EDITORIAL

Fim do constrangimento

“Quando a mudança deixa de acontecer, é por força da ‘vontade política’”

Em junho passado, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) registrou feito inédito – o maior número de usuários do sistema, desde a medição de 2014. No dia 8 daquele mês, as catracas viraram 2.921.158 vezes. A linha 11-Coral, entre a Estação Luz e Mogi das Cruzes, manteve a liderança histórica. Foi a que mais fez as cifras das bilheterias rodarem, com 734.600 passageiros (137 mil pessoas a mais do que a segunda rota ranqueada, a linha 9-Esmeralda).

A linha mais rentável para a CPTM é a que mais demorou a ser incorporada ao processo de modernização de trens e estações.

O roteiro ferroviário regional teve uma terça-feira atípica na semana que passou. Criada para ser temporária, uma solução operacional para essa campeã de vendas de tíquetes foi abandonada após 19 anos.

Esse constrangedor hiato de tempo molda-se com perfeição ao que esse jornal nunca aceitou: a régua de exclusão e descaso com que o Governo do Estado tratou a Linha 11, sujeitando seus consumidores a uma dramática, insegura e demorada troca de composições, em Guaianases.

Quase duas décadas – exato um quarto da média de expectativa de vida do brasileiro medida no ano passado, ou seja, 75,8 anos (Fonte/IBGE).

Tem uma ideia do que é isso? Quem nasceu em 2000 somente agora fará uma viagem sem atropelo, sem o risco de ver bate-boca, empurrões, tombos, safanões e tiroteio (sim, armas eram apontadas durante a conturbada troca de trens, como chegou a noticiar esse jornal quando começaram os testes para o fim da baldeação).

O Diário vê chegar ao fim uma de suas mais antigas campanhas. Um dos argumentos, nunca aceitos por nós, foi, enfim, colocado por terra. A CPTM afirmava que não havia condições técnicas de se manter o trem direto.

Foram feitos investimentos no decorrer do tempo, como as construções de novas estações (menos as de Mogi), mas há de se convir que a decisão política do governador João Doria (PSDB) pesou.

E aqui voltamos ao tema caro para Mogi – a nossa representatividade política desfocada por políticos inebriados por holofotes próprios, a despeito do interesse coletivo.

Em O Valor do Nada, o economista e professor Raj Patel, diz: “Quando a mudança deixa de acontecer, é por força da ‘vontade política’, uma espécie de pó mágico que impulsiona os poderosos à ação (ainda que tal ação termine sendo apenas uma reciclagem disfarçada)”.

A Linha 11 é o melhor exemplo disso. Possui o maior número de pagantes. Deveria ser a prioridade da CPTM, a melhor ajustada, e como diz o presidente da Associação dos Moradores do Jardim São Pedro, Adalberto Santana de Andrade, ter o mesmo piso de porcelanato dos roteiros menos rentáveis.


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