão tem potencial para se tornar referência em parque industrial na região metropolitana de São Paulo?

Com certeza. Entendo ser uma das maiores áreas disponíveis no estado de São Paulo, somando a isso todos os benefícios logísticos e oferta de mão de obra qualificada, são fatores bastante atrativos para novas empresas.


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