PERFIL

Flaviano de Melo é uma rua que privilegia pedestres

REVITALIZAÇÃO Rua teve as calçadas alargadas, ganharam floreiras, bancos e divisórias, deixando-a mais atraente e diferenciada. (Foto: Eisner Soares)

Uma das ruas charmosas da cidade, a rua Flaviano de Melo passou por uma grande transformação recentemente, depois de uma obra de reurbanização que deu uma cara nova e a deixou mais bonita, privilegiando os pedestres que transitam pelo local durante o dia, período em que permanece fechada para o trânsito de veículos. Além de ter um comércio bastante diversificado, o local conta com floreiras e bancos espalhados pelo trecho que passa pela área central.

A Flaviano de Melo é mostrada nas primeiras imagens feitas da cidade, desde a época em que Mogi das Cruzes era apenas uma vila. A sua localização central dava acesso às igrejas que existiam na época. Era conhecida inicialmente como rua das Flores e foi endereço de residências de muitas famílias tradicionais, onde foram instalados os primeiros edifícios construídos no município.

Ainda preserva alguns casarões antigos, como no caso do imóvel usado pelo Instituto Dona Placidina e o prédio do banco Santander, mas sempre teve um perfil comercial. Segundo site MapaEmpresas existem na rua 128 empresas, que juntas somam um capital de quase R$ 9 milhões (R$ 8.987.907,00), mas pelo levantamento feito por O Diário o número de estabelecimentos ultrapassa os 160, considerando os que estão instalados nas esquinas das ruas cortadas pela Flaviano.

A via conta com comércio dos mais diversos tipos de produtos, farmácias, restaurantes, lanchonetes, padaria, agência bancária, estacionamentos, prestadores de serviço, profissionais liberais, escolas, artigos religiosos, laboratórios, concessionárias e locadoras de veículos, entre outros. Existem alguns domicílios constituídos de casas nas duas extremidades, vários edifícios, que se misturam com prédios comerciais em sua extensão.

A rua começa na Vila Rubens, no número 18, entroncamento com a Avenida Adhemar de Barros, na praça da Maçonaria. Termina em frente ao Teatro Vasques, no entrocamento com a Dr Correa. No trecho inicial, o seu aspecto residencial também está perdendo espaço para o comércio. Nas primeiras quadras estão instalados alguns edifícios, oficinas, lojas de autopeças, concessionária e locadora de veículos, laboratórios, empresas de segurança, imobiliárias.

Quem passa no trecho da Flaviano próximo da Campos Salles, sentido centro, logo cedo e na hora do almoço, vai observar uma imensa fila em frente ao número 378 onde está instalado o Bom Prato, que fornece refeições a preços populares, a uma clientela formada por idosos e pessoas de baixa renda. O benefício é oferecido pelo Estado, em parceria com o município. Diego Batista Júlio, funcionário que faz a segurança e organiza as filas, destaca os benefícios do restaurante “que nesse período de crise e desemprego tem ajudado a garantir a alimentação de muita gente”. O local serve diariamente cerca de 500 cafés da manhã (R$ 0,50) e 1400 almoços (R$ 1,00).

Uma quadra à frente, sentido centro, a rua é cortada pelo Rio Negro, na altura da Vila Hélio. Aquela região, onde durante muitos anos funcionou a fábrica da NGK, e que hoje abriga vários serviços da Prefeitura, sofreu durante muitos anos com as enchentes, até ser revitalizada, com a construção da Praça Otaviano Augusto Malta – Totó, construída às margens do rio. Do outro lado fica o Terminal Central de ônibus. Nessa mesma área foi construída a praça Flávio Furlan, área de convivência dos usuários do espaço, valorizado com a instalação de um cavalo alado, obra de Rodrigo Bittencourt.

Nesse trecho é intenso o trafego de carros e ônibus, que é interrompido na rua Braz Cubas. A partir desse ponto só é permitida a circulação de pedestres. As obras de revitalização feitas em 2015 contemplaram quatro quarteirões, cruzando o calçadão da Dr. Deodato, Coronel Moreira da Glória, Presidente Rodrigues Alves até chegar na Padre João.

A revitalização deixou o trecho com aspecto diferenciado, parecido com calçadão durante o horário comercial. Funcionários de lojas próximas se reúnem na hora do almoço, amigos sentam para conversar e colocar a conversa em dia e também para descansar. Quem está sempre apreciando o movimento é o segurança Cleberton de Jesus Abreu. A autônoma Silvana dos Santos Fonseca Carvalho estava no local com a filha Yara, acha que “precisa de mais cuidados do poder público para manter o aspecto de limpeza”.

A vendedora de uma loja, Gabriela Ribeiro acha a rua “charmosa”. Na opinião dela, “o melhor é mesmo privilegiar os pedestres e permitir que circulem com segurança”. Porém, ela acha que o policiamento deveria ser reforçado para evitar os furtos que acontecem com frequência naquela região.

Um dos pontos de destaque é o Mercado Municipal, impactado com a interrupção do trânsito e da falta de vagas de estacionamento. O mercadista Alexandre Santarelli, que trabalha com comércio de carnes, disse que apesar de ter melhorado a circulação de pedestres, muita gente deixou de consumir no local por não ter onde estacionar. Na opinião dele, “a prefeitura precisa rever esse problema e criar alternativas com estacionamentos verticais e subterrâneo”.

A partir da rua Presidente Rodrigues Alves, mesmo no trecho revitalizado, é permitido o trânsito de veículos. Depois da Rua Padre João, esquina do Centro Cultural, passando a Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, a Flaviano segue até a Dr Correa, espaço que na opinião dos comerciantes acabou sendo prejudicado com as obras de revitalização. São inúmeras portas fechadas. No final da rua quase não passa carro. Ao longo dos quase dois quilômetros de extensão da via, a reportagem contou 47 comércios fechados, a maioria com placas de “Vende-se e Aluga-se”.

Nem todos se beneficiaram com a obra

A mudança promovida na Rua Flaviano de Mello, apesar de ter sido aprovada pela maioria dos pedestres, provocou uma grande polêmica entre os comerciantes da rua, que ficaram contrariados com a interrupção no trânsito no trecho que corta o centro da cidade, onde as calçadas foram alargadas, as ruas ganharam floreiras, bancos e divisórias, deixando o local mais atraente e teve aspecto diferenciado.

O movimento no comércio no final da via foi o mais afetado com as obras, na opinião dos proprietários. São inúmeras portas fechadas com placas de “vende-se e aluga-se”. No trecho final quase não passa carro. Tem algumas lojas e serviços que ainda resistem, mas muitos deles, alguns tradicionais, já mudaram de endereço.

Na época em que a Prefeitura realizou as obras, concluídas em 2015, ocorreram várias reuniões para tratar do assunto. Mesmo aprovando as melhorias, os lojistas queriam manter a circulação de, pelo menos, um carro por vez na via, Porém, no final, ficou decidido que a interdição no horário das 9 às 18 horas. E a liberação para carros a noite e de madrugada, horário de carga e descarga.

Depois da Rua Padre João, mesmo permitido o trânsito de veículos, a forma como o trânsito foi orientado no local deixa poucas opções aos motoristas. Dessa forma, além de não contar com os privilégios da área urbanizada, o trecho “foi prejudicado” na avaliação dos comerciantes com pouco movimento de carros e falta de vagas de estacionamento.

A revitalização beneficiou a área em frente ao Centro Cultural, que deixou de ser uma via para se tornar a praça Monsenhor Roque Pinto de Barros. Só passam pelo local os carros que podem fazer a conversão na Rodrigues Alves, foi urbanizada no trecho entre a Paulo Frontim e a Coronel Souza Franco.

Isso teria contribuído para o fechamento de diversos comércios nos quarteirões. Para se ter uma ideia, existem 15 placas de “vende-se e aluga-se” nos quarteirões depois do Mercado Municipal sentido teatro.

Na opinião de alguns comerciantes, como é o caso da lojista Roseli Rodrigues Goes, “o ideal seria que a prefeitura complementasse a obra e revitalizasse a rua até a Dr Correa”. Ela disse que o movimento caiu mais de 50% e a loja tem sobrevivido à base de promoções. A lojista Sabrina Tardin, que abriu um comércio de roupas íntimas nesse trecho há dois anos, já está procurando um outro ponto mais movimentado.

Quem ainda consegue se manter são os que mantêm clientes fixos. Um deles é o proprietário do salão de cabeleireiro Nélio da Silva. Esse é caso também da proprietária da loja de informática, Elaine da Silva Gaspar. “Antes a gente vendia até mesmo para clientes que passam por aqui e nem precisavam descer do carro. Agora, as vendas de equipamentos caíram muito e estamos conseguindo nos manter por causa dos clientes, que são antigos”.

OPINIÃO Nélio destaca a clientela fixa. (Foto: Eisner Soares)

Quem foi Flaviano de Mello

O mogiano Flaviano Benedicto de Mello, filho de Joaquim de Mello e de dona Ana Maria da Lapa, nasceu em Mogi das Cruzes, no dia 26 de Julho de 1837. Ajudou muita gente na cidade com métodos alternativos de tratamento de saúde e no decorrer de sua vida se tornou um dos personagens mais populares da cidade.

Apesar de ter sido alfabetizado pelas primeiras letras, curso equivalente ao primário, adquiriu conhecimento por conta própria. Aprofundou os seus estudos e quando alcançou certa bagagem literária, passou a dar aulas particulares. Desde jovem sempre se interessou com as coisas da natureza. Passou a conceituar os valores e a importância das ervas medicinais e sua cura das enfermidades à população.

A partir de 1876 passou a atender em uma sala na atual rua José Bonifácio e prescrever receitas de uma medicina natural para tratar de diversas doenças, além de fornecer os medicamentos. Nunca cobrou por seus serviços. No início de 1880, no dia 13 de Janeiro, a Câmara aprovou concessão de 200 mil reis de verba do orçamento municipal para que ele pudesse continuar atendendo ao povo, atividade que manteve até a sua morte em 22 de fevereiro de 1916.

Seu falecimento deixou uma grande lacuna entre todos que o conheceram. Sua memória, no entanto continuou viva na cidade, porque logo depois de sua morte a Câmara deixou o nome do professor gravado numa das ruas mais importantes da cidade.

A história dele está nos livros grandes personagens de Mogi das Cruzes, escrito por Régis de Toledo. A pesquisa contou com a colaboração do bibliotecário Auro Malaquias dos Santos.

Silvia Chimello

Silvia Chimello

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