Folclore Político (XLIX) Lembranças de Jânio Quadros | O Diário de Mogi
DV

Folclore Político (XLIX) Lembranças de Jânio Quadros

Dia desses, um leitor sugeriu uma coluna só para lembrar histórias de Jânio Quadros, o polêmico político nascido em Campo Grande (MS) e que fez carreira em São Paulo, primeiro como vereador e, depois, como deputado, prefeito e governador do Estado, antes de chegar à Presidência da República, em 1961. Renunciou naquele mesmo ano, mas ainda teve forças – e votos – para voltar à Prefeitura da Capital, em 1986, derrotando ninguém menos que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que, mais tarde, viria a ser também presidente do Brasil. Teve grandes amigos em Mogi, como o empresário Benedito Lopes e o advogado e professor Jair Rocha Batalha, seu antigo colega de faculdade, no Largo São Francisco, em São Paulo. E foi em Mogi que este repórter teve a oportunidade de testemunhar uma das muitas histórias do controverso político. Filiado ao PTB, Jânio Quadros veio à Cidade para um comício ao lado do antigo prédio da Telefônica, que hoje abriga o Centro Cultural. O político chegou no começo da tarde, com tempo suficiente para uma visita ao prefeito da época, Waldemar Costa Filho, na Prefeitura, onde concederia entrevista aos jornalistas locais. À época, em Mogi, o PTB era dirigido por um advogado sobre o qual pesavam suspeitas de haver participado de um assalto a uma empresa em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. E a grande expectativa era saber como ele iria se comportar em relação ao presidente de seu partido na Cidade. Na coletiva, a pergunta logo surgiu e ele, cabelos desgrenhados, olhos arregalados e gestos teatrais, arrancou do bolso do colete um de seus famosos bilhetinhos, aquele dirigido à Executiva local da agremiação, onde dizia que “nós, do PTB, temos que ser como mulheres de César; não basta que sejamos honestos, temos de parecer honestos”. E concluiu dizendo que se o presidente local estivesse no palanque, ele ali não subiria. Logo mais à noite, a prova final. Jânio foi para o palanque, discursou e até hoje ninguém sabe onde se meteu o tal presidente petebista, que não deu as caras no evento.

Renúncia – 1

A renúncia mal explicada de Jânio o acompanhou pelo resto da vida. Em todo lugar onde pisava se via diante de perguntas sobre o tema, como conta o jornalista Sebastião Nery, que o acompanhava numa feijoada de aniversário do ex-deputado Wilson Raal, em São Paulo. Mesa cheia de amigos, o anfitrião incita o ex-presidente a aproveitar o momento e contar por que havia renunciado. Jânio ficou vermelho, inflou o peito e, como se fosse explodir, disse: “Dir-te-ei, Wilson. Dir-te-ei. Perguntaste, queres resposta. Tê-la-ás, Wilson! Renunciei à Presidência porque a comida do Palácio da Alvorada era uma merda! Uma merda, Wilson, como a da tua casa!” Levantou-se e foi embora.

Caipirinhas

Não foi o que aconteceu em outra de suas visitas a Mogi, quando foi convidado a almoçar no antigo Terraço Paulo, restaurante que marcou época na esquina das ruas Ricardo Vilela e Capitão Manoel Caetano, no Centro. Ali, ele foi recebido com um arroz à carreteiro que o proprietário da casa, o expedicionário Paulo Pereira de Carvalho, fez questão de preparar. Jânio não só elogiou a comida, como fez questão de acompanhá-la com pelo menos quatro caipirinhas e algumas cervejas…

Renúncia – 2

Quintanilha Ribeiro, amigo de Jânio, estava em casa quando recebeu um telefonema. Estava no banho, todo ensaboado, quando o telefone tocou. Jânio queria que ele chegasse logo ao Planalto. Foi rápido. E Jânio lhe comunicou: “É renúncia”. Ele discordou: “E o País, o que vai dizer de nós?”. “Dentro de 48 horas voltaremos nos braços do povo,” retrucou o presidente. “Ora Jânio, dentro de 48 horas alguém já estará aí no seu lugar e seremos todos carne de vaca”. Jânio não deu ouvidos a Ribeiro. E deu no que deu…

Salsicha

Sebastião Nery ia num táxi, em São Paulo, quando o motorista lhe indaga: “Doutor, o senhor consegue entender o Jânio?”. E ele: “Não. Desconfio, mas não entendo”. Volta o motorista: “Eu também não. Aquele homem é como salsicha, ninguém sabe o que tem dentro.”

Tem alguma boa história sobre políticos para contar? Então envie para o e-mail:
darwin@odiariodemogi.com.br

 

COTIDIANO
MEMÓRIA Capa do saudoso Jornal da Tarde, no dia seguinte à vitória de Jânio Quadros na eleição para a Prefeitura de São Paulo, em que ele venceu o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, no ano de 1986