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Folclore Político (LXXXII) O eminente desconhecido

As artimanhas de um advogado de defesa no júri de Bananal

A história que se segue foi contada pelo Tribuna do Norte, o valoroso jornal de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, terra de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes. Os personagens, entretanto, não são eles.
Dr. Demétrio Ivahy Badaró, diretor da faculdade de Direito de Taubaté, um dos mais brilhantes advogados de júri do Vale, teve sempre raciocínio rápido, eloquência e dramaticidade. Ainda muito jovem, fez a fama de advogado temido e respeitado, principalmente por suas tiradas. Certa vez, participou de um júri em Bananal para defender um réu que havia despachado para eternidade um cidadão muito benquisto na cidade. O promotor era novo no ofício, mas havia enquadrado o réu em pelo menos metade dos artigos do Código Penal, com todas as agravantes possíveis. Para compensar a sua pouca experiência, dispunha de um almanaque de citações latinas e mais um compêndio do que havia de melhor em jurisprudência firmada pelos mais brilhantes juristas dos mais altos tribunais do País. Nas contas do promotor, pelo menos 30 anos de cadeia para o réu. E começou o julgamento. Quando o promotor acabou de ler o libelo, parecia que o chão do fórum ia se abrir para que o réu fosse imediatamente devorado pelas chamas do inferno. Aí o Dr Demétrio começou a sua defesa. Primeiro, calmo, mas logo vibrante, dando gritos e murros na tribuna, como era seu estilo. No fim, com “voz embargada de emoção” começou a citar diversos juristas famosos, em defesa do seu cliente. Mas o promotor estava ali para dar o troco. Frequentemente aparteava o Dr. Demétrio para dizer que o mesmo jurista citado também havia dito isso e aquilo que incriminava ainda mais o réu. Foi então que o Dr. Demétrio citou um nome novo e embatucou o promotor: “Como diz o eminente Casimiro Braga…” e lascou uma frase de efeito, que comoveu todo mundo. O promotor não teve como contestar e o Dr. Demétrio continuou citando Casemiro Braga, até arrancar lágrimas do juiz e de todos os jurados. Ao fim, o resultado: o réu foi absolvido por 7 a 0. Com toda elegância e desenxabido, o promotor foi cumprimentar o advogado de defesa e fez uma observação. “Dr. Demétrio, eu conheço todos esses juristas que o senhor citou, mas esse tal de Casimiro Braga eu nunca ouvi falar…”. E ele: “É, meu caro, deste eu sabia que você nunca tinha ouvido falar. E não é para menos. Casemiro Braga é o dono de um armazém lá na minha Pindamonhangaba, e nunca disse nenhuma das frases que eu citei aqui hoje…”

Livro para ouvir
Mais histórias, agora contadas pelo jornalista Claudio Humberto, em seu livro Poder Sem Pudor. Quando soube que o então senador Eduardo Suplicy havia presenteado o presidente Lula com um exemplar do livro A Democracia na América, de Alexis de Tocqueville, o senador Mão Santa (PMDB-PI) registrou a inutilidade da gentileza: “Suplicy, ele não gosta de ler. É melhor você mandar um CD de Ulysses Guimarães. Pelo menos, ouvir, acho, ele ouvirá…”

Porcos poderes
A reação do irmão deputado de José Genoino, cujo assessor foi preso com dinheiro até na cueca, fez os antipetistas lembrarem no Congresso, na ocasião, uma história contada no interior de Minas sobre o caso do ladrão misterioso de porcos numa cidade. Certa vez, pela madrugada, um delegado flagrou o larápio carregando um enorme porco nas costas. Gritou: “Então é você?!” O cara de pau jogou o porco no chão e gritou: “Meu Deus, quem colocou este bicho em cima de mim?”

Promoção
José Maria Alkimin (sem o “c”) foi um político mineiro conhecido por suas tiradas. É aquele que ao encontrar o filho de um antigo cabo eleitoral e recebido dele a notícia de que o pai havia morrido, reagiu: “Morreu para você, filho ingrato! Está vivo em meu coração!” Outra dele, lembrada no Poder Sem Pudor: certa vez, solícito, recebeu um militar em audiência: “Tenha a bondade, major”, disse, mostrando uma cadeira ao visitante. “Não sou major, dr. Alkimin, sou apenas um capitão”, corrigiu o homem. O político mineiro não se fez de rogado: “Para mim, é major, na promoção de minha amizade…”

Ovos caros
O diálogo é atribuído a personagens de vários estados, mas os cearenses garantem que aconteceu com Crisanto Moreira da Rocha. Ele estava em campanha para deputado federal, no interior, quando parou esfomeado em um boteco e pediu seis ovos fritos para ele e acompanhantes. Reagiu assim à conta salgada de 600 mil réis: “Ovos, aqui, são difíceis de encontrar?” “Não, doutor, ovo é fácil” – respondeu o dono do boteco “Difícil de encontrar aqui é deputado federal…”

Frase
Nossos legisladores, ressabiados, legislam pisando em ovos. Do povo.
Millôr Fernandes (1923-2013)