ESPAÇO CULTURAL

Galpão Arthur Netto tem futuro indefinido

Espaço cultural deixará o prédio atual no Jardim Santista ao final deste semestre, mas ainda não tem endereço definido. No momento, três turmas de teatro e uma de circo participam das oficinas bancadas pelo Programa de Fomento à Arte e Cultura. (foto: Vitoria Mikaelli)
Espaço cultural deixará o prédio atual no Jardim Santista ao final deste semestre, mas ainda não tem endereço definido. No momento, três turmas de teatro e uma de circo participam das oficinas bancadas pelo Programa de Fomento à Arte e Cultura. (foto: Vitoria Mikaelli)

Instalado desde 2006 no número 23 da Avenida Fausta Duarte de Araújo, no Jardim Santista, o Galpão Arthur Netto de Cultura e Cidadania poderá encerrar as atividades no segundo semestre deste ano. O plano da administração é mudar de endereço, embora ainda não exista nenhum local em vista. Essa situação simboliza a luta enfrentada pelo espaço, que apesar de ter sido contemplado pelo Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac) em 2018, tem dificuldades financeiras para manter as portas abertas.

Mesmo com contratempos, o Galpão tem realizado as atividades previstas pelo incentivo da administração pública: três turmas de teatro e uma de circo, em oficinas de um ano de duração, com aproximadamente 50 participantes. O projeto, assinado pela Associação das Culturas Brasileiras Jabuticaqui, tem sido tocado com os R$ 50 mil repassados pela Prefeitura, porém as demais ações que costumavam acontecer no espaço foram minguando até quase sumirem de vez.

Quem conta estes detalhes à O Diário é o engenheiro civil mogiano Thiago Fernando da Costa, 38, um dos atuais responsáveis pela gestão do endereço. Ele conheceu o teatro há 9 anos, no palco do próprio Galpão, e hoje está em vias finais de adquirir o registro profissional de artista. Segundo ele, estar à frente da entidade é “cuidar de um espaço cada vez mais vazio, já que o público tem se afastado do teatro, da música e da dança”.

“Conseguimos subsistir agora sendo contemplados pelo Profac, mas já há 10 anos fazemos tudo sem dinheiro. Agora não dá mais para continuar assim, pagando aluguel e outras despesas. Ou cuidamos disso ou fazemos arte, e queremos voltar a fazer teatro, com novas turmas e novas trupes”, resume Thiago sobre a situação.

Prova de que a casa vive tempos sombrios há tempos é a campanha de financiamento coletivo ‘Galpão Resiste’, criada na internet em janeiro de 2018. O objetivo? Arrecadar R$ 30 mil para manter o endereço “aberto e funcionando por seis meses”. O resultado? Pouco mais de R$ 1 mil doados.

Na opinião de Thiago, a “vaquinha” perdeu forças porque “todo mundo que trabalha ali está de graça, por amor à arte”, e por isso não houve mão de obra e tempo hábil para divulgá-la tanto quanto necessário. Independente disso, a questão principal para ele, é que “não existe incentivo para que haja público”. “É uma crise cultural, que vai além de questões financeiras. É um problema educacional, uma crise de identidade, em que as pessoas não sabem apreciar nada que não seja entretenimento, que funciona como um analgésico para elas e não discute formas mais profundas de sentimento, religiões, política e relações humanas”.

O engenheiro civil segue dizendo que a cada mês percebe um “esvaziamento” na audiência, motivado não só por uma questão educacional, mas também por um quadro político não exclusivo da cidade. “É algo generalizado, que acontece no Brasil e no mundo de modo geral. As pessoas não se falam, não se respeitam, e a arte, lugar da liberdade, sofre com isso”.

Para minimizar os problemas, que incluem dificuldades em relação à documentação, o Galpão passou neste ano a cobrar o uso do espaço por grupos de fora, taxa avessa à ideia inicial da entidade, que costumava ceder agenda para a classe artística de Mogi e região sem cobrar nada, e ainda custeava água, luz e outras despesas.

Com exceção das atividades organizadas pelo Jabuticaqui e pelo grupo Contadores de Mentira, de Suzano, que recentemente se abrigou no Galpão, outras ações têm sido raras no endereço, o que leva a administração a tomar uma medida drástica: fechar as portas, e se for possível, encontrar um outro endereço para reabri-las na sequência.

“Assim que concluirmos a formatura das turmas de circo e teatro vamos prestar contas ao projeto, e até lá vamos ver se conseguimos um novo território. Como já realizamos aproximadamente 800 espetáculos e oficinas de todos os gêneros, que receberam cerca de 500 mil pessoas, gostaríamos de pedir a ajuda do município para nos ceder um terreno ou uma casa”. Enquanto isso não acontece Thiago e outros gestores buscam um local para armazenar os equipamentos de som e iluminação, em caso de não conseguirem uma nova sede.

Situação semelhante vive outra casa de cultura local, a Associação Cultural Casarão da Mariquinha, que deixa o prédio centenário da esquina das ruas Alfredo Cardoso e Ricardo Vilela neste mês de março. Sobre este fato, Thiago diz que é “triste ver um espaço cultural fechando”. Questionado se parte do público pode migrar para o Galpão, ele diz que não. “Por mais que tenhamos públicos parecidos, temos outra linguagem”.