EDITORIAL

Fogo, água e a História

Mais do que algo a ser lamentado por todos os brasileiros, o triste episódio do incêndio que destruiu a maior parte das instalações do Museu Nacional do Rio de Janeiro deve soar como um alerta máximo a todas as autoridades do País, independentes de estágio ou status, para a situação de penúria que atinge a maioria dos prédios públicos destinados a guardar e proteger a memória brasileira, desde os pequenos municípios até as grandes metrópoles nacionais.

O descaso com o passado é algo latente na vida nacional e pode ser comprovada em visitas a museus e outros imóveis que funcionam como museus, pinacotecas e outras instituições que reúnem peças, documentos, imagens ou quaisquer outros materiais que tenham algum tipo de ligação com a nossa história.

O fogo que destruiu milhões de informações contidas nos corredores e salas do Museu Nacional do Rio trouxe à baila a informação de que pelo menos oito museus ou assemelhados foram destruídos no País, durante os últimos anos, em razão de incêndios que rapidamente devoraram acervos de grande importância para a memória de um País que pouco se importa com a prevenção de seu patrimônio histórico.

Guardadas as devidas proporções, o que aconteceu numa só noite, no Museu Nacional, vem acontecendo ao longo de décadas em Mogi das Cruzes, que tem visto ruir grande parte de seus prédios mais antigos, relegados ao abandono por parte de proprietários e das autoridades que não levantaram uma palha para tentar salvar imóveis que ajudariam as crianças, jovens e até adultos a entender e a cuidar melhor a Cidade que foi de seus pais e avós e que será também de seus filhos e netos.

Ao contrário do Rio, aqui não foi só o fogo, mas também a água das chuvas que ajudaram alguns proprietários de imóveis históricos a se livrarem deles, abrindo caminho para novas construções. Além da consciência de muitos donos, faltou também o incentivo do poder público, como a redução nos impostos, por exemplo, para auxiliar no restauro e manutenção dessas propriedades.

Deixados propositadamente sob a ação de chuvas intensas, muitos casarões históricos da Cidade sucumbiram, para satisfação daqueles sempre prontos a recolher e se livrar rapidamente dos escombros do que sobrou de paredes e telhados.

E foram poucas as vozes que se insurgiram contra essa perda silenciosa, mas sistemática do Município.

Em contraponto ao Rio, onde se nota alguma mobilização para salvar o restou do Museu Nacional e recuperar parte do que foi perdido, aos mogianos nos resta lembrar lições deixadas por mestres como Jair Batalha, Horácio da Silveira e José Sebastião Witter, eternos defensores de nosso patrimônio. Lições que, infelizmente, poucos parecem ter aprendido.