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Folclore Político (LXXXIII) Os “donos” dos bairros

O passado da Câmara de Mogi das Cruzes está cheio de histórias de vereadores que se achavam donos de seus redutos eleitorais e, por isso mesmo, não permitiam aos colegas qualquer iniciativa em favor de tais localidades. Quem ousasse fazer algum pedido além dos limites daquele território era alvo de discursos irados e até provocativos do colega. Foram muitos a adotar tal estilo, mas ninguém encarnou mais o papel de “dono” de bairros que o já falecido vereador Nelson da Cunha Mesquita, cujo feudo eleitoral incluía Ponte Grande, Rodeio e Mogilar, onde ele residiu até o fim de sua vida. Mesquita não poupava de suas críticas qualquer colega que, mesmo a pedido de algum morador, solicitasse algo ao prefeito da época para um de seus “domínios”. Para qualquer problema mais evidente em sua área de atuação, ele tinha, nos arquivos, alguma indicação ou requerimento ao prefeito pedindo providências. Documentos aos quais ele recorria, no plenário, para contestar a invasão ao seu território eleitoral. E mais: depois de descobrir quem havia municiado o colega com informações, fazia questão de chegar até o munícipe, cópias de seus pedidos de solução para tal problema. Cenas mais ou menos semelhantes se repetiam a cada sessão, até chegar ao ponto de alguns vereadores apresentarem pedidos em favor de algum dos três bairros só para irritar Mesquita e vê-lo bravo, na tribuna. O apego do vereador aos seus feudos chamou a atenção de Ivan Nunes Siqueira, experiente vereador que havia chegado à Câmara muito antes de Mesquita. Incomodado com o colega Ivan resolveu lhe dar o troco. Mandou juntar pacotes e mais pacotes de reivindicações feitas por ele para os mais diferentes pontos da cidade e empilhou tudo aquilo sobre a sua mesa e ao redor dela. Do interior daquele verdadeiro bunker de papel, ele fez um duro discurso dizendo que ali estavam reivindicações feitas por ele, há tempos, para toda a cidade e que, a partir daquele dia, não iria permitir que outros vereadores apresentassem qualquer proposta para as localidades onde ele já havia atuado. Os colegas se divertiram e entenderam a quem aquela mensagem se destinava. Mesquita, porém, se fez de desentendido e nada comentou. Até a próxima sessão, quando voltou a defender, com unhas, dentes e discursos o seu sagrado território das intervenções de seus colegas. E foi assim até o fim de sua carreira de vereador, quando, apesar de seu empenho, os votos dos três bairros deixaram de ser suficientes para reconduzi-lo a um novo mandato.

Lembranças

As histórias de Mesquita foram relembradas, dias atrás, na Câmara, onde os vereadores Cuco Pereira e Diegão protagonizaram um bate-boca por conta de um vídeo apresentado pelo jovem emedebista a respeito de problemas no Quatinga, eterno reduto de Cuco, que reagiu duro, dizendo que as soluções para tais deficiências já estavam garantidas pelo prefeito, a seu pedido. A temperatura subiu alguns graus. Cuco foi chamado de “xerife” pelo novato e rebateu no mesmo tom: “Esse menino está como aquele que chega pela primeira vez na condução e já quer se sentar na janelinha”. A discussão foi longe…

O corredor – 1

Tadao Sakai, vereador na década de 80, era um atleta. Adepto das corridas, foi ele quem, no dia do fatídico acidente na Mogi-Bertioga em construção, que feriu quase uma dezena de pessoas e provocou a morte do também vereador Narciso Yague, percorreu a pé e em alta velocidade alguns bons quilômetros para buscar socorro às vítimas, no único telefone disponível, no acampamento da construtora da estrada.

O corredor – 2

Foi o mesmo Tadao quem organizou uma partida noturna de futebol, em Jundiapeba, entre representantes da Câmara e da Imprensa. Ele jogou o tempo todo e, ao final, não esperou a cervejada de confraternização. Pegou sua Brasília e partiu para casa, na zona rural, onde não chegou naquela noite. Parentes, preocupados, saíram à sua procura e o encontram morto, dentro do carro, batido contra uma árvore. Exames mostraram que o acidente fora provocado por um ataque cardíaco fulminante que acometeu o vereador durante a viagem. Tadao é pai do atual presidente da Câmara, Sadao Sakai.

Água enferruja

E para encerrar, uma história do jornalista Claudio Humberto, em sua série “O Poder Sem Pudor”. O personagem ninguém esquece. O presidente Jânio Quadros nunca xingou jornalistas que falavam do seu pendor pelo copo, até porque não o escondia. Certa vez, em campanha para prefeito de São Paulo, aceitou convite de uma eleitora para almoçar. Com a carne assada no ponto, a anfitriã perguntou, gentil: “O senhor toma um copo d’água?” A resposta de Jânio saiu na bucha: “Água, minha senhora, é para radiador de automóvel…”


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