ARTIGO

Firme nos arreios da vida

Gê Moraes

O projetista Medina projetava com critério a viabilidade do seu projeto vir a se projetar e ocupar o espaço que lhe fora reservado no ponto mais nobre de um bairro situado numa cidade da Idade Média, onde a nobreza, de nariz empinado, cuidando ser dominante, pobre coitada, era dominada pela falta de higiene, em razão da inexistência de sanitários, desodorantes, papel higiênico e de outros elementos inerentes aos sãos princípios da limpeza.

– Bah! Estás brincando tchê!

– Brinco não, guapo sulista da terra do minuano, das estâncias e da rancheira de carreirinha. Falo estribado nos fatos que repousam no berço esplêndido da História. E para seu governo, ainda lhe digo mais: as excrescências da nobreza eram atiradas janela abaixo.

– Epa! Aí não dá para arrastar a asa e convidar a chinoca para churrasquear no mesmo espeto.

– Saiba ainda, caro amante da cuia com chá fervente que, no calor as damas se abanavam, não por causa do tempo quente, mas para amenizar o cheiro que escapulia por debaixo das saias, que apesar de serem feitas à caráter, não davam conta de conter o odor.

– Xi! Já pensaste se uma dessas aparecesse num surungo animado? Os pés de valsa iriam sentir-se judiados como filhotes de passarinho em mãos de piá e, de vereda escafeder-se-iam para o lado que o vento levasse.

– E por não existir WC, veja você, nos enormes e belos jardins as flores de bom perfume eram obrigadas a dividir espaço com outras plantadas pelos comensais das famosas festas promovidas pela nobreza.

– Rapaz! Em tal jardim deveria haver mais corvo do que em carniça de vaca atolada.

– E o furdunço não parava por aí. No que dizia respeito ao banho ele só era tomado no mês de maio por toda a família numa única banheira, e o primeiro a entrar na água limpa era o chefe da casa, depois vinham os outros homens, por ordem de idade, depois as mulheres na mesma ordem, e por último as crianças e quando chegava a vez do bebê, coitado, já não se sabia mais se aquilo era água ou meleca de suíno, o que por certo deixava o bichinho mais contrariado do que gato a cabresto.

– Eta potrilho chucro, renegado e caborteiro! Isso não se faz a um gigante, quanto mais a um infante. Se lá me achasse, muito trabalho daria ao meu velho rebenque.

– Pois é, amigo gaúcho, o sol já descamba no horizonte e preciso descansar para fazer face ao entrevero e permanecer sempre firme nos arreios da vida. Um bom chimarrão e muitas bênçãos do Patrão Celestial para você.

Gê Moraes é cronista

gemoraesodiario@ig.com.br


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