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Folclore Político (CXXXVIII) Lembranças de Laudo Natel

Café de Mogi foi um compromisso cumprido até antes de sua morte

Ao falecer, no início desta semana, aos 99 anos, o ex-governador de São Paulo, Laudo Natel, deixou muitas histórias entre os mogianos que, de algum modo, tiveram o privilégio de conviver com ele, dentro ou fora da política. O arquiteto Selmo Roberto dos Santos foi um deles, como relata, neste espaço: “Vi o governador, pela primeira vez, aqui em Mogi, ainda criança, no enterro do nosso bispo dom Paulo Rolim Loureiro. Como torcedor do São Paulo FC, sempre tive admiração pelo seu trabalho junto ao clube. Construtor do Estádio do Morumbi, fundador e membro do Conselho do clube e até sua morte, no Conselho do Bradesco. Ultimamente, no trabalho de restauro da Igreja da Consolação (SP), que gerenciamos nos últimos 10 anos, tivemos oportunidade de visitá-lo! Historicamente, ele tem presença, desde a fundação do clube, com o monsenhor Bastos. O governador me contou que a primeira ata de criação do clube, foi na sacristia da Igreja. Assim, com as obras de restauro , ficamos mais próximos. Sempre estávamos nos eventos da Igreja, e ele sempre acompanhado dos seus fiéis escudeiros, o motorista, o segurança e a secretária Sueli. Tendo de contar com a colaboração de doações à obra, fomos visitar o escritório dele, que era na rua Nestor Pestana, ao lado da antiga sede do CREA, bem perto da Igreja. Fomos recebidos cordialmente por todos e, na hora do cafezinho, dona Sueli me disse: ‘Esse café é da sua terra!’ Como assim?! – retruquei. ‘Sim, é de Mogi das Cruzes. Há muito tempo recebemos o Café Lourenço, da parte do Sr Alcides, cumprindo determinação, há décadas, do senhor Waldemar Costa Filho. Semanalmente chega o nosso café, que mantendo a tradição dos pais, o Boy (Valdemar Costa Neto) e os filhos do Alcides nos enviam, por consideração e amizade! E não é que o sabor do café até ficou melhor!’, contou ela.”

Governo

Natel governou São Paulo em duas oportunidades. A primeira, entre 1966 e 1967, na condição de vice de Adhemar de Barros, cassado pela ditadura em 1966. A outra, eleito pelo colégio eleitoral – onde tinham direito a voto os delegados da Arena, partido do governo militar –, entre 1871 e 1975, período que coincidiu com o final da primeira administração de Waldemar Costa Filho como prefeito de Mogi (iniciada em 1969 e encerrada em 1973).

Amigos

O ex-governador teve participação na conclusão da rodovia Mogi-Dutra e também se aproximou de Mogi, onde fez amigos na comunidade japonesa, como Minor Harada e Junji Abe, entre outros. Era convidado de honra dos festivais agrícolas do Cocuera, onde fazia questão de aparecer, quase sempre nas tardes de sábado. Mesmo fora do governo, Natel continuou na política paulista e a amizade com Waldemar, em ascensão à época, foi se consolidando, a ponto de resultar no caso do Café Lourenço, que lhe foi enviado até antes de sua morte.

Tropeço

Natel ainda tentou uma terceira passagem pelo governo paulista, via eleição indireta. Mas não contava com a astúcia de um adversário de nome Paulo Maluf. Indicado pelo governo militar, Natel dormia em berço esplêndido, enquanto Maluf trabalhava junto aos convencionais da Arena. E com uma estratégia muito especial. Ao viajar para a Europa, Maluf enviava cartões postais de Paris e outras capitais para os delegados do partido que iriam votar na “eleição”. Fez isso com políticos de todo Estado. Todos boquiabertos com a gentileza do candidato.

Mogianos

Em Mogi, arenistas como Tarcísio Damásio, Dirceu do Valle e Luiz Teixeira foram alguns a receberem tais mimos. A estratégia, aliada ao desgaste do governo militar, virou a cabeça de muitos. Mas nada foi pior que, ao notar o crescimento do adversário, Natel ter ido à imprensa e – num discurso à moda dos generais, àquela altura já saindo de moda – advertido que não era hora para brincadeiras, que o escolhido do governo era ele, em quem os arenistas deveriam votar. Era o que Maluf precisava para ser eleito numa das mais tumultuadas “eleições” já vistas em São Paulo. A partir daí, os dois se tornaram inimigos figadais. E Natel nunca mais disputou uma eleição.

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