CHICO ORNELLAS

Fim do mistério

Mogi de A a Z

Por duas vezes (14/8/2016 e 2/6/2019) houve aqui lembranças da Jornada Épica que marcou a aventura empreendida por três brasileiros. Entre 1928 e 1938, com dois veículos, saíram do Rio de Janeiro em direção a Nova York, criando eles próprios, em muitas ocasiões, trilhas onde não havia estrada. O primeiro texto me foi possível por iniciativa de Leonor da Cruz Ruiz, filha de Francisco Lopes da Cruz, um dos aventureiros. Para o segundo, socorri-me de pesquisa do amigo João Camargo, que me enviou foto do trio, com seus veículos, em Mogi das Cruzes.

Estabeleci suposições com o amigo, para deduzir a data da foto por aqui. Imaginei que deveria ser em 1938, por nela estar Zoé Arouche, que exerceu, nesse ano, o cargo de prefeito de Mogi. Pois o mesmo João Camargo tem a gentileza de me enviar a comprovação da data. Paciente, foi ele garimpar alfarrábios digitais e encontrou, na coleção do jornal Correio Paulistano, de 13 de outubro de 1938, reportagem sobre a chegada dos expedicionários a São Paulo, no dia 9 de outubro do mesmo ano.

AVENTURA – Os expedicionários brasileiros em Detroit, com Henry Ford e em Washington, com Franklin Roosevelt. (Foto: arquivo pessoal)

O texto informa: “Vindos do Rio nos mesmos carros com os quais percorreram as mais variadas estradas, os expedicionários chegaram ao marco zero da Praça da Sé, em companhia do sr. Zoé Arouche de Toledo, prefeito de Mogi das Cruzes, que o acompanhou a esta capital, onde tiveram concorrida recepção por parte do povo paulista”.

Na chegada a São Paulo, o Esplanada Hotel, o mais luxuoso da cidade então, ofereceu-lhes três apartamentos. Foi lá que o repórter do Correio Paulistano se encontrou com eles e ouviu do chefe da missão, capitão Borges de Oliveira, que o percurso total do Rio a Nova York foi de 26.037 quilômetros, atravessando 15 países. Desse total, havia estrada em 15.986 kms; obras em 834 kms, 5.553 kms transitáveis em períodos de estiagem e 3.664 kms por abrir.

Durante o percurso, eles passaram, em balsas e pontes improvisadas, por 350 rios e, no total, consumiram 14 mil litros de gasolina, 1,2 mil litros de óleo e 56 pneus. “Em certos trechos da viagem – relatou Borges – não dispondo de câmeras de ar, enchíamos os pneus com capim, amarrávamos e seguíamos até o vilarejo mais próximo”.

Hoje, só de gasolina, seriam R$ 56 mil. Mas os aventureiros, para toda a missão, receberam ajuda, inclusive a doação dos dois veículos que utilizaram: um sedan e uma camioneta. “Tivemos apoio moral e material de todos os países que atravessamos. A cada governo entregamos, como cortesia, uma sumula dos trabalhos realizados. Fomos recebidos, magnificamente, no City Hall de Nova York e considerados hóspedes oficiais de todos dos países que visitamos. Recebemos expressivas felicitações da União Pan-Americana, do ilustre presidente Roosevelt, que nos recebeu cordialmente na Casa Branca e de Cordell Hull, da Sociedade Geográfica dos Estados Unidos, que nos ofereceu um banquete.

Um dos carros está hoje no Museu Mario Fava, de Bariri, que assim homenageou o mecânico da expedição, nascido na cidade. Francisco Lopes da Cruz, que na empreitada serviu como navegador, por seus conhecimentos de engenharia e aparelhos de navegação, viveu boa parte da vida – e aqui morreu – em Mogi das Cruzes.

Ele trabalhava em obras da Estrada de Ferro Central do Brasil, conheceu Olívia com quem casou e teve as filhas Leonor e Estela. Capitão, como Francisco era conhecido, morreu em dezembro de 1966..

Carta a um amigo

Meu caro Clóvis Rossi

Viajei, esta semana, por lembranças que me são muito gratas. Elas remontam há quase 50 anos. Foi em fevereiro de 1970, daqueles momentos que definem uma vida. Eu estava no 4º ano da Faculdade de Direito, era repórter neste Diário, e correspondente do Estadão em Mogi. Jair Monsores, amigo daqueles que se contam nos dedos, me provocou: “Chiquinho, está na hora de você começar a estagiar como advogado, passa lá no meu escritório”. Foram segundos para um plano: vou em São Paulo, vejo se há espaço na Redação, fico e contínuo jornalista; ou então dou para a cara na porta, volto e começo a estagiar.

GRANDÃO – Clóvis Rossi, o mais completo jornalista brasileiro de minha geração (ilustração acervo Cláudia Rossi).

Na mesma semana fui ao Estadão procurar Raul Bastos, chefe das sucursais e correspondentes. Amigo que preservo hoje, ouviu-me e me levou até você, então editor e chefe de reportagem. Raul foi tão claro quanto a sua resposta: “Pode vir, verba nunca tem, trabalho nunca falta”.

Começava ali uma faina de 42 anos e uma amizade de 49, interrompida há uma semana, quando um infarto, na convalescença de angioplastias e implantação de stents, realizadas no Hospital Albert Einstein, o levou.

Aqueles primeiros anos em uma grande Redação – éramos para lá de 300 jornalistas – me foram escola de vida e aprimoramento profissional. Tínhamos um time que Robert Civita, dono da Editora Abril, qualificou como “Redação dos sonhos”. O pauteiro era Ricardo Kotscho e, nas laudas datilografadas com as incumbências diárias, havia nomes como Ademar Oricchio, Alberto Tamer, Aloísio de Toledo Cesar, Carlos Alberto Sardenberg, Carlos Conde, Domício Pinheiro, Eduardo Figueiredo, Eduardo Martins, Frederico Branco, Frederico Heller, Hilde Weber, Ludembergue Goes, Luiz Roberto de Souza Queiroz, Oswaldinho Martins, Paulo de Tarso Costa, Quartim de Moraes, Raul Bastos, Reali Júnior, Reginaldo Manente, Robert Appy, Rolando de Freitas, Sérgio Mota Melo, Tadeu Afonso e tantos outros. Formávamos um time onde o alicerce era o caráter.

Separamo-nos profissionalmente em 1977, você seguiu outros rumos e fixou-se na Folha de S. Paulo. Durante anos, quando lhe telefonava para cumprimentá-lo pelo aniversário, dia 25 de janeiro, que atendia era a esposa Catarina. “Clovis está em Davos, no Forum Internacional”. Quem mandou nascer no mesmo dia de Jânio Quadros, dizia-lhe eu ao retorno. Sua resposta foi sempre a mesma à afirmação repetida: “Nasci no mesmo dia de São Paulo e isso é muito diferente”.

Quando eu ligava e quem atendia era um de seus filhos, ouvia a chamada seguida ao meu cumprimento: “Pai, é o Chico Sapo”. Eles nunca, tampouco você, esqueceram o apelido que ganhei, nas minhas primeiras semanas em São Paulo, conferido pelo companheiro Aloísio de Toledo Cesar.

Nossos encontros seguiram-se sociais, fosse nos aniversários de seus filhos e nos meus próprios, vários dos quais celebrados em Mogi. Em uma destas ocasiões apresentei-lhe Tote Da San Biagio, fundador deste jornal. A conversa que se seguiu entre vocês foi uma das mais incríveis que testemunhei. Tote, profissional que nunca exerceu o ofício fora daqui, falava com você, jornalista que cobriu notícias nos quatro continentes, de igual para igual. A análise que faziam da política nacional e de conflitos internacionais era de gente madura e consciente, sobretudo informada.

Também nos encontramos para seminário da Fundação Konrad Adenauer, no Hotel Glória do Rio de Janeiro. Em 1985, foi num corredor do Instituto do Coração, em São Paulo, quando da agonia de Tancredo Neves. Confesso-lhe agora: o trabalho que você produziu naqueles dias, e publicou na Folha, causavam comoção no Estadão, tal a diferença entre uma e outra cobertura.

Ao receber na madrugada, semana passada, um WhatsApp despachado por sua filha Cláudia, dando conta do que ocorrera, senti-me menor ainda do que a diferença entre nossos tamanhos, físico e de competência: você com seus 1,98m de altura, eu com meus 1,7m.

No Cemitério Gethsêmani encontrei vários de nossos amigos, alguns não via há muito tempo. Mas foi como se nunca as redações nos tivessem separado. Como sempre, nos olhávamos fixos e nos abraçávamos. Sai de lá lembrando-me de uma mensagem de aniversário que você me enviou recentemente e que mostra bem o caráter a que me referi há pouco: “Parabéns Chico, um dos jornalistas com o qual mais aprendi (e não aceito ironia dizendo que não aprendi nada). Abração, mais ainda para Nanci, uma santa por te aguentar”.

Acabou Grandão, ficam as lembranças.

Grande abraço do

Chico

GENTE DE MOGI

MAESTRO – Mineiro de Areado, José Maria Ramos estreou músico na banda que o avô Nicanor mantinha, com 17 netos. Chegou a Mogi, trazido pelos pais, com o advento da Mineração Geral do Brasil, a grande empregadora da cidade no final da década de 1940. Ficou pouco como alfaiate e muito como o músico que animava bailes por aqui e acompanhava estrelas na TV Record. Maestro Zezinho morreu em 2015.

O melhor de Mogi

O trabalho desenvolvido pela APAE em Mogi das Cruzes. Sem sombra de dúvidas é uma das melhores e mais ativas iniciativas comunitárias surgida na cidade a partir da segunda metade do século passado. E das mais duradouras: está a celebrar seu Jubileu de Ouro (50 anos).

O pior de Mogi

Alguém sabe no que deram as sindicâncias abertas nos últimos anos na Câmara de Mogi? Tem de tudo, mas das que mais se lembram envolvem o uso de carros oficiais. Que nos responda o presidente Rinaldo Sakai.

Ser mogiano é….

ter sido coroinha do padre Melo (Manoel Bezerra de Melo), quando vigário da Paróquia da Vila Industrial.

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