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Folclore Político (LXXIV) Gafes políticas viram livro

Professor e doutoranda organizam obra sobre os efeitos das trapalhadas

As gafes cometidas por políticos em seus discursos são as principais alimentadoras do folclore em torno de personagens que acabam passando para a história, já que os escorregões acabam sendo mais lembradas que o conteúdo que eles pretendiam passar. Alguns políticos brasileiros se notabilizaram pelos equívocos em público. O exemplo mais recente foi, sem dúvida, a presidente Dilma que acabou por povoar a internet com o “dilmês”, segundo o jornalista Augusto Nunes, uma “espécie de subdialeto que não faz sentido, por ser uma procissão de falatórios sem pé nem cabeça”. Mas foi pensando não só em Dilma, mas nas gafes em geral da comunicação política tratada no âmbito discursivo, que dois pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o professor Roberto Baronas e a pós-doutoranda em Linguística, Júlia Lourenço Costa organizaram o livro “Quatro ensaios sobre a gafe na comunicação política: uma abordagem discursiva”, publicado pela Editora Grácio Editor, de Coimbra (Portugal). Os organizadores assinam dois ensaios do livro que inclui ainda textos de um professor e um cientista político franceses, e de mais uma aluna da UFSCar. Num dos pontos mais interessantes da obra, Baronas e a aluna Mayara Gomes analisam as chamadas “frases sem texto” que foram dadas a circular por diferentes suportes midiáticos como gafes cometidas por atores políticos. E num outro artigo, os dois também avaliam um conjunto de textos que abordam as estrepolias verbais cometidas pela ex-presidente Dilma, em seus pronunciamentos. Ambos também propõem uma reflexão em torno de assuntos polêmicos que circulam por diversas mídias brasileiras, proferidos pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro. “A gafe resulta de uma apreciação errônea do que é politicamente factível ou dizível em determinado momento. Ela, então, volta-se contra o seu autor de maneira a confrontar as reações que não tinham sido previstas. Há gafe porque um ator político produz intencionalmente um comportamento que, sem que ele saiba, ataca diretamente as maneiras de dizer, as crenças e os valores em vigor no campo político, por exemplo”, diz Júlia Costa. A propósito, vamos, a seguir, a algumas pérolas do “dilmês” clássico.

Mandioca
Discursando na abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em 2015, ela desviou o assunto para produtos nativos usados na alimentação dos índios. E saiu-se com essa: “Hoje eu tô saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil”. A plateia aplaudiu e Dilma concluiu: “É de se orgulhar ter no DNA do nosso País essa relação com a natureza”.

Ah, as mulheres…
Na mesma solenidade, trazendo entre as mãos uma bola que ganhara de presente, Dilma ensaiou um mini tratado sociológico, que terminou assim: “Para mim, essa bola é o símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nos transformamos em homo sapiens ou mulheres sapiens”, disse ela, sob risos da plateia.

Vendaval
Ainda no pródigo 2015, na ONU, em Nova York, Dilma decidiu dar aula sobre a questão energética. “Até agora, a energia hidrelétrica é a mais barata em termos do que ela dura, da sua manutenção e também pelo fato da água ser gratuita e da gente poder estocar”. E impressionou a todos, quando revelou: “O vento podia ser isso também. Mas você não conseguiu ainda tecnologia para estocar vento. (…) O vento é diferente em horas do dia. Então, vamos supor que vente mais na hora da noite. Como é que eu faria para estocar isso?”. Ninguém ousou responder.

Figura oculta
A boa filha à casa tornava e, em Porto Alegre, no ano de 2013, em comemoração Dia da Criança, Dilma foi mais fundo: “O Dia da Criança é dia da mãe, do pai e das professoras. Mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante”.

Programas
A presidenta falava na London School of Economics, na Inglaterra, no início deste ano, sobre programas de governo. Empolgou-se: “Não se resolve problema com programa de papel. Fiz muito programa na minha vida. Comecei fazendo programa na esquerda brasileira”. Diante dos risos exacerbados da plateia, foi mais adiante: “A Polícia sabia, minha filha!”

Frase
“Nós não vamos colocar uma meta. Nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta”.
Dilma Rousseff, no lançamento do Pronatec, no Palácio do Planalto, em 2015