Fora da escola

Uma das frases da campanha contra o trabalho e a exploração sexual infantil em Mogi das Cruzes, “Brincar, estudar, viver, trabalhar só quando crescer”, busca conscientizar contra a violação dos direitos da criança e do adolescente. Entre as ilegalidades está o uso das crianças para pedir esmolas, flagrado em semáforos e calçadas em Mogi e nas cidades da Região do Alto Tietê.
A criança fora da escola cumpre, em geral, um ciclo vicioso: são meninos e meninas pobres, filhos de pais e avós que também não concluíram os ensinos básicos. Fora da escola, o futuro desses núcleos familiares é repetido durante gerações e os primeiros impactos disso são sentidos na adolescência. Fora dos anos correspondentes ao do aprendizado oficial, o cidadão adolescente começa a ser excluído quando disputa uma vaga em programas, como o do primeiro emprego. Estar na escola é um dos requesitos básicos para ser selecionado.

Um dos relatos feitos a este jornal pelas conselheiras tutelares do Centro e de Braz Cubas, semanas atrás, fortalece os argumentos sobre os riscos que correm os meninos usados por pais e familiares na busca do sustento da família e no distanciamento com a escola. Quando criança, um dos jovens mortos durante a sequência de chacinas ocorridas em Mogi das Cruzes até o ano passado, pedia esmola em cruzamentos. As tentativas do estado e de lideranças sociais para mudar o destino desse garoto foram frustradas. Na adolescência, ele migrou das ruas para o tráfico de drogas.
Em regiões de consumo e venda de drogas da Cidade, há um crescente uso de crianças e jovens por traficantes, flagrado pelos Conselhos Tutelares, entidades de acolhimento de menores e pelas Polícias Militar e Civil.

Alguns desses menores, contam que conseguem receber R$ 150, R$ 200 por dia. E quando eles conversam com assistentes sociais e conselheiros, os argumentos desses profissionais são vencidos pela realidade desses garotos: a rua dá mais dinheiro do que o trabalho formal.

A campanha contra a exploração infantil sexual e no trabalho toca em outras violações de direitos e dos deveres para com a criança e o adolescente. É uma iniciativa governamental válida, porém muito aquém das necessidades: sem uma escola pública de qualidade e a promoção de oportunidades sem distinção a todos os jovens, negros, pobres e não tão pobres, as novas gerações continuarão sendo presas fáceis para os desencantos das ruas. Prova maior disso são o aumento do número de jovens recolhidos na Fundação Casa, e a faixa etária dos detentos das cadeias brasileiras, a maioria, jovens que deveriam estar ingressando na faculdade.


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