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Folclore Político (XCV) Nossa língua portuguesa

DA TERRA Padre Melo, atual chanceler da UMC, é natural de Crateús, mesma origem de Raimundo Rezende, lembrado em história de Kachel. (Foto: Reprodução)
DA TERRA Padre Melo, atual chanceler da UMC, é natural de Crateús, mesma origem de Raimundo Rezende, lembrado em história de Kachel. (Foto: Reprodução)

Trapalhadas de políticos e suas dificuldades com o vernáculo de todo dia

José Roberto Kachel é professor doutor em Engenharia pela USP e conhece, como poucos, os meandros dos sistemas de captação, represamento e distribuição de água do Alto Tietê. Isso por conta de longos anos de trabalho junto ao Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), responsável pelo sistema de barragens construído inicialmente para conter enchentes e depois também utilizado para abastecimento da Capital e municípios próximos. Conhecido polemista, que não costuma deixar sem resposta quem, porventura, se dispõe a travar com ele alguma discussão sobre água e temas correlatos, Kachel ocupa espaço na coluna contando dois “causos” da política nacional, onde seus personagens têm algo em comum: as dificuldades no trato com a nossa traiçoeira língua portuguesa. Conta ele que “lá pelos meados dos anos 1960, Raimundo Rezende era prefeito de Crateús, lá no sertão cearense, terra do nosso vereador e secretário da Saúde, Chico Bezerra, Padre Melo e tantos outros. Certa ocasião, Rezende foi convidado para uma cerimônia cívica em um município vizinho. Pela manhã, desfile escolar, inaugurações e a discurseira de praxe. Lauto almoço sertanejo, com direito a buchada de bode e outros quetais, sem faltar a boa cachacinha da terra. À tarde, sessão solene na Câmara Municipal. Calorão cearense de rachar. De barriga cheia, lá no fundão, Rezende cochilava quando o mestre de cerimônias o inquiriu se queria fazer uso da palavra. A resposta veio de pronto: ‘Agradeço muito a consideração, mas estou aqui como um mero expectorante’”. Ele queria dizer espectador, é claro…

Da boa terra

Outra de Kachel, vinda das Minas Gerais. Benedito Valadares, interventor (cargo equivalente ao de governador), nomeado por Getúlio Vargas, após a Revolução de 30, lia o discurso de inauguração de uma obra. “Vemos hoje se tornar realidade a maior obra rodoviária de Minas Gerais, cuica do Brasil”. Um assessor ficou embasbacado. Que diabo de história é essa de ‘cuica do Brasil’? O Ditinho endoidou? De fininho, catou o texto do discurso e só então verificou que ‘cuica do Brasil’ era, na verdade, ‘quiçá do Brasil’.

Pleonasmo na vista

Outra de Valadares, agora contada pelo consultor Gaudêncio Torquato. Político esperto e simplório, o então governador mineiro encontrou na antessala de Getúlio Vargas, no Rio, o ministro da Educação, Gustavo Capanema, que estranhou seus óculos escuros. “É uma conjuntivite nos olhos”, explicou Valadares. “Benedito, isso é um pleonasmo!”, reagiu o ministro, professoral. Valadares ignorou a observação e entrou para falar com Vargas, que também estranhou os óculos. Ele reagiu: “Presidente, o médico lá em Minas disse que era uma conjuntivite nos olhos, mas o Capanema, que ser mais sabido que os médicos, me disse que é um pleonasmo!”Getúlio gargalha e diz: “Em minha modesta interpretação, penso que Valadares está certo. Existe outro lugar para dar conjuntivite a não ser nos olhos?”

Ladrões – 1

Mais uma de Torquato. Cabralzinho, líder estudantil em Campina Grande, na Paraíba, foi passear em Sobral, no Ceará. Chegou em dia de comício. No palanque, longos cabelos brancos ao vento, o deputado Crisanto Moreira da Rocha, competente orador da província: “Ladrões!” A praça apinhada de gente levou o maior susto. “Ladrões, ladrões, porque vocês roubaram meu coração!”

Ladrões – 2

Cabralzinho voltou para Campina Grande, candidatou-se a vereador. No primeiro comício lembrou-se de Sobral e do golpe de oratória do deputado, fechou a cara, olhou para os ouvintes com ar furioso: “Ladrões!” Ninguém se mexeu. Cabralzinho sabia que política em Campina Grande era briga de foice no escuro. Queria o impacto total. “Cambada de ladrões!” Foi uma loucura. A multidão avançou sobre o palanque. Pedra, pau, sapatos. O rosto sangrando, acuado, Cabralzinho implorava: “Espera que eu explico! Espera que eu explico!” Explicou ao médico, no hospital da cidade.

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