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Folclore Político (XCII): Cemitério, prefeito e padre

Chico Lopes pediu ajuda para a reconstrução do muro do São Salvador

A história que abre a coluna de hoje foi contada pelo dentista Isidoro Boucault a Roberto Escobar, o filho de Cachoeira Paulista que veio parar em Mogi como barbeiro, mas logo decidiu trocar as tesouras, pentes, navalhas e as inevitáveis fofocas que rolavam soltas em seu Salão Elegante, da Rua Francisco Franco, perto do atual calçadão, pelo protagonismo de corretor de alguns dos principais negócios imobiliários da cidade nas últimas décadas. Escobar lembra que Francisco Ferreira Lopes, um dos patriarcas da família Lopes, governava Mogi das Cruzes entre 1952 e 1954, quando um temporal derrubou parte do muro do Cemitério São Salvador, o que facilitava o acesso ao interior do local, a qualquer hora do dia ou da noite. Com os cofres da Prefeitura vazios e sem condições financeiras para executar a obra, o prefeito foi procurar o responsável pela Matriz de Santana e pediu ao padre que, durante o sermão da missa de domingo, assistida por toda a cidade, solicitasse a colaboração da comunidade para a reconstrução do muro. O religioso concordou com a proposta, desde que o prefeito ficasse logo abaixo do púlpito, claro sinal de que avalizava o que ele diria durante o sermão. E assim foi. Chico Lopes só não contava com o que viria a partir do início da pregação. Espanhol recém-chegado ao Brasil, o padre tinha sérios problemas com a língua, acabando por misturar os idiomas no mais perfeito portunhol que a cidade já ouvira. Após a releitura do Evangelho do dia, o religioso pediu a atenção de todos para um apelo que iria fazer a toda comunidade. De pé, sob o púlpito, o prefeito exultou quando ele começou o relato sobre a chuva que derrubara o muro do cemitério, detalhando ponto por ponto do que ocorrera na sexta-feira anterior, o que toda a cidade já sabia. A certa altura, sempre com o sotaque carregado, ele falou que o muro havia caído e não poderia ficar assim. E como a Prefeitura passava por dificuldades, seria importante que todos ajudassem na reconstrução. E foi aí que o caldo entornou de vez, quando o religioso decidiu se aprofundar nos detalhes da situação. Em seu portunhol, os esses todos tinham som de cedilha. E lá foi ele: “No cemitério onde están enterrados sus parentes, está sendo invadido por boi, cavalos e até gente que pisán en su madre, pisán en su padre, e pisán até en sus hermanas”. Dos fundos da igreja veio um murmúrio de risos abafados. Na parte de baixo do púlpito, o prefeito tratou de puxar a batina do celebrante e sussurrar, de modo que só ele ouvisse: “Padre, deixa isso para lá… a Prefeitura vai reconstruir o muro”.

Na madrugada – 1

O fato ocorrido no São Salvador, em Mogi, faz lembrar caso semelhante, em Salesópolis, onde uma tromba d’água, além de derrubar o muro do cemitério, ainda espalhou ossos de cadáveres pela cidade. Apavorado diante do que via nas ruas e pressionados por moradores, o prefeito da época, Francisco Corrêa, o Quico, não teve dúvidas. Em plena 3h30 da madrugada, ligou para o celular do governador Geraldo Alckmin, cujo número ele havia obtido de maneira, digamos, nada ortodoxa, semanas antes, no Palácio dos Bandeirantes.

Na madrugada – 2

Sonolento, mas paciente, Alckmin ouviu o relato do prefeito, que terminou num dramático apelo: “Governador, ou o senhor me ajuda, ou eu estou f….” O governador prometeu e cumpriu: logo pela manhã, chegavam a Salesópolis integrantes da Defesa Civil do Estado para ajudar na solução dos muitos problemas que tiraram o sono de Quico e de Alckmin. No próximo encontro dos dois, o inquilino do Palácio quis saber como o prefeito havia obtido o número do celular que somente sua esposa e alguns assessores mais próximos tinham. Mas isso é assunto para outra história…

Marketing

Joel Avelino Ribeiro, ex-morador do Vale do Ribeira, hoje em César de Souza, lembra que em Eldorado, sua cidade natal e onde o presidente Bolsonaro viveu sua infância, nos anos 60, Pedro Mancio (primo de Edward Mancio, avô do repórter de tevê, Fernando Mancio) resolveu candidatar-se a vereador. Apesar de grande construtor, Pedro não era muito conhecido entre os eleitores, mas tinha um empregado muito popular e benquisto na cidade, onde todos o chamavam de “Piriquito”. O candidato então lançou sua campanha com o seguinte slogan: “Comigo não tem mosquito! Para vereador, vote no patrão do ‘Piriquito’!” Concluída a apuração, Pedro foi um dos mais votados para a Câmara Municipal.

Jânio, sempre ele

Para encerrar, mais uma da verve do jornalista Claudio Humberto: Brasília não merece mesmo a fama dos políticos que a frequentam. Quando renunciou ao mandato, na esperança de retornar ao poder pelas mãos dos militares e do povo, Jânio Quadros pediu ao ajudante de ordens, major Amarante, que deixasse no Palácio Alvorada um terno e sapatos. Mais tarde, em 1978, conforme relato de Murilo Melo Filho, Jânio contaria uma lorota à revista Manchete: “A Presidência da República não me deu nada. Pelo contrário, andou me tirando. Lá, furtaram-me um terno, uma camisa e um par de sapatos…”

Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo.

Eça de Queiroz (1845-1900), escritor e diplomata português

Darwin Valente

Darwin Valente

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