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Foclore Político (CVIII) O mistério do celular

BOM DE CAUSO Geraldo Alckmin, além de personagem de muitas delas, sempre foi excelente contador de histórias da política do interior paulista. (Foto: reprodução)
BOM DE CAUSO Geraldo Alckmin, além de personagem de muitas delas, sempre foi excelente contador de histórias da política do interior paulista. (Foto: reprodução)

Às duas da madrugada, o prefeito liga para o  governador Alckmin

O ex-funcionário público municipal Francisco Rodrigues Corrêa, o Quico, cumpria o segundo ano como prefeito de Salesópolis quando a cidade foi atingida por um violento temporal, em plena terça-feira de carnaval. Choveu tanto que a pressão da água acumulada no interior do cemitério derrubou o muro e desceu morro abaixo, levando túmulos e restos mortais de pessoas lá sepultadas. Eram 2 horas da madrugada quando o prefeito, apavorado com o que via, decidiu ligar para o governador do Estado, que o atendeu, com voz de sono. “O senhor tem de me ajudar, os defuntos estão espalhados pelas ruas e eu tenho outros problemas com a cidade, abalada pela tromba d’água”, disse Quico. Do outro lado da linha, Geraldo Alckmin buscou acalmá-lo, com promessa de ajuda. Logo pela manhã, a Defesa Civil e outros órgãos do Estado colocaram funcionários para limpar Salesópolis. Uma semana depois, o telefone do prefeito toca e um assessor do Palácio dos Bandeirantes lhe informa que o governador precisava falar pessoalmente com ele, com urgência. Como estava em São Paulo, Quico rumou direto para o gabinete de Alckmin, onde ele a esposa Lu o esperavam. O governador tomou a iniciativa e lhe disse que não tomasse aquilo como um “puxão de orelhas”, mas que precisava saber como o prefeito havia conseguido o número para o qual ligara, em plena madrugada, pois se tratava de um telefone exclusivo dele e de dona Lu. Seria “uma questão de segurança” saber a origem do número do telefone. Quico abriu um largo sorriso e contou: “Lembra-se que eu estive aqui há uns 20 dias, acompanhado do prefeito de São José e de um deputado? Pois nós estávamos contando histórias quando dona Lu chamou o senhor, que saiu da sala. Eu vi seu celular sobre a mesa, peguei o aparelho e liguei para o meu. Quando senti a vibração no meu bolso desliguei, apaguei o número e deixei o telefone no mesmo lugar. Ainda bem que guardei seu número. Caso contrário, os defuntos estariam, até agora, espalhados pelas ruas de Salesópolis”. Alckmin e Lu não conseguiram conter o riso. O mistério do celular estava desfeito.

Comandando

Essa quem conta é o consultor político Gaudêncio Torquato. Em certa cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado: “Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo.” O coronel relaxou e gritou para a galera que o ouvia: “Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo”.

Na linha

Quico havia assumido, há menos de dois meses, o cargo de prefeito de Salesópolis, quando atendeu a um chamado em seu celular: “Alô, quem é?” E do outro lado: “É o governador do Estado”. E Quico: “Ah, é? E eu sou o papa”. E desligou o aparelho. Era mesmo Geraldo Alckmin que desejava comunicá-lo sobre a elevação de Salesópolis à condição de estância turística. Até hoje, o ex-governador se lembra do episódio quando conta seus famosos “causos”, em viagens pelo interior do Estado.

Cantoria

Conta Gaudêncio que certa vez, Juscelino Kubitschek, presidente, foi com Armando Falcão, ministro da Justiça, conhecer um desafio de cantadores, no Ceará. Um cego estava lá, gemendo rimas em sua viola. JK foi até ele, se apresentou e recebeu a resposta na hora: “Kubitschek, ai, meu Deus, que nome feio. Dele só quero o cheque porque do resto ando cheio”. Falcão jamais levou presidentes para ouvir cantadores.

Fumaça

Um antigo vereador de Salesópolis, morador de um bairro muito distante da Cidade, decidiu trazer o filho, ainda novo, para a cerimônia da Paixão de Cristo, que acontecia na Igreja de São José. Pouco acostumado à Cidade e muito menos a eventos com aquele, o garoto se impressionou e arregalou os olhos diante do turíbulo, recipiente que recebe incenso em brasa e que solta fumaça, quando movimentado junto à cruz ou à imagem do Senhor morto. Agarrado às pernas das calças do pai, o menino perguntou, num tom que ecoou pelo templo: “Pai, que é aquilo que vai, que vem, que fede e que cheira?” E o pai, pouco afeito à liturgia, foi rápido: “Cala a boca, moleque! Aquilo é o jengue-jengue do padre!” A cerimônia quase acabou por ali mesmo.

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