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Folclore Político (XCVI) Histórias do Professor Tuta

MEMÓRIA Tuta, o professor conhecia e lembrava, como poucos, detalhes do passado de Mogi das Cruzes, seus personagens e suas incríveis histórias. (Foto: arquivo)
MEMÓRIA Tuta, o professor conhecia e lembrava, como poucos, detalhes do passado de Mogi das Cruzes, seus personagens e suas incríveis histórias. (Foto: arquivo)

Ao falecer esta semana, aos 88 anos, ele deixou muitos casos impagáveis

José Carlos Miller da Silveira, o Professor Tuta, é daquelas pessoas especiais, cuja perda, aos 88 anos, será lamentada enquanto viverem seus amigos, entre os quais a coluna se inclui. E é por isso, que o “Folclore” de hoje presta uma homenagem ao grande contador de causos, lembrando alguns que ele gostava de contar, muitos dos quais, como protagonista. Tuta trabalhava na UMC, quando foi chamado ao gabinete do então reitor, Manoel Bezerra de Melo, para ser informado de que seria o próximo presidente do Diretório Municipal do PMDB de Mogi. “Mas eu não entendo nada de política”, disse, tentando se desvencilhar do encargo que lhe era imposto. “Você já está escolhido”, rebateu o chefe, que não gostava de ser contrariado. Tuta foi “eleito”, tomou posse e continuou tocando a vida, até que um helicóptero aterrissou nas proximidades da UMC, trazendo um candidato a governador de São Paulo para falar de política com Padre Melo. Tuta foi deixado do lado de fora da sala e, após quase uma hora, foi chamado para receber a notícia de que o partido iria trabalhar pela eleição do visitante e que ele seria o intermediário entre o cacique político local e o comando da campanha, em São Paulo. Tempos, depois, foi chamado pelo patrão para uma visita ao comitê da Avenida Rebouças, de onde retornaram com algumas caixas, um tanto pesadas. Tuta foi encarregado de cuidar do caixa da campanha junto aos cabos eleitorais da cidade. Outras viagens foram feitas ao mesmo endereço. E novas caixas pesadas vieram para Mogi. Até que a eleição aconteceu e o candidato perdeu. Tuta fez o balanço da campanha num minucioso relatório, juntou as sobras e levou tudo para o comitê paulistano. Foi, então, entregar uma cópia a Melo que, após verificar os números, indagou: “Cadê as sobras?” Desconcertado, Tuta disse que havia levado tudo para a Capital. Foi quando aprendeu a primeira grande lição da política. Virando-se para ele, Melo sacramentou: “De caixa de campanha não se prestam contas”. O professor ouviu e processou.

Negócios

Tuta comprou, por transferência, um apartamento no Helbor Mediterranée e foi negociar desconto com o amigo Henrique Borenstein, para quitar o restante da dívida, à vista. O desconto oferecido o surpreendeu, de tão pouco. Reclamou. “É você que quer pagar e não eu que quero receber”, respondeu Henrique, que logo lhe propôs um bom desconto, se Tuta topasse trocar o seu apartamento, num andar intermediário do prédio, por outro, no térreo. “Mas e a vista para a Serra?” – reclamou. O negociador foi implacável: “Que vista? Você vai ficar na janela tomando vento? Além disso, em caso de morte, aqui em baixo fica mais fácil para retirar o corpo…” Tuta contava que se calou diante dos argumentos. Mas o negócio não saiu.

Ladrãozinho!

Nas décadas de 30 e 40, o pão e leite eram deixados nas janelas das casas mogianas pelos entregadores. Certa manhã, indo jogar futebol no “Esmaga Sapo”, hoje Mogilar, Tuta passou pela casa de Benedito Melo e acabou apanhando o pão pertencente ao dentista. Alguém viu e, minutos depois, o dono chegou ao campinho, passou-lhe uma sonora descompostura diante dos amigos e obrigou Tuta a voltar com ele para o consultório. Lá, o menino foi colocado de frente para a parede. Diante da clientela surpresa, o dentista indagava: “Conhece esse moleque?” “Ele é o filho do seu Álvaro Silveira”, respondiam. “Não é não, ele é um ladrãozinho de pão!” O envergonhado Tuta ouviu isso várias vezes, mas teve de se contentar. Afinal, o dentista não levou o caso aos seus pais. “A surra seria muito pior”, resignava-se.

Grata

Ninguém escapava da língua ferina de Tuta. Nem mesmo dona Teresinha, sua inseparável companheira de longos anos. Ele gostava de provocá-la contando para os amigos, de modo que ela pudesse ouvir, que costumava acordar à noite e encontrá-la, ajoelhada, rezando. “Agradecendo a Deus por ter lhe dado um marido como o seu”, dizia Tuta, sem perder a modéstia.

Frase

Era uma figura maravilhosa, um verdadeiro irmão. Jamais me esquecerei de nossas brincadeiras e gozações.

Miguel Nagib, grande amigo e vítima favorita das histórias de Tuta, que a coluna vai contar no próximo domingo.


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