EDITORIAL

Fora do prumo

Espelho da violência, o crime contra o idoso fere um pouco mais o tecido social por ser a vítima quem é: um indivíduo com 60 anos ou mais que tem os direitos violados dentro da própria família e resiste, em grande parte das vezes, em fazer a denúncia porque estará entregando à Justiça e ao escrutínio dos vizinhos, da sociedade, alguém de apreço pessoal, um filho, um neto ou um sobrinho.

É uma situação complicadíssima, construída pela desinformação ou desamparo físico e emocional da vítima, e uma forte crise de valores humanos.

Neste ano, 116 atendimentos e 22 boletins de ocorrência foram registrados pela Delegacia de Polícia Especializada na Proteção ao Idoso de Mogi das Cruzes. Os casos são de estelionato, furto, injúria, ameaças e maus-tratos.

A proteção dessa parcela da população é desafiadora. O mundo parece mesmo fora do prumo. Mogi, felizmente, possui duas ferramentas para acompanhar os casos, a Delegacias Especializada na Proteção ao Idoso e o Conselho Tutelar. Mas os braços desses organismos são curtos. Inclusive, no âmbito legal. A Delegacia Especializada, por exemplo, só pode agir quando há o descumprimento do Estatuto do Idoso. E o Conselho Tutelar pressiona, mas depende do poder público para ter resultados mais sólidos.

Há um descompasso entre as políticas públicas de proteção e o aumento da população idosa e das ilegalidades cometidas contra os mais velhos.

O Brasil caminha para ter mais idosos do que crianças de zero a 14 anos. Previsão antiga do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que em 2030 – em apenas 11 anos -, a inversão dessa curva etária irá exigir mais recuresos financeiros e serviços públicos para o acolhimento dos idosos, independene de eles serem abandonados ou não terem família.

A cidade está preparada para isso? Não. Mas Mogi avança aos poucos, com manutenção de serviços específicos para os idosos. Mas, o atendimento é restrito, especialmente em setores como a saúde e a assistência social. Até pouco tempo, havia um geriatra na rede pública.

Para atender aos idosos, dois fenômenos precisam ser considerados: o aumento da expectativa de vida e a diminuição do tamanho das famílias, que estão menos integrantes. Comparativamente como o passado recente, há mais pessoas sozinhas – sem filhos ou parentes – que serão ainda mais dependentes do estado, como frisou Juracy Fernandes, do Conselho Tutelar de Mogi, em nossa reportagem de sábado último.

Além de se pensar em tudo isso, a violência contra o idoso torna todas essas falhas ainda mais graves porque ela ocorre dentro de casa, onde menos de espera e o estado tem ainda mais dificuldades para atuar.