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Folclore Político (CXI) Um presente inesperado

Eu acabei de chegar de viagem e trouxe algo dos Estados Unidos para você”

Carlos Augusto Ferreira Alves, o Carlito, dublê de vereador polêmico e crooner de orquestras de baile nos anos 60, ganhou notoriedade na cidade como diretor da Faculdade de Educação Física do Clube Náutico Mogiano, onde era conhecido também como Fidel Castro, tanto pelo tempo em que permaneceu presidente, como pelo jeitão ditatorial, do qual lançava mão, sempre que alguma anormalidade acontecia na escola. Em tempos de ditadura militar, ele não pensava duas vezes antes de tomar medidas drásticas contra o corpo docente da faculdade, quando um ou outro fato escapava de seu controle. Como na época em que os alunos decidiram protestar contra uma de suas medidas. Tão logo tomou conhecimento da manifestação, Carlito decidiu, por sua conta e risco, impedir que os participantes do ato assistissem às aulas do restante da semana. O fato provocou indignação nos estudantes e ampla repercussão na cidade. Em um clima pesado, o diretor foi convidado a dar explicações sobre sua medida – arbitrária, é claro – no Jornal da Cidade, noticioso de audiência mais que qualificada, levado ao ar pela antiga Rádio Diário de Mogi. Recém-chegado de uma viagem aos Estados Unidos, algo que costumava fazer com frequência, ele concordou em participar do jornal de sábado. Prometeu e cumpriu. Antes das 7h30, ele já estava na emissora e, logo após um bloco de comerciais, ingressou no estúdio, sentando-se diante do apresentador que, sem conhecer o estilo Carlito de ser, começou, empostado e solene: “Estamos recebendo o presidente do Clube Náutico e diretor da Faculdade de Educação Física…” – quando foi interrompido pelo entrevistado. “Olha, eu acabei de chegar de viagem e trouxe um presente para você!” E enfiando uma das mãos no bolso da enorme jaqueta, colocou um pequeno objeto sobre a mesa, que logo começou a saltar e a correr, diante dos olhos arregalados do apresentador, locutores e técnicos. Movimentado por um mecanismo acionado manualmente, lá estava um saltitante falo, a provocar risos generalizados, obviamente não entendidos pelos ouvintes. A partir dali, a entrevista desandou. E, por sorte, àquela época, os estúdios de rádio ainda não eram equipados com câmeras de vídeo. Assim era Carlito: ditador, mas sempre muito divertido.

Índio esperto

A seguir, as sempre ótimas histórias contadas pelo jornalista Claudio Humberto, em seu “Poder Sem Pudor”. O cacique Mário Juruna foi eleito deputado em 1982, pelo PDT carioca, e fez história, de gravador em punho, cobrando promessas e compromissos dos políticos com a causa indígena. Mas, curiosamente, o deputado Mário Juruna não nomeou índios xavantes para a sua assessoria; só escolheu brancos. A um repórter que perguntou o motivo, ele explicou: “Branco entende malandragem de branco.”

Com o povo

Ao chegar a Belo Horizonte (MG) na campanha presidencial de 1960, Jânio Quadros recusou as ofertas de hospedagem, inclusive a do aliado mineiro Magalhães Pinto. Preferiu um hotel, “para evitar ciúmes e intimidades”. Para garantir a privacidade do candidato, Magalhães conseguiu que a Polícia Militar isolasse o hotel, mas ao deixar o prédio para ir ao comício, Jânio ficou revoltado com o aparato. Desabafou com Magalhães: “É por isso que a UDN de vocês não ganha eleição. Eu quero meu povo!” Seguiu para o comício nos braços dos eleitores. Magalhães foi a pé.

E a água?

A base eleitoral do senador potiguar Agenor Maria era o sertão, município de Currais Novos, onde tinha uma fazenda de gado leiteiro. Certa vez, alugou uma casa de praia, em Natal, e levou com ele um velho empregado de sua fazenda, seu Chico, que nunca tinha visto o mar. “Chico, veja só que imensidão. Imagine tudo isso sendo nosso e, em vez de água, leite!” – disse Agenor, puxando conversa na varanda da casa. A resposta do velho vaqueiro foi carregada de significado: “Prestava não, dr. Agenor. E aonde a gente ia achar tanta água pra misturar nesse leite?”

Gargalhando…

Jânio Quadros estava em campanha para presidente, em 1960, e foi a Sete Lagoas (MG) para um comício com Magalhães Pinto, que disputava o governo de Minas contra Tancredo Neves. No comício, os oradores foram recebidos com ovos e vaias. A comitiva seguiu para uma cidade vizinha. No carro, Jânio ficou um tempão esperando que Magalhães Pinto dissesse alguma coisa. Desconfiava que ele estivesse por trás das vaias e dos ovos. Até que perdeu a paciência com o impassível aliado: “Os mineiros são terríveis. Quando não riem por fora, riem por dentro.”

Tem alguma boa história do folclore político regional para contar? Então envie para:

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