INFORMAÇÃO

Folclore Político (XCIII) Você me empresta um carro?

Estevam Galvão viu que não poderia confiar no seu aliado político

Estevam Galvão de Oliveira, prefeito de Suzano por três vezes, tem muitas histórias para contar. Calado, costuma mais ouvir do que falar. Sisudo, chega ao ponto de ser desafiado por seus mais próximos a sorrir para uma foto. Nega-se sempre. Por tudo isso, suas histórias costumam ser lembradas por terceiros. Dificilmente pelo próprio. Como esta, recordada há algum tempo por um de seus mais antigos companheiros: Estevam era escriturário da Prefeitura de Suzano quando o chefe decidiu-se candidatar a vereador. Mal iniciada a campanha, o chefe renunciou à candidatura. Estevam não deixou barato: assumiu seu lugar. Assumiu e elegeu-se, candidato pela primeira vez, com quase 10% do colégio eleitoral de Suzano. Foram mais de mil votos num colégio que tinha, então, menos de 11 mil eleitores. Na eleição seguinte passou direto para prefeito. Elegeu-se novamente, com sonhos ainda mais altos. Estava em pleno mandato quando se licenciou para disputar uma vaga de deputado federal. Conhecendo as coisas da política, Estevam traçou seu plano com meses de antecedência. Estruturou a bancada da Câmara Municipal de Suzano de tal forma, que o então vereador Pedro Ishida acabou eleito presidente da Câmara e, junto, assumiu a perspectiva de ser o prefeito – na impossibilidade de o vice assumir – durante o afastamento que Estevam pediria para as eleições à Câmara dos Deputados. Dito e feito: Estevam licenciou-se, Pedro assumiu. No dia seguinte, Estevam foi testar o aliado político. Imaginou pedir-lhe algo muito simples. Nada que colocasse o amigo em situação desconfortável. Nada que pudesse comprometê-lo. Nada, enfim, que pudesse ser negado. O que? Teria telefonado ao prefeito que assumira e pediu um carro emprestado para uma viagem inesperada a São Paulo. Não lhe disse, mas aceitaria até um táxi. Pedro Ishida disse-lhe que iria ver o que podia fazer e pediu-lhe que voltasse a ligar em duas horas. Estevam ligou 120 minutos depois. Pedro não estava, deixara recado para que o prefeito licenciado procurasse uma funcionária do gabinete. Estevam procurou a secretária, que lhe respondeu ter ordem do prefeito no cargo para dizer-lhe que procurasse um funcionário subalterno. Estevam entendeu tudo. Acabou eleito deputado federal e, na sucessão seguinte à Prefeitura, apoiou Paulo Tokuzumi. Que foi eleito. Pelo carro que não emprestara, Pedro Ishida perdeu o apoio de Estevam Galvão de Oliveira. E lançou terra abaixo a sua carreira política.

Xô, azar! – 1

Após uma verdadeira maré de azar, com uma sequência de fatos negativos que marcaram o início de seu governo, o prefeito Marcus Melo recebeu um inusitado presente de amigos: um vaso, verdadeiro kit anti-mau olhado, contendo ervas como arruda, guiné, pimenta, espada de São Jorge, comigo-ninguém-pode, abre caminho e alecrim, além de uma figa. Bem ou mal, o conjunto parece ter surtido efeito por algum tempo.

Xô, azar! – 2

Nos últimos dias, entretanto, após os problemas com IPTU, tentativa de furto de imagem da padroeira da Pinacoteca, internação por inflamação no pâncreas, morte de funcionário em obra do Semae, queda do muro de cemitério e furtos em 22 ônibus escolares na garagem municipal, os amigos estão pensando seriamente em renovar o presente, só que turbinado com trevo de quatro folhas e outros artifícios contra o azar. Pelo visto, Melo pode ter se descuidado do primeiro mimo.

Em pleno voo

Duas do jornalista Claudio Humberto para fechar o domingo. O empresário potiguar Flávio Rocha era candidato a presidente pelo PL, em 1994, quando ofereceu carona ao então líder do PT na Câmara, José Fortunati, entre Porto Alegre e Brasília. Após a decolagem, o petista puxou conversa: “Bom avião, Flávio… De quem é?” Flávio respondeu, sério: “É do (deputado) João Alves” – disse, referindo-se ao célebre “anão” – ele me emprestou enquanto passa a confusão do Orçamento…” Fortunati gritou ao piloto, sem perceber a pegadinha: “Dá para me arrumar um paraquedas?” Após as gargalhadas, Rocha explicou que o jatinho era seu havia dez anos.

Lins, não…

Líder do PTB – o partido de Gondim Teixeira – na Assembléia Legislativa de São Paulo há anos, Campos Machado fazia marcação cerrada a parlamentares ligados ao MST. Um dia, um deputado do PT ligado aos sem-terra resolveu ir à forra: “O pessoal vai invadir a sua fazenda, lá em Lins…” Ele se preocupou: “Como vocês sabem que tenho fazenda em Lins?” O petista achou que havia impressionado o adversário: “Temos as nossas informações…”. Campos Machado desafiou: “Então invadam!”. De fato, no dia seguinte o MST invadiu a tal fazenda em Lins, depredando tudo. Machado não se importou: sua fazenda era outra, no Vale do Ribeira.

Frase
Meia-idade é quando se começa a trocar emoções por sintomas.
Irvin S. Cobb (1876-1944), humorista, editor e jornalista norte-americano