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Folclore Político (LXXXVI) O golpe, o censor e o jornal

Em meio às polêmicas sobre o aniversário do golpe militar de 31 de março, vale lembrar uma história ocorrida dias depois de tal acontecimento, na cidade. A chegada dos militares ao poder provocou, de imediato, um inesperado período de vacância de mando em localidades menores, rapidamente ocupado pelas “otoridades” de plantão. Em Mogi, um conhecido delegado se achou no direito de ditar leis e regras a seu bel prazer. E, com isso, acertar contas com seus desafetos pessoais. E foi na esteira de um desses ajustes que, a mando do indigitado policial, um professor e funcionário da Prefeitura Municipal veio bater à porta deste jornal. Trazia em mãos uma decisão assinada pelo delegado que o nomeava para cuidar da censura prévia ao veículo que, à época não tinha mais que seis páginas, a maioria com editais e propagandas. As notícias se limitavam a notas sobre a cidade, suas obras e necessidades, sociais e esportivas. Ou seja, não havia o que pudesse ser censurado. Mas ainda assim, o professor, cheio de razão, subiu até o primeiro andar do prédio do jornal, onde ficava a sala do diretor e fundador de O Diário, jornalista Tirreno Da San Biagio, o Tote. Seguro da importância do cargo lhe fora atribuído pelo titular da Delegacia, o professor apresentou sua nomeação para censor ao dono do jornal. Só não contou com a reação. O sangue italiano ferveu nas veias do jornalista que, após fazer picadinho do tal documento do delegado, ainda enxotou o visitante para fora de sua sala, aos berros e ameaçando lhe dar uns tabefes. O censor nunca mais voltou. O delegado silenciou. E o jornal seguiu sua rotina. Golpes são sempre assim: todo mundo sabe como começam, mas ninguém imagina como terminam.

Caça às bruxas – 1

No mesmo período, o tal delegado mandou prender Waldemar Costa Filho, recém-ingresso na política local, mas conhecido pelo estilo polêmico que o tornou desafeto da tal “otoridade”. Apontado como comunista, Waldemar seria enviado para o navio Raul Soares, atracado na orla de Santos, o qual recebia prisioneiros cujos destinos eram mais que incertos. Muitos simplesmente desapareciam.

Caça às bruxas – 2

Waldemar chegou manso à Delegacia, mas bastou um descuido da escolta policial para que ele, num salto, assumisse o volante de seu Fusca e partisse, a toda velocidade, para os lados do Cocuera. Corredor de kart, não houve viatura que o alcançasse. Ele só parou no sítio de Taro Konno, vereador e amigo, que o acolheu – e escondeu –, até a situação ser controlada, tempos mais tarde.

Baioneta e oração

O jornalista Cláudio Humberto, autor do livro Poder Sem Pudor, conta que nos idos de 1950, o então tenente José Wadih Cury, que foi para reserva como coronel, fazia a ronda noturna na Escola de Paraquedistas da Vila Militar, no Rio. Eram 2 horas da manhã e ele notou o comportamento estranho de um soldado. Resolveu se aproximar e viu que ele dormia sono profundo, apoiando o queixo no fuzil. De repente, o sonolento acordou, mas não passou recibo. Sem abrir o olho, apenas balbuciou: “…Ave Maria, cheia de graça…” Ao concluir a oração, o soldado malandro abriu o olho e bateu continência: “Por aqui tudo calmo, tenente!”

Cara de pau

Mais uma de Cláudio Humberto, dos tempos dos generais. O general Costa e Silva foi fulminado por uma trombose, em agosto de 1969, e os militares ficaram inquietos: não queriam empossar o vice civil, Pedro Aleixo. Outro mineiro ilustre, José Maria Alkmin (sem o ‘c’), telefonou ao vice: ”É preciso resistir. Volte para Minas e vamos organizar um contragolpe.” Não adiantou: Aleixo não tomou posse. Dias depois, Alkmin foi procurado pelo general Sizeno Sarmento, comandante do II Exército, com a gravação do telefonema a Aleixo. Alkmin não perdeu a naturalidade: ”Esse (Renato) Azeredo (deputado do PSD, como ele) é terrível! Sabia que imitava minha voz com perfeição, mas desta vez ele foi muito longe!”

Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem rouba. Eis o primeiro mandamento da moral pública.

Ulysses Guimarães (1916-1992), político e advogado brasileiro, um dos principais opositores à ditadura militar