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Folclore Político (XCVIII) Bastidores de uma eleição

EM CAMPANHA Ao lado de Jacob, Covas e Cuco Pereira, Montoro discursa na inauguração do comitê político do PMDB de Mogi para as eleições de 1982. (Foto: Arquivo O Diário)
EM CAMPANHA Ao lado de Jacob, Covas e Cuco Pereira, Montoro discursa na inauguração do comitê político do PMDB de Mogi para as eleições de 1982. (Foto: Arquivo O Diário)

O dia em que Quércia virou vice de Montoro e desbancou Covas, que acabou prefeito

Desde que decidiu trocar a sala de aula pela assessoria aos políticos, o professor mogiano José Ruiz tornou-se testemunha ocular dos bastidores de alguns episódios que marcaram a história recente de Mogi e do Estado de São Paulo. Foi assim, por exemplo, na convenção regional do PMDB de 1982, que definiu os candidatos para aquela que seria a maior vitória eleitoral da oposição sobre um regime militar já titubeante frente às pressões para devolução do poder aos civis. Acompanhando o candidato a deputado mogiano e empresário Jacob Cardoso Lopes, o professor participava da eleição que definiria os concorrentes ao governo de São Paulo. Orestes Quércia e Franco Montoro estavam juntos no encontro que deveria definir Mário Covas como vice de Montoro. A convenção corria a mil na Assembleia Legislativa quando Ruiz e Eduardo Lopes, filho de Jacob, decidiram procurar uma sala para descansar e foram parar justamente ao lado de outra, onde o pau comia, literalmente, entre partidários de Quércia e Montoro. “Nunca ouvi tanto palavrão em minha vida”, lembra Ruiz, ao resumir o resultado da quase pancadaria: Montoro saiu da convenção candidato a governador com Quércia como vice. E para Covas, que perdeu o lugar, ficaria reservada a Prefeitura de São Paulo, indicado pelo então vitorioso Montoro, no ano seguinte. Naquele 1982, Covas se elegeu deputado federal. A indicação, mais tarde, para a Prefeitura da Capital, também não foi tão fácil assim, como se recorda Ruiz, então já instalado na Assembleia Legislativa, onde Jacob Lopes tornou-se um deputados estaduais mais votados de todo o Estado. “Havia forte resistência ao estilo de Covas para o Executivo e Montoro teve de fazer um verdadeiro leilão de cargos junto aos deputados para conseguir aprovar o nome dele como prefeito”, lembra o professor, hoje atuando junto à Câmara de Mogi.

Animação geral

Jacob Lopes não costumava economizar quando o negócio era fazer barulho em convenções partidárias. Naquela de 1982, como candidato a deputado, ele quis mostrar serviço e levou alguns ônibus lotados de cabos eleitorais para a Assembleia. Até mesmo uma charanga – cujos músicos mogianos vestiam as cores do PMDB –, tocava do lado de fora da rampa de acesso para animar os convencionais vindos de todo o Estado. Àquela altura até um jingle do pré-candidato já havia sido ensaiado para impressionar os caciques peemedebistas. E impressionou mesmo!

Haja comida

Eram tantos os mogianos, que na hora do almoço chegou-se à conclusão de que a comida previamente preparada em Mogi seria insuficiente para todos. A mando de Jacob, a dupla Ruiz e Edu foi para o estacionamento e comprou, antecipadamente, toda a produção de alguns ambulantes que vendiam sanduíches e refrigerantes. E improvisaram senhas, distribuídas entre os cabos eleitorais. “Teve vendedor que não deu conta e teve de pedir alimento emprestado de outros colegas das proximidades”, lembra Ruiz, que ainda se diverte com tais lembranças.

Confusão

Na mesma convenção, um grupo de umas duas dezenas de cabos eleitorais chegou à Assembleia disposto a mostrar, no grito, a força de seu candidato, Aldo Rebelo – mais tarde ministro do governo petista, pelo PC do B –, que buscava conquistar uma vaga de candidato a deputado federal pelo PMDB, representante da oposição contra o PDS, partido governista. A confusão feita pelo grupo era tanta que Edu, Ruiz e Antonio Carlos Lopes, irmão de Jacob, decidiram entrar nela, gritando a todos os pulmões: “José Ruiz!, José Ruiz!”. Vendo os líderes, outros cabos eleitorais de Mogi engrossaram o coro e suplantaram o grupo de Rebelo. “Por muito pouco, eu não saio de lá candidato”, conta o asssessor, divertido.

Só palavras…

Na eleição para prefeito da Capital, em novembro de 1985, a primeira após a redemocratização, um Jânio Quadros completamente sem dinheiro, para enfrentar o peemebista Fernando Henrique e o petista Suplicy recorreu ao amigo mogiano Jacob Lopes pedindo ajuda monetária para a campanha. Já enfrentando problemas financeiros, em razão do Mogigate, Jacob só enviava papel e santinhos. Jânio queria dinheiro vivo e escreveu para Ruiz, que guarda a carta até hoje: “Meu caro José: Palavras são palavras, nada mais que palavras…” Teve que contentar com o palavreado dos cartazes, mas venceu a eleição com 37% dos votos contra 34% de FHC, num pleito ainda sem segundo turno.

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