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Folclore Político (XC): As mil faces de Getúlio

O gaúcho Getúlio Vargas foi, certamente, um dos mais polêmicos personagens da vida política brasileira. O advogado e militar exerceu vários cargos, de deputado a ministro, antes de chegar à presidência da República, onde permaneceu por mais de 18 anos. Lá, ele alternou períodos de ditador linha dura com o de “pai dos pobres”, eleito pelo povo para continuar no posto, de onde somente saiu com um tiro no coração, disparado por ele próprio. Foi assim que o grande líder do PTB pôs fim, a seu modo, a uma grave crise institucional gerada pela oposição liderada por seu principal adversário, Carlos Lacerda, da UDN.

Historiadores, ainda hoje, escrevem livros e livros abordando os diferentes aspectos do perfil do político, sempre entre os extremos do amor e ódio de seus seguidores e adversários. Com tanto tempo no poder, numa época em que fazer política diferenciava – e muito – dos dias atuais, Getúlio também deixou histórias
folclóricas muito bem aproveitadas por jornalistas, como Sebastião Nery, Claudio Humberto, aos quais esta coluna pede licença para mostrar algumas delas, Nem sempre bem humoradas. Como o caso, segundo o qual, Getúlio teria cometido um crime quando estudava em Ouro Preto (MG), onde teria assassinado um colega numa briga de bar. De fato, teria havido a confusão; de fato num botequim, onde realmente um estudante acabou morto. Mas não foi Getúlio quem atirou. Jogavam bilhar, certa noite, os estudantes Viriatto Vargas, o seu irmão Getúlio, de 15 anos, Pedro Demóstenes Rache e José Polidoro Machado, todos gaúchos. De repente chegaram alguns mineiros e logo começa uma briga. O mineiro Baltazar tenta bater com um taco na cabeça do pequeno Getúlio.

Viriato saca um revólver, enquanto um mineiro puxa outro. O tiroteio tem início, ao final do qual Viriato estava com uma bala no braço e o mineiro Baltazar estendido no chão. Morto. O caso foi parar na Justiça. Viriato foi absolvido e voltou com o irmão Getúlio para o Rio Grande do Sul. Em lugar de continuar os estudos para ser engenheiro de minas, Getúlio se tornou advogado. E foi então que, como diz Nery, “começou a cavar a geologia do poder”.

Valor

Já no poder, Getúlio nomeou um amigo para trabalhar na alfândega e avisou: “Quando quiserem corromper você, me avise”. Passados alguns meses, recebeu uma carta: “Presidente Getúlio Vargas, por favor, me demita urgente. Os homens estão chegando no meu preço”.

O terço

Duas vezes prefeito de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, padre Olímpio de Melo era o decano dos políticos cariocas. Estava no Catete, palácio que abrigava a antiga sede do governo federal, conversando animadamente com Getúlio. Ao tirar um lenço do bolso fundo de sua batina, caiu no chão um pequeno punhal de prata. O padre ficou encabulado; Getúlio sorriu: “Reverendo, seu rosário caiu”.

General

Em 1945, após o final de seu período ditatorial, quando se viu obrigado a renunciar, sendo substituído por Eurico Gaspar Dutra, Getúlio tentou conseguiu dar a volta por cima e ser eleito presidente pelo voto popular. Um dos militares mais atuantes na conspiração para a derrubada de Getúlio foi o general Newton Cavalcanti.

Em 50, Vargas ganha as eleições e o general Newton, como chefe da Casa Militar do presidente Dutra, vai acertar com ele os detalhes da posse. Sentado numa cadeira de balanço, olhos semicerrados, como que a evitar a fumaça do inseparável charuto, Getúlio viu o visitante entrar, abrindo os olhos com certo esforço indaga: “Veio me prender, general?”

Eloquência

Jânio Quadros, prefeito de São Paulo, foi ao Catete visitar Getúlio. Falou, falou, expôs todos os seus planos administrativos, pediu ajuda ao governo federal e acabou chorando na hora da despedida. Nery relembra: Saiu, Getúlio sorriu: “Esse ganhou de mim”.

Fácil, assim

Gustavo Capanema e outros dois políticos conversavam com Getúlio durante a crise de 54, a última de seus governos. Capanema pergunta:”O senhor confia nos seus ministros?” “Decerto”, respondeu o presidente. “Mas e se, deflagrada a luta, eles passarem para o outro lado?” E Getúlio: “Ora essa. Eu também passo”.

saio da vida da entrar na história.

Getúlio Vargas, em sua carta-testamento, redigida horas antes
dele pôr fim à própria vida, com um tiro no coração

COTIDIANO

PODER
Propaganda política da década de 50, quando Getúlio Vargas fazia campanha para se eleger presidente da república, após um longo período à frente de uma ditadura