Fugindo do maniqueísmo

É pouco, dirão os mais severos defensores do patrimônio histórico. Para que preservar o que não tem serventia, perguntarão os defensores da ocupação exclusivamente utilitária do espaço urbano. A propósito do tombamento do antigo quartel da Força Pública, na Rua Coronel Souza Franco, as duas partes podem lá ter sua razão. De nossa parte ficamos com a convivência harmônica. Cremos possível fugir do maniqueísmo que tem pautado as disputas atuais, sobretudo políticas, neste País de triste presente.Construído em 1900 a partir de projetos padrões utilizados pelo Governo do Estado para abrigar serviços públicos, o prédio que hoje serve de sede para o Comando de Policiamento da Área Metropolitana tem pouca importância arquitetônica. Mas é grande o valor histórico e afetivo para a comunidade. Durante 50 anos serviu àquilo para o que foi construído. O Fórum ocupava os espaços do andar superior, a Cadeia Pública ficava no térreo. As grades eram frágeis e, dizem contemporâneos, não era exceção assistir conversas entre detentos, de um lado, e familiares à calçada. E, na hora do almoço, muitos parentes levavam suas marmitas para oferecer aos presos.
Mas os tempos mudaram, a Cidade cresceu e os costumes se alteraram. Do castelinho da Rua Coronel Souza Franco o Fórum foi para uma casa alugada na esquina da Praça Oswaldo Cruz com a Rua Barão de Jaceguai, enquanto se construía a nova sede, ali em frente. Desse prédio, em que ficou pouco – perto do histórico agora tombado – o Fórum transferiu-se para o Centro Cívico, onde está hoje. A cadeia seguiu rito semelhante, saindo dali e indo para a Praça Norival Tavares. Ficou por lá até a construção do Centro de Detenção Provisória no Taboão.
Nessa trajetória, o prédio da Força Pública teve períodos áureos e outros de decadência. A decadência ocorreu quando construções, em nada harmônicas com a original, ocuparam seu entorno. A última das quais, o ‘puxadinho’ da Diretoria Regional de Ensino, do outro lado da Rua Coronel Souza Franco. Dentre os áureos, o atual, que o mantém em ótimas condições, preservando-lhe a originalidade.
Há que se pensar, com responsabilidade, no day after do tombamento. Manter o prédio histórico bloqueado como hoje à comunidade dará razão tanto aos que não se opõem à sua demolição quanto aos que defendem toda e qualquer preservação. Mas, adequá-lo ao uso comunitário, nele instalando parte do Centro de Cultura e Memória Expedicionários Mogianos, por exemplo, poderá torná-lo um dos espaços públicos mais úteis à compreensão do nosso passado e à formação dos nossos alunos. Tudo na busca da convivência harmônica, a mesma que abomina o maniqueísmo que separa concidadãos.


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