CIRCUITO

Foco das empresas na quarentena deve ser as oportunidades, diz economista Cláudio Costa

Cláudio Costa. (Foto: Eisner Soares)

Com mais de 35 anos de experiência profissional em processos executivos, Cláudio Costa é economista e diretor do Departamento de Desenvolvimento Econômico e Social da prefeitura. Ele já esteve a frente de várias empresas multinacionais e adquiriu, ao longo dos anos, ampla visão de mercado, o que compartilha nesta entrevista, onde sugere que empresários busquem financiamentos e procurem aprimorar suas qualificações profissionais para driblar os impactos provocados pela pandemia do novo coronavírus. Cláudio também aponta a injeção de crédito como solução para que o mercado se restabeleça rapidamente e comenta a importância dos trabalhos do Polo Digital de Mogi das Cruzes durante a quarentena.

Cláudio Costa. (Foto: Eisner Soares)

O que os empreendedores (pequenos, micro e maiores também) podem fazer agora, no momento em que estamos, de crise sanitária e por consequência também econômica?

Para quem já é empreendedor, já tem seu negócio, o importante agora é manter o caixa, que é o que manda no momento de crise. O primeiro ponto é ter controle de despesas, ou seja, só gastar aquilo que realmente é necessário. O segundo é buscar uma plataforma online para vender seu produto, já que há limitação de abertura de lojas. E o terceiro é buscar linhas de crédito. Nisso, a prefeitura pode ajudar: entrando no site www.pmmc.com.br tem o Banco Do Povo, e se o empresário tiver faturamento acima de R$ 80 mil podemos ajudar a procurar o Desenvolve SP, agência de fomento financeiro do Estado de São Paulo.

Pensando um pouco além, que medidas as empresas podem tomar para se preparar para o fim da pandemia?

Se a quarentena for continuando e entrar em maio e junho, provavelmente haverá maior risco de demissões. Isso porque num primeiro momento as empresas estão fazendo uso de jornada reduzida, banco de horas e férias coletivas, justamente para evitar demitir colaboradores, o que nos leva a crer que a maioria dos empregos na área de indústria estão preservados até final do primeiro semestre. Já no comércio tem empresários que se precipitaram e acabaram demitindo, não acreditando numa retomada da economia. Eu particularmente acho que a economia deve retomar com um pouco mais de força, agressividade, mas ainda é prematuro qualquer alinhamento nesse sentido.

Por isso os empreendedores têm que estar preparados mais uma vez, muito atentos as novas necessidades do mercado. Devem usar mecanismos principalmente de plataforma digital, ou se aprimorar em determinados tipos de segmentos, talvez até profissões novas, buscando algo na área de tecnologia. Sugiro já começarem a buscar alguns cursos à distância, como os do Sebrae, no sentido de se requalificar, além de buscar financiamentos e se preparar para esta retomada.

O Polo Digital é um importante equipamento da cidade, e suas palestras continuam, agora de maneira digital. Qual o papel deste serviço agora, quando as pessoas estão em casa?

O Polo Digital é uma ferramenta extremamente importante na cidade, porque na verdade estimula e organiza as ideias das pessoas que querem empreender em tecnologia. As atividades do Polo continuam, mesmo que as startups incubadas não estejam fisicamente lá. Elas criaram mecanismos de continuarem seus projetos, sempre obviamente trabalhando com video meetings ou conference calls. O mesmo vale para as palestras, que não são mais presenciais, mas continuam online, sempre com conteúdos e autores interessantes.

A área de tecnologia pode ser uma saída para a crise?

Sim. Estamos trabalhando para atrair mais empresas de tecnologia à Mogi, justamente para que profissionais que estão no Polo cresçam profissionalmente e comecem a ser fornecedores naturais para grandes empresas da cidade. A tecnologia é coisa continua, com velocidade muita rápida de inovações, e remunera muito bem, tão bem quanto a indústria. Para o desenvolvimento econômico da cidade ela é uma área vital, e nós da prefeitura estamos imbuídos para estimular esse segmento e trazer cada vez mais profissionais.

Como economista experiente, o senhor já deve ter passado por turbulências anteriores, como troca de moeda, altos índices inflacionários e outras situações. De alguma maneira é possível comparar o cenário atual com algo que já tenha acontecido antes?

Trabalho dentro de uma linha de pensamento, de que crise e problemas existem todos os dias. A ideia de conviver com este tipo de cenário é contínua. Posso falar várias crises, e sempre vai existir uma determinada, maior ou menor, no segmento das empresas, que pode ser municipal, estadual, nacional ou global, como está acontecendo agora. Porém, o foco das empresas não tem que estar nos problemas, mas sim nas oportunidades, porque toda crise também traz oportunidades de reorganizar processos, rever alguma coisa interna, ou de passar a produzir algo que tá mais alinhado.

Enquanto economista, o que sugere para minimizar os danos neste momento?

Eu sou totalmente contra algumas políticas que estão sendo feitas pelos governo hoje. A solução muito prática para a situação do coronavírus é injetar crédito na economia para as empresas, com a salvaguarda da proteção de emprego. Não adianta a gente reduzir jornada e salário, porque isso reduz o consumo, e fazendo isso diminui a produção industrial e a arrecadação de impostos, que é vital para a manutenção do município, por exemplo. Mas se são liberadas linhas de crédito com carência boa, como dois anos, com prazo de pagamento de 5 a 7 anos, as indústrias podem passar por esse processo um pouco mais tranquilas, e seus funcionários continuam com poder de compra e renda para suportar os setores de comércio e serviços. Se for preciso, é viável criar um fundo garantidor para uma futura inadimplência, como tivemos no passado para a saúde, sobre a circulação da moeda. A saída, no capitalismo, é uma economia cuja moeda circule. E isso só vem com o consumo.

O que virá depois da crise?

Tenho tentado enxergar essa crise vendo justamente o depois dela. Acho que trará consciência muito importante. Talvez a prioridade não seja mais a temperatura do planeta, mas as questões de saneamento básico da população. Talvez vejamos uma rigidez maior no controle de alimentação das economias mundiais. Haverá mudança de hábitos, com foco maior em economias que não se desenvolveram em termos de saneamento como deveriam, pra que a gente se proteja um pouco mais. Por outro lado, acho que fica um alerta, porque as economias não perceberam que o movimento industrial foi muito forte para a China, e hoje estamos dependentes dela, por exemplo.

Como lidar com sentimentos como medo, ansiedade e incerteza em relação a economia?

Acho que é preciso ter certa racionalidade para tentar fazer em casa a mesma coisa que se faz nas empresas, como organizar o dia de trabalho. Tem que ter horário para alimentação, para descanso e também para agregar valor a profissão. Se a pessoa não pode trabalhar, pode tentar começar algum curso à distância. Não é todo mundo que tem internet, então esse é um problema, mas a própria televisão e os livros são meios de ir melhorando a qualificação. O importante é equilibrar descanso com alguma atividade que movimente o cérebro, que movimente a mente e que faça querer continuar antenado e ligado.


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